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Estúdio 52

‘Meu Pai’ é uma dolorosa jornada sobre deixar de ser quem você é

Com atuação arrematadora de Anthony Hopkins, filme transporta audiência para dentro do turbilhão que é a cabeça de uma pessoa com Alzheimer

Por André Rossi

17 abr 2021 às 15:03 • Última atualização 17 abr 2021 às 15:10

Filme estrelado por Anthonu Hopkins concorre em seis categorias do Oscar – Foto: Divulgação

“Arrasador” é a palavra adequada para descrever “Meu Pai”, que concorre em seis categorias do Oscar 2021, incluindo melhor filme. Com a direção simples, mas assertiva de Florian Zeller, a obra consegue colocar a audiência dentro do turbilhão que é a cabeça de uma pessoa que tem Alzheimer.

A narrativa é sob o ponto de vista de Anthony, um idoso de 81 anos que mora sozinho em seu apartamento em Londres. Depois de recusar todas os cuidadores que a filha lhe arrumou, ele se vê numa situação-limite quando a mulher revela que pretende se mudar para Paris com um novo namorado.

Vamos abordar alguns leves spoilers sobre as propostas do filme a partir daqui.

O cenário fica mais crítico quando coisas estranhas começam a acontecer com o homem. Seu relógio some, alguém muda as mobílias de lugar no apartamento e até mesmo sua filha não parecer ser mais a mesma, literalmente. Existe um tom de suspense crescente e perturbador ao longo do filme que não te deixa relaxar nem por um minuto.

Mas não existe sobrenatural nenhum aqui, nem uma conspiração megalomaníaca de dramas familiares. Todos os eventos que causam estranheza ao protagonista são sinais de demência, que foram se agravando no decorrer dos anos.

Ao lado de Hopkins, a sempre estupenda Olivia Colman – Foto: Divulgação

O diretor foi extremamente feliz ao utilizar alguns movimentos de câmera característicos de filmes de mistério para tentar mostrar ao público como as memórias de uma pessoa com Alzheimer se embaralham. Acessos de raiva acabam se tornando corriqueiros, até mesmo com os entes queridos, porque existe uma dificuldade de lidar com algo que não faz sentido, na perspectiva de quem está sofrendo.

Não há como negar que a grande atração aqui é a atuação de Anthony Hopkins, que está indicado para melhor ator. Com seus 84 anos, ele entrega um pouco de tudo: dança, canta, faz rir, te emociona e te choca em fração de segundos e, em dado momento, vai te deixar sem chão.

Com uma filmografia tão extensa e qualificada, Hopkins acaba de elevar mais alguns degraus de atuação e, certamente, “Meu pai” passa a ser um dos melhores filmes de sua carreira. É improvável que ganhe o Oscar devido ao fator Chadwick Boseman, mas trata-se de uma atuação ímpar que será lembrada para sempre.

Ao lado de Hopkins, a sempre estupenda Olivia Colman mantém o nível do elenco lá em cima e consegue fazer com que a filha do idoso, em dados momentos, seja tão complexa quanto o protagonista. O elenco de apoio também é competente e não destoa dos demais, apesar de estarem em prateleiras completamente diferentes.

Filme é recheado de momentos sutis – Foto: Divulgação

O filme é recheado de momentos sutis, de afeto e amor. Sempre há um equilíbrio entre retratar as dificuldades para a pessoa que tem a a doença e mostrar que os familiares também sofrem no processo.

“Meu Pai” é uma jornada íntima na mente de um homem que começa a deixar de ser quem sempre foi. E isso é algo arrasador de se presenciar. O apego emocional que ele tem pelo apartamento, por sua rotina e pelas pequenas coisas, como escolher a roupa que vestirá pela manhã, começam a se tornar inacessíveis por conta de suas novas limitações.

A obra acaba sendo um tanto “pessimista”, no fim do dia. É importante saber que existem estratégias para lidar com o sofrimento dessas pessoas, evitando gatilhos. Mas não há romantização sobre quão complicado é o processo. Tal qual o filme, é preciso entrar na realidade da pessoa para tentar ajudá-la da melhor forma possível.

Maratona Oscar 2021
Até o dia 24 de abril, véspera da premiação do Oscar 2021, o Estúdio 52 vai avaliar os oito concorrentes ao prêmio de Melhor Filme. Serão publicadas duas críticas por semana, sempre às terças e sábados. Confira os textos já postados pelo blog:

– ‘Judas e o Messias Negro’ carrega história chocante e ótimas atuações

– Mesmo sem querer, ‘Mank’ é o filme mais complexo do Oscar 2021

‘Minari’ desmistifica a ideia do ‘sonho americano’ em meio a uma crise familiar

‘Nomadland’: um retrato sensível e pouco crítico sobre os novos nômades dos EUA

‘Bela Vingança’ é uma aula necessária sobre a cultura do estupro

Nota: 5 de 5

André Rossi

Repórter do LIBERAL, está no grupo desde janeiro de 2019. Sempre em conflito por não saber o que priorizar: a eterna lista de filmes que só aumenta, as séries pendentes que não dão descanso, ou o backlog de RPG’s que nunca termina.

Estúdio 52

Quer saber sobre aquela série que está bombando na internet? Sim, temos. Ou aquele jogo que a loja do seu console vai disponibilizar de graça? Ok. Curte o trivial e precisa dos lançamentos do cinema? Sem problema, é só chegar.