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Estúdio 52

O impacto cultural de ‘Hamilton’ e a força da sutileza

Versão filmada do espetáculo da Broadway amplia alcance do musical, que se tornou símbolo de resistência nos EUA

Por André Rossi

18 fev 2021 às 13:51 • Última atualização 18 fev 2021 às 18:33

Diversos aspectos tornam “Hamilton” um dos musicais mais influentes de todos os tempos. Lançada originalmente em 2015, no Teatro Público de Nova York, a peça superou os limites geográficos com sua versão filmada em 2020, disponível no Disney+, e se estabeleceu como símbolo de resistência nos Estados Unidos.

A história gira em torno de Alexander Hamilton (1755-1804), primeiro secretário do Tesouro dos EUA e um dos responsáveis por estabelecer as bases do capitalismo norte-americano. Em um primeiro momento, pode ser difícil imaginar que a história de um dos pais-fundadores dos EUA poderia se transformar num dos maiores fenômenos da Broadway.

É aqui que entra a genialidade do ator e músico Lin-Manuel Miranda, criador da peça e intérprete de Alexander Hamilton. Depois de ler a biografia do político enquanto estava parado num aeroporto, o compositor decidiu adaptar a história para os palcos.

De origem porto-riquenha e nascido nos EUA, Miranda via Hamilton como o legítimo imigrante que chega ao país para vencer na base do trabalho duro e da perseverança. Esse ideal é refletido no espetáculo e, principalmente, na escolha do elenco, que é completamente multiétnico.

Eis o primeiro elemento verdadeiramente impactante da peça. Temos figuras essenciais para a formação dos EUA, brancas, sendo interpretadas por atores negros e latinos.

Lin-Manuel Miranda como Hamilton: a mente por trás de tudo – Foto: Disney+

Esse fato poderia não ser tão relevante quando a primeira versão da peça entrou em cartaz, mas ganhou peso durante a eleição do ex-presidente Donald Trump, em 2016. Em manifestações contra o político no ano seguinte, era possível ver frases do musical estampadas em cartazes de protesto, como trechos da canção “History Has Its Eyes On You”.

Vale lembrar que uma das promessas de campanha de Trump era a construção de um muro na fronteira com o México para impedir a entrada de imigrantes. Nesse  contexto, nada melhor do que lembrar que foram os imigrantes que construíram os EUA.

É nesse ponto que se concentram as “críticas” atuais ao modo como a história de Hamilton é contada no musical. Há quem cobre Miranda de não se posicionar tão claramente assim contra a escravidão ou a exploração da mão de obra imigrante.

No entanto, o posicionamento está lá, só que muitas vezes como pano de fundo. O musical foi escrito numa época em que Barack Obama era presidente dos EUA. Um homem negro comandava aquela nação. Apesar do racismo nunca ter sido erradicado, eram tempos de maior “tolerância”.

O elenco de “Hamilton” é formado por negros, latinos e brancos – Foto: Disney+

Com a ascensão da extrema-direita pelo globo e a escalada da violência contra a população negra, tivemos o “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) no ano passado, impulsionado pelo assassinato de George Floyd por policiais brancos. Novamente, frases do musical estamparam cartazes país afora, como as da canção “My Shot”.

Não há spoilers neste artigo, mas fica a sugestão: quando assistir “Hamilton”, se atente também ao que acontece em todo o cenário. A sutileza e a força da mensagem do musical está, por exemplo, na reação de um personagem em segundo plano, ou no trabalho de figuras de “menor importância” enquanto outras festejam.

Estilo, musicalidade e um grande inconveniente

Não são apenas os fatores políticos que fazem de “Hamilton” um fenômeno. Afinal de contas, todo musical que se preze precisa brilhar em um aspecto: as músicas.

Leslie Odom Jr. interpreta Aaron Burr e é uma das grandes vozes da montagem – Foto: Disney+

Todo o álbum foi composto com o hip-hop como fio condutor. Dessa forma, os diálogos são cantados e acelerados. As músicas são marcantes e ficam grudadas na cabeça. Então pode ter certeza que você vai se pegar cantarolando a trilha de “Hamilton” por um bom tempo.

Por conta do estilo, algumas sequências ganham ares bem mais contemporâneos. Os duelos armados, por exemplo, são antecedidos de batalhas de rap, habilmente executadas por um elenco muito talentoso,

Mesmo assim, a obra consegue passar por outros gêneros, como jazz e blues. Há ainda algumas pitadas de música clássica aqui e ali.

Além de agradar os ouvidos, a peça encanta pelo visual. Os figurinos trazem cores vibrantes  e reproduzem fielmente os uniformes militares da época.

“Hamilton” venceu 11 Tony Awards, incluindo de melhor figurino – Foto: Disney+

Ainda sobre aspectos técnicos, merece destaque a forma como o palco reage a narrativa. Existe um círculo ao centro que se movimenta, servindo para rodar os atores pelo ambiente, criar cenas de tensão durante duelos e até mesmo  “rebobinar” a história.

“Hamilton” é um primor técnico e não tem absolutamente nenhum ponto fraco. Sua versão filmada para o Disney+ foi gravada em 2016 durante duas sessões: a primeira com público e a segunda no teatro vazio, o que permitiu alguns closes mais fechados com a câmera percorrendo o palco.

Naquele mesmo ano, a peça recebeu 16 indicações ao Tony Awards – o “Oscar” do teatro musical – e venceu 11.  Sua versão filmada também foi sucesso de crítica e concorre ao prêmio de melhor filme de comédia ou musical no Globo de Ouro, cuja premiação ocorre no dia 28 de agosto.

Muita coisa acontece ao fundo durante a peça, então fique atento aos detalhes – Foto: Disney+

O grande problema para nós, brasileiros, é que a versão disponível no Disney+ não conta com nenhum tipo de localização para a nossa língua, ou seja, sem dublagem e sem legenda. Isso se torna problemático porque todas as músicas estão ali para mover a história, o que limita a experiência de quem não domina o inglês.

A Disney já se manifestou dizendo que a ausência de legenda foi uma “decisão artística”. Porém, a situação incomoda bastante o criador da peça, pois a grande vantagem de uma versão filmada seria tornar a obra acessível ao grande público.

Miranda afirmou em dezembro do ano passado que a empresa estava trabalhando para disponibilizar legendas em português e espanhol, o que ainda não aconteceu. Evidentemente, tal como a natureza, as pessoas dão um jeito e existem versões não oficiais com legenda pela internet.

De uma forma ou de outra, “Hamilton” é uma experiência arrebatadora. Há elementos para agradar aos mais diversos públicos e, certamente, merece entrar na sua lista de prioridades. Por aqui, fico na expectativa para o que Lin-Manuel Miranda fará a seguir.

NOTA: 5 DE 5

André Rossi

Repórter do LIBERAL, está no grupo desde janeiro de 2019. Sempre em conflito por não saber o que priorizar: a eterna lista de filmes que só aumenta, as séries pendentes que não dão descanso, ou o backlog de RPG’s que nunca termina.

Estúdio 52

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