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Estúdio 52

‘Nomadland’: um retrato sensível e pouco crítico sobre os novos nômades dos EUA

Favorito ao Oscar de melhor filme aborda o estilo de vida dos milhares de norte-americanos que passaram a morar em vans após a crise de 2008

Por André Rossi

10 abr 2021 às 11:34

“Lar é só uma palavra ou algo que você carrega dentro de você?”

O trecho da música “Home is a Question Mark”, do cantor Morrissey, ex-vocalista da banda The Smiths, é citada logo no início de “Nomadland”, favorito ao Oscar de melhor filme deste ano. Com apenas uma questão, o longa pontua o que poderia vir a ser a temática central da narrativa.

Entretanto, o trabalho da diretora Chloé Zhao se divide entre discutir o novo estilo de vida nômade dos Estados Unidos, impulsionado pela crise de 2008, e abordar os “conflitos” de sua protagonista. No meio do caminho, muita coisa se perde, deixando a sensação de que se trata muito mais de um documentário semificional do que um filme em si.

A trama gira em torno de Fern, personagem interpretada pela estupenda Frances McDormand, que reúne suas coisas e começa a morar em uma van improvisada após o colapso econômico de sua cidade. Com mais de 60 anos, a personagem viaja os EUA em busca de empregos temporários, lutando para se adaptar à nova vida.

O filme é uma adaptação do livro “Nomadland: Sobrevivendo aos EUA no século 21”, lançado em 2017 e que retrata o fenômeno de pessoas mais velhas adotando o estilo de vida nômade após a crise financeira de 2008. A estimativa mais recente é de que um milhão de norte-americanos moram em vans atualmente, vivendo de empregos sazonais.

Retratar essa realidade é o objetivo central da cineasta. Temos apenas dois atores profissionais no elenco. Os demais são nômades reais, que interpretam a si mesmos no filme. Houve um esforço considerável dos idealizadores – incluindo a protagonista e a diretora – de conviverem com os nômades para retratá-los da melhor forma possível.

Frances McDormand com a diretora Chloé Zhao durante as gravações – Foto: Divulgação

Chloé Zhao consegue retratar de forma muito humana como essas pessoas lutam para se adaptar ao novo estilo de vida. Não há nenhuma romantização sobre as dificuldades, tampouco um olhar pessimista ou condenador sobre as decisões tomadas por quem decidiu viver na estrada.

E aqui entra outra característica desse movimento constante: não só pessoas mais velhas, mas jovens desiludidos com o “sonho americano” acabaram investindo nessa nova forma de viver. Há uma preocupação o significativa hoje nos EUA de que a pandemia possa intensificar ainda mais o surgimento de novos nômades.

Toda essa conjuntura política e social, de impactos e consequências a médio e longo prazo, não está no filme. Como dito anteriormente, Chloé está preocupado em mostrar o dia a dia dessas pessoas, suas alegrias e dificuldades, e não necessariamente problematizar algo.

Em algumas poucas linhas de diálogo temos menções sobre a bolha imobiliária de 2008, mas nenhuma crítica contundente ao sistema capitalista norte-americano. O filme nunca enfrenta o cerne do problema.

Dramas da protagonista soam distantes na maior parte do filme – Foto: Divulgação

Talvez, para a audiência norte-americana, sejam conceitos que não precisam de muita contextualização para serem compreendidos. Mas ao público internacional, essa falta de “detalhes” pode incomodar.

Com um material tão complexo em mãos, parece sobrar pouco tempo para desenvolver o próprio drama da protagonista, que ainda está em processo de luto. Tanto pelo esposo quanto por sua cidade que já não existe mais.

Enquanto audiência, nunca sabemos ao certo o que se passa na cabeça de Fern. Ela está simplesmente vivendo, dirigindo de emprego em emprego. E talvez seja essa a intenção do filme: normalizar a rotina que envolve esse novo estilo de vida.

Não há equilíbrio entre o retrato social e a história da protagonista. O background de Fern, de ter sido obrigada  a sair de sua casa porque a cidade emprego foi desfeita, dificulta a “liga” entre as duas coisas.

Em termos técnicos, o filme é bem executado e justifica a indicação de melhor diretora para Chloé. A atuação de Frances é impecável e carrega a obra com tranquilidade.

“Nomadland” é um retrato sensível sobre os nômades, mas não ataca o problema – Foto: Divulgação

Depois de vencer o Globo de Ouro e o prêmio do sindicato dos produtores como melhor filme, só um milagre tira o Oscar de “Nomadland”. A repercussão em território norte-americana foi intensa, já que é um problema no quintal deles.

Para o público geral, é bem provável que o filme só “clique” depois de alguma pesquisa para compreender melhor o contexto da obra.

Maratona Oscar 2021
Até o dia 24 de abril, véspera da premiação do Oscar 2021, o Estúdio 52 vai avaliar os oito concorrentes ao prêmio de Melhor Filme. Serão publicadas duas críticas por semana, sempre às terças e sábados. Confira os textos já postados pelo blog:

– ‘Judas e o Messias Negro’ carrega história chocante e ótimas atuações

– Mesmo sem querer, ‘Mank’ é o filme mais complexo do Oscar 2021

‘Minari’ desmistifica a ideia do ‘sonho americano’ em meio a uma crise familiar

NOTA: 2,5 de 5.

André Rossi

Repórter do LIBERAL, está no grupo desde janeiro de 2019. Sempre em conflito por não saber o que priorizar: a eterna lista de filmes que só aumenta, as séries pendentes que não dão descanso, ou o backlog de RPG’s que nunca termina.

Estúdio 52

Quer saber sobre aquela série que está bombando na internet? Sim, temos. Ou aquele jogo que a loja do seu console vai disponibilizar de graça? Ok. Curte o trivial e precisa dos lançamentos do cinema? Sem problema, é só chegar.