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Pelas Páginas da Literatura

Filme “A filha perdida” adapta livro de Elena Ferrante

Sucesso da autora italiana chegou à Netflix no final de dezembro, com direção e roteiro de Maggie Gyllenhaal; leia a crítica

Por Marina Zanaki

12 de janeiro de 2022, às 10h43 • Última atualização em 14 de janeiro de 2022, às 10h53

Um grande artista consegue transformar sentimentos e emoções em uma história, usando a trama para tocar em pontos sensíveis e estabelecer um diálogo profundo com o público. Esse é o processo de escrita que a autora italiana Elena Ferrante descreve em seu livro “Frantumaglia”, e que aplica a todas suas obras.

Olivia Colman interpreta a professora universitária Leda – Foto: Netflix / Divulgação

Mas essa também é a forma como a diretora e roteirista Maggie Gyllenhaal adapta “A filha perdida”, livro homônino da italiana, para o cinema. Indo além da obra original, ela consegue criar um filme incrível e marcante. O longa estreou em 31 de dezembro na Netflix e está entre os mais vistos esse ano na plataforma.

Na história, acompanhamos a professora universitária Leda (Olivia Colman), que vai para a praia nas férias. O momento de estudos e descanso se transforma quando uma família ruidosa se hospeda no mesmo destino.

Leda passa a observar o comportamento dos parentes, e seu olhar é atraído para a relação entre Nina (Dakota Johnson) e a filha Elena (Athena Martin). A cumplicidade entre as duas faz Leda evocar memórias de sua própria relação com as filhas quando crianças.

Mas a relação entre Leda e essa família não será apenas platônica. Mesmo sem querer, Leda acaba envolvida nas tensões familiares enquanto revive seus fantasmas do passado.

A atuação de Olivia Colman no papel principal é muito marcante. A personagem é cheia de contradições e defeitos. Mesmo assim, Olivia consegue imprimir humanidade à Leda, e mesmo nos momentos em que soa egoísta, ainda consegue ser compreendida em toda sua complexidade.

Como não poderia deixar de ser, o filme tem mudanças em relação ao livro. O final do longa parece mais esperançoso e redentor, por exemplo, e a história se passa na Grécia e não na Itália. Mas a alteração que mais merece destaque é a escolha da língua.

Falado em inglês, ele abre mão de um aspecto importante na obra de Ferrante, que é a contraposição entre o dialeto napolitano e o idioma italiano. Enquanto o primeiro representa a pobreza e remete ao passado de Leda, o outro foi buscado por insistência pela personagem para se distanciar de suas origens. E é justamente a partir do som do dialeto que Leda primeiramente se incomoda com a família ruidosa, e várias construções de sentido são feitas a partir disso.

Ao ler a tradução de “A filha perdida” para o português, obviamente todas essas nuances se perdem. Um filme falado no idioma original seria a possibilidade de ouvir o dialeto e a língua “culta” – ainda que muito se perdesse na legenda, seria interessante sentir esses sons.

O livro “A filha perdida” tem como temática principal a relação entre mães e filhas. No filme, Maggie Gyllenhaal optou por focar na maternidade, sem explorar tanto o outro lado da moeda. Longe de ser um problema, a decisão promove uma imersão nas belezas e dificuldades de ser mãe. Cheio de metáforas e símbolos, o filme propõe um importante diálogo sobre o peso das expectativas criadas em cima das mulheres e questiona como encontrar a felicidade a partir disso.

“A filha perdida” lança um olhar cru sobre a complexidade que é ser mãe – portanto, não é um filme simples de ser visto. Em suas duas horas, faz provocações que mexem com o espectador e o obrigam a encarar a maternidade sem enfeites e idealizações. Fica aqui a forte recomendação do filme e, claro, do livro de Elena Ferrante.

Marina Zanaki

Repórter do LIBERAL, a jornalista Marina Zanaki é aficionada pela literatura e discutirá, neste blog, temas relacionados ao universo literário.