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Estúdio 52

‘Snyder Cut’ minimiza problemas, mas não salva ‘Liga da Justiça’

Ainda que versão do diretor homogenize o irregular roteiro, falta de ritmo e de sutilezas comprometem a experiência de quatro horas

Por André Rossi

24 mar 2021 às 16:20

Quatro anos depois de “Liga da Justiça” (2017), o diretor Zack Snyder retorna para entregar a sua versão da obra. Batizado de “Snyder Cut”, o filme de quatro horas foi lançado na última sexta-feira (19) e pode ser alugado em plataformas digitais.

Ainda que essa edição definitiva homogenize o irregular roteiro da obra original, a falta de ritmo e de sutilezas comprometem a experiência. Fato é de que as fundações do pretenso universo compartilhado dos heróis da DC foram feitas às pressas, e “Liga da Justiça”, tanto a versão de cinema quanto a de Snyder, sofrem com a falta de planejamento da Warner.

Este artigo praticamente não tem spoilers do “Snyder Cut”, pois apesar de trilhar caminhos diferentes, o resultado é muito similar ao de 2017. Apenas na batalha final temos uma mudança de rumo, ainda que com resultados equivalentes. Quando chegarmos lá, haverá o aviso de spoiler.

Uma breve contextualização sobre as origens do “Snyder Cut”. Depois do fracasso de bilheteria de “Batman vs Superman: A Origem da Justiça” (2016), a Warner estava com todos os pés atrás sobre a visão de Snyder para os heróis. O objetivo do estúdio era alcançar o sucesso do MCU (Universo Compartilhado da Marvel), cujo tom é mais leve e não tem medo de abraçar a galhofa de vez em quando.

Já a DC, por outro lado, seguia caminho oposto. A trilogia Batman de Christopher Nolan era mais calcada na “realidade” e pautou todos os projetos da Warner até chegar em “Liga da Justiça”, quando a ruptura aconteceu.

“O Homem de Aço” (2013), dirigido por Snyder, herdou a ambientação realista. Diferentemente da Marvel, a Warner não se preocupou em fazer filmes prévios sobre os demais heróis e jogou todos de uma vez em “Liga da Justiça”.

O corte do cinema sofre demais com isso, já que é impossível desenvolver tantos personagens e estabelecer motivações em apenas duas horas.

Snyder teve de deixar o projeto após o suicídio da filha – Foto: Divulgação

Para tentar aliviar o tom do filme da Liga, a Warner trouxe Joss Whedon, diretor dos dois primeiros “Vingadores”, para ajudar no roteiro. Só que, no meio do processo, a filha de Snyder, Autumn Snyder, cometeu suicídio. Compreensivelmente, ele se afastou do projeto.

Whedon finalizou o filme, que é puramente ruim. Raso de motivações, cenas mal explicadas e totalmente esquecível.

A insatisfação dos fãs imediatamente alimentou campanhas pela versão original de Snyder. Depois de anos de insistência, a Warner deu sinal verde (e mais US$ 70 milhões) para viabilizar o filme. E aqui estamos.

Detalhes x desenvolvimento de personagem

Com quatro horas de duração, Zack Snyder não pode mais reclamar de que não conseguiu contar a história que queria. E, possivelmente, este é o maior problema do filme: a trama.

Se na versão de cinema eram perceptíveis as brechas de narrativa, o mesmo não acontece aqui. O diretor consegue mostrar tudo em mínimos detalhes. Em alguns momentos, isso é positivo.

É o caso de Victor Stone, o Ciborgue, que fora pensado como o personagem que se tornaria o “coração da equipe”, mas acabou subaproveitado na versão de cinema. Agora, temos o desenvolvimento de suas motivações, medos e conflitos. Porém, infelizmente, todas são rasas.

Ciborgue deixa de ser coadjuvante no “Snyder Cut” – Foto: Divulgação


Victor perdeu a mãe em um acidente de carro. Ele mesmo só sobreviveu porque o pai o salvou com o uso de uma Caixa Materna, o transformando no ser cibernético que conhecemos no filme.

Basicamente, o grande conflito do personagem é culpar o pai pela morte da mãe, com o recurso extremamente batido de roteiro de que evento “x” não ocorreria se pessoa “y” estivesse presente.

O arco de luto, redenção e aceitação de sua nova condição está desenvolvido na tela do “Snyder Cut”, mas é só “ok”. Tudo é superado na base da tragédia, temática preferida do diretor quando o assunto é super-heróis.

Snyder parece confundir, a todo momento, desenvolvimento de personagem com cenas expositivas. Durante uma longa sequência, a Mulher-Maravilha explora uma caverna em busca de detalhes sobre a ameaça que se aproxima.

A cena não acrescenta nada ao roteiro, já que posteriormente a heroína vai falar tudo o que viu para o Batman, reforçando algo que a audiência já sabe.

