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Estúdio 52

‘Uma Noite em Miami’ e as diferentes representações de um ícone

Indicada ao Globo de Ouro como melhor diretora, Regina King entrega um filme poderoso e que faz jus ao legado de seus heróis

Por André Rossi

04 fev 2021 às 11:59 • Última atualização 04 fev 2021 às 17:31

Com base na peça teatral criada por Kemp Powers (que também adaptou o roteiro para o filme), “Uma Noite em Miami” imagina como foi o encontro real entre o boxeador Muhammad Ali (na época, Cassius Clay), o músico Sam Cook, o jogador de futebol americano Jim Brown e o líder afro-americano Malcom X.

Jim Brown, Malcom X, Sam Cook e Muhammad Ali em “Uma Noite em Miami” – Foto: Divulgação

A boa repercussão do filme ficou clara nesta quarta-feira (3) com a indicação de Regina King como melhor diretora no Globo de Ouro, premiação que ocorre no dia 28 de fevereiro. A obra tinha condições de figurar também entre os melhores filmes, mas ficou de fora. Confira todos os indicados aqui.

Na trama, os quatro amigos decidem festejar o primeiro título mundial de Ali, em fevereiro de 1964. Em um quarto de hotel simples de Miami, eles discutiram política, amizade, trivialidades… mas os detalhes nunca foram “documentados”, por assim dizer.

A premissa de imaginar o teor dessa conversa é instigante pelo momento que cada um desses ícones vivia. O boxeador estava prestes a se converter muçulmano, Malcom X vivia em rota de colisão com o chefe da Nação do Islã e Brown começava sua carreira no cinema para eventualmente deixar a NFL.

Porém, o grande embate do filme é ficcional: Sam Cook, apesar de bem-sucedido musicalmente, ainda não tinha se “provado” aos olhos de Malcom X.

Mas antes de entrar mais a fundo na obra, é necessário fazer uma ponderação sobre as diferentes formas de se retratar um ícone. Em 1992, o consagrado diretor Spike Lee – completamente ignorado pelo Globo de Ouro deste ano – lançou “Malcom X”, um verdadeiro épico de mais de três horas sobre a trajetória do ativista.

Denzel Washington como Malcom X no filme de 1992 – Foto: Divulgação

Estrelado por Denzel Washington, o filme é baseado na autobiografia de Malcom X e consegue transpor para a tela as transformações pelas quais ele passaria. Você entende os motivos para ele acreditar que o enfrentamento seria a melhor autodefesa dos negros contra o racismo, ao contrário do discurso pacifista adotado por Martin Luther King.

Esses aspectos, no entanto, ficam diluídos em outras obras que o colocam em tela. “Ali”, cinebiografia de Muhammad Ali estrelada por Will Smith, praticamente retrata Malcom X como uma figura apática demais para revidar. Calmo, visivelmente abatido e sem a energia pela qual era conhecido.

Will Smith como Muhammad Ali e Mario Van Peebles como Malcom X – Foto: Divulgação

Em “Uma Noite em Miami”, Regina King também opta por uma visão mais ponderada de Malcom X. O período histórico exige isso, evidentemente, mas a diferença está na intensidade dos diálogos.

Ao abordar sem medo as contradições e fraquezas do personagem, a diretora proporciona momentos de “explosão” que entregam as doses necessárias para satisfazer aqueles que conhecem sua biografia.

A superioridade do trabalho de Regina King também fica escancarada quando comparado com “Ali”. O roteiro do filme de 2001, dirigido por Michael Mann, não consegue alcançar o homem por trás do mito, se tornando apenas um retrato do lendário boxeador.

Em quase duas horas e com outros três personagens para lidar, a diretora consegue traduzir a essência de Muhammad Ali de uma forma muito mais palatável, o que é ótimo neste caso.

São filmes com propostas totalmente diferentes, claro, mas é impossível não compará-los enquanto mensagem. Agora, podemos voltar para “Uma Noite em Miami”. A partir daqui, com leves spoilers sobre elementos do filme.

Uma das forças de “Uma Noite em Miami” está na qualidade do elenco – Foto: Divulgação

No contexto do filme, Malcom via em seus colegas o potencial para que fossem porta-vozes da liberdade negra e da luta pelos direitos civis. Porém, encontra resistência deles para que aceitassem esse papel.

São grandes personalidades em cena, o que garante diálogos afiadíssimos. Kemp Powers merece todos os créditos por tornar tão factível os posicionamentos dessas personalidades; o dramaturgo foi responsável por adaptar o roteiro para o cinema.

A escolha do elenco merece aplausos. Kingsley Ben-Adir conseguiu dar o peso necessário para Malcom X, que já começava a encarar naquela época o papel de mártir que seria forçado a desempenhar.

Eli Goree É Muhammad Ali. Além da semelhança física, toda a sagacidade e irreverência do boxeador foram perfeitamente transportadas para a tela.

Já Leslie Odom Jr. (indicado como melhor ator coadjuvante no Globo de Ouro) consegue entregar o charme de Sam Cook e não fica devendo nem um pouco quando tem de interpretar a música mais icônica do cantor. Uma das cenas mais emocionantes do longa, apesar de caber uma ressalva em instantes.

Apesar de Aldis Hodge estar muito bem no filme, verdade é que Jim Brown serve mais como impulsionador dos demais personagens. Mesmo brilhante, a trajetória do campeão do Super Bowl de 1964 é pouco explorada.

Diferentemente de outros filmes recentes adaptados de peças de teatro, como “The Boys in The Band”, “Uma Noite em Miami” consegue equilibrar o teatral com o cinematográfico. Mais de 80% do filme se passa apenas no quarto de hotel, mas as “escapadas” que Regina King por outros cenários dão fôlego para o longa nunca se tornar monótono.

O final de “Uma Noite em Miami” é de uma potência inacreditável. A sequência envolve Leslie Odom Jr. cantando “A Change is Gonna Come”, o que amarra a trama dos quatro protagonistas de forma sublime.

Regina King toma liberdades cronológicas para fechar a trama – Foto: Divulgação

Por questão de critério, no entanto, me incomoda a liberdade que a diretora toma ao inserir a canção – que virou sinônimo de resistência – naquele contexto, já que, cronologicamente, a mesma já havia sido lançada. A escolha artística serve para fechar o arco entre Malcom X e Sam Cook.

Não vejo problema algum em um filme inteiro ser baseado na hipótese de “o que esses grandes homens conversaram naquela noite?”, vide “Dois Papas”, mas mudanças cronológicas sempre me fazem torcer o nariz.

Reconheço, porém, que essa liberdade cumpre papel fundamental com a proposta do filme. Assim, não encaro como um ponto fraco, pelo contrário, apenas creio ser necessário o apontamento.

“Uma Noite em Miami” é um filme primoroso que me deixa extremamente empolgado pelos próximos trabalhos da diretora. E fica a dica: as três obras citadas neste artigo estão disponíveis no Amazon Prime Video.

Nota: 4,5 de 5

André Rossi

Repórter do LIBERAL, está no grupo desde janeiro de 2019. Sempre em conflito por não saber o que priorizar: a eterna lista de filmes que só aumenta, as séries pendentes que não dão descanso, ou o backlog de RPG’s que nunca termina.

Estúdio 52

Quer saber sobre aquela série que está bombando na internet? Sim, temos. Ou aquele jogo que a loja do seu console vai disponibilizar de graça? Ok. Curte o trivial e precisa dos lançamentos do cinema? Sem problema, é só chegar.