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Alessandra Olivato

Homenagem

Somos muito privilegiados por podermos ter sido mais ingênuos do que uma criança de dez anos é hoje

Por Alessandra Olivato

19 Maio 2021 às 09:47

Começo dos anos 80. Uma pracinha, uma escola. Saia plissada, shorts com elástico. Conga, kichute, adidas. Carteiras duplas de madeira. Português, matemática, ciências, educação física, educação artística, estudos sociais, OSPB. D. Terezinha, D. Eliana, D. Heloísa, D. Sílvia, Seu Veronezi, D. Silvânia, D. Yvone. Escolher os pares pra dançar quadrilha. Torneios de ping-pong e de bolas de gude. Caderninho de receitas, álbum de figurinhas, ensaio de jogral, de teatro. As Menudetes. A loira do banheiro. Nota baixa ou advertência tinha que se explicar com o pai e com a mãe. Um simples olhar do professor era o suficiente para nos lembrar quem é que mandava. Hino nacional.

Tinham as meninas bravas que metiam medo: Cíntia, Silmara, Renata, Giovana, Andréa, Sandra. Era bom não mexer com elas. Com os hormônios em plena ascensão, os meninos se metiam em encrencas um pouco mais perigosas. Época de gangues. Daqui era o MDF – Malucos do Frezzarin – Jefferson, Roni, Jóia, Xandão, Feio, João, Marco, Joivan, Marcelo, Michela e demais que disputavam algum tipo de hegemonia com os de outros bairros, se metendo em brigas na Squalidus, com a arqui-inimiga Gangue da Ilha e quaisquer outros que se metessem a besta.

Outros atazanavam quem parecia mais mocorongo na escola, geralmente as meninas. Reginaldo, Tocha, Ednei. Arrancávamos a tampa do joelho correndo na pracinha, era prego que entrava no pé, pedido de namoro por bilhetinho, intrigas pra cá, braços quebrados pra lá, choro das meninas, socos dos meninos, a Susi que aprontou não sei o que e muita gente foi parar na diretoria, o Gê que atrasou o relógio da escola.

A amizade ultrapassava os muros do Sesi 101. Houve época em que uma turma almoçava correndo pra poder passar na casa dos demais e ir todo mundo – a pé – pro Centro Cívico. Um levava a bola de basquete, outro a de vôlei. Suados, sujos e maltrapilhos, por volta das 18h retornávamos da Colina até o Frezzarin. A pé. Não tinha essa de carro de pai e mãe pra pegar a gente. Também tinha a queimada: riscos no asfalto com tijolo definia as equipes pra levar as boladas. Ainda sobrava energia para a lição de casa, para o pega-pega e para os ensaios dos desfiles.

Como se não bastasse, não víamos a hora que chegasse o sábado para nos encontrarmos de novo nas “brincadeiras” ou na quermesse. Na casa de quem ia ter brincadeira? E as domingueiras no clube com as roupas coloridas dos anos 80? Verde limão, laranja, lilás, faixas na cabeça, camisões com desenho de prancha de surf, polainas, calças bag. Dança com passinho.

O início de muitas histórias. O Luciano que tinha o sonho de ser político, e foi. A Alê, que amava estudos sociais e português e virou socióloga e metida à escritora. A Elô que continua um doce de pessoa e formou uma linda família. Dri, inesquecível Miss Pig, que ganhou um concurso de dança na TV. A Eliete que hoje faz parte dos profissionais na linha de frente da saúde. A Sandra, que era das que eu temia e hoje é tão querida. O Sandro e a Clau que seguiram a vocação religiosa.

Contado assim, enfeitado de nostalgia, parece que tudo eram maravilhas e que não tínhamos problemas. Não é verdade. A questão é os problemas não eram o foco, ocupados que estávamos em viver. Pais inclusive. Que ainda não eram neuróticos com a possibilidade de o filho se frustrar porque recebeu uma nota baixa ou por causa da brincadeira maldosa do colega, o que acontecia quase todo dia. Nem anjos nem demônios, de lá pra cá tenho certeza que tentamos fazer o melhor que pudemos nesse tempo que nos foi concedido. Algumas vezes conseguimos, outras não. Reinvenção é nosso mantra.

Deste reencontro por enquanto virtual, surge uma primeira constatação: não há ranços nem sentimentos ruins. Mesmo do Guto que invejava o presunto que tinha na casa do Caio e a Caloi Cross do Roni – que inclusive tornou-se campeão brasileiro de ciclismo… Mesmo aqueles de nós que não tinham as roupas de marca a que poucos tiveram acesso. É claro que o mundo mudou, mas isso tudo me fez reforçar a ideia de que muitos problemas desaparecem ou não têm relevância se não dermos importância pra eles. Faz reafirmar a pergunta de por que problematizamos tanta coisa hoje em dia que poderia simplesmente ser deixada pra lá, e perguntar por que tudo se tornou ofensivo, traumático ou nos divide.

Desde a lembrança dos perrengues fora da escola, das broncas dos professores e dos castigos dos pais, nenhuma marca negativa parece ter ficado dessa época em que o pior castigo era o pai não deixar sair por um mês e sermos obrigados a ficar só na TV. Uma época em que se quiséssemos falar com alguém, ficávamos na fila do orelhão pra ligar para o vizinho da pessoa que não tinha telefone para aguardar a resposta no dia seguinte. De boa. Sem morrer de ansiedade porque alguém não responde em cinco minutos.

Não é possível mencionar todos de que me lembro, mas todos importam. Soa tão clichê dizer isso, mas só quem viveu os anos 80 conheceu um mundo sem onze de setembro, bullying, ódio entre direita e esquerda, covid e vício em rede social. Somos muito privilegiados por podermos ter sido mais ingênuos do que uma criança de dez anos é hoje. Um pedacinho da história do Sesi 101 mas que poderia ser também a história de tantos outros que estão lendo. E que venha logo o churrasco com todo mundo vacinado!

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.