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Estúdio 52

‘Allen contra Farrow’: série retoma acusações de abuso contra Woody Allen

Série documental da HBO traz depoimentos da filha adotiva do diretor, que alega ter sido molestada por ele aos 7 anos; obra reacende discussão sobre legado

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27 mar 2021 às 12:36 • Última atualização 27 mar 2021 às 15:05

“Qual o seu filme preferido de Woody Allen?”

É com essa pergunta, tão corriqueira em qualquer meio