Os outros dois heróis apresentados na Liga, Flash e Aquaman, seguem subdesenvolvidos, ainda que tenham mais cenas no novo corte. O primeiro permanece como alívio cômico, com algumas das cenas mais constrangedoras do filme.

O longa tenta dar maiores motivações para o Aquaman. Os diálogos com outros personagens de seu núcleo só aprofundam o personagem porque já sabemos o que vem a seguir, já que o herói teve um filme solo em 2018.

Lobo da Estepe deixa de ser um vilão genérico e ganha motivações – Foto: Divulgação

Quem mais se beneficia com o corte de quatro horas é o vilão. Lobo da Estepe se revela um personagem tridimensional, que está em busca de redenção para cair nas graças de seu mestre, Darkseid. Além de ter uma aparência mais ameaçadora, existe uma complexidade de design no protagonista, que dialoga com momentos de vulnerabilidade.

Sem ninguém para segurá-lo, Zack Snyder entrega grandes cenas de batalha, como a do núcleo das Amazonas e do conflito contra Darkseid no passado. São nestes aspectos que o filme brilha, já que o diretor é bom nisso: combates estilizados.

Porém, tudo é lerdo no filme. Veja, não se trata da duração, e sim da forma como os eventos ocorrem. A sensação é de que a obra só engrena na terceira hora. E os slow motions tem grande culpa nesse sentido.

Filme esbanja estilo, mas não tem ritmo – Foto: Divulgação

Levantamento da IGN dos Estados Unidos aponta que as cenas em câmera lenta ocupam 24 minutos e 7 segundos. Isso equivale a 10% do filme.

Não seria um problema se o recurso se justificasse, se ressaltasse algum detalhe interessante do cenário. Na maior parte das vezes, é puro fetiche estético, como na famigerada cena entre Flash e uma salsicha.

Agora, vamos abordar alguns spoilers e seguir para a problemática “conclusão” do filme.

Saber quando parar

O evento mais empolgante do “Snyder Cut” é a luta final contra o Lobo da Estepe. Os heróis não conseguem impedir a união das três Caixas Maternas, Darkseid vem aí… até que Flash consegue voltar no tempo e impedir o apocalipse.

Como um entusiasta do Velocista Escarlate, é muito satisfatório ver o herói sendo decisivo. A versão de cinema o retratou somente como um alívio cômico, enquanto no “Snyder Cut” ele é ainda um alívio cômico, mas com uma grande cena.

Depois da conclusão da batalha – com direito a Darkseid recebendo a cabeça do Lobo da Estepe via portal interdimensional – Zack Snyder não se contenta em simplesmente encerrar a história. Em seu epílogo, ele emenda o final do filme com duas cenas pós-créditos que são absolutamente inócuas.

A Warner não vai mais financiar esse universo, mas o diretor segue jogando para os fãs. Já deu entrevistas dizendo que queria uma trilogia da Liga da Justiça, que topa fazer, para delírio do seu público.

É difícil avaliar o material sem ter a impressão de que se trata de uma egotrip. Existe um aspecto sentimental, em dedicar o filme para a filha, porém, na maior parte do tempo, Snyder continua reforçando o culto a sua própria personalidade.

Sejamos justos. “Snyder Cut” é melhor do que a versão de cinema. Não há discussão neste aspecto. Entretanto, isso não faz dele um bom filme.

Uma série de elementos e escolhas ainda são questionáveis. A maior delas é o Superman, algo que já é debatido desde os tempos de “o Homem de Aço”.

Visão de Snyder sobre o Superman sempre foi pessimista e soa ainda mais desgastada – Foto: Divulgação

A discussão sobre ressuscitar o Superman segue superficial e sem peso. Pior do que isso é o fato do personagem, símbolo máximo da DC, continuar tão desconectado da humanidade ao ponto de que é difícil simpatizar com ele.

Snyder sempre teve uma visão artística extremamente pessimista sobre o herói. Evidentemente isso não é exclusivo dele e vários autores já brincaram com o conceito.

Só não parece o tipo de visão de que o mundo precisa neste momento tão sombrio que vivemos. Ironicamente, a cena em que Superman veste o manto preto, se reconecta com as vibrações da terra e dispara em direção ao céu é de arrancar algumas lágrimas.

Trata-se de uma rima visual com “Homem de Aço”. Naquele ponto do filme de 2013, ainda havia infinitas possibilidades sobre o que o maior herói de todos os tempos poderia fazer pela humanidade. Algo definitivamente se perdeu no caminho.

No fim do dia, ame-o ou odeio-o, é impossível ficar indiferente ao trabalho de Zack Snyder.

Nota: 2 de 5

André Rossi

Repórter do LIBERAL, está no grupo desde janeiro de 2019. Sempre em conflito por não saber o que priorizar: a eterna lista de filmes que só aumenta, as séries pendentes que não dão descanso, ou o backlog de RPG’s que nunca termina.

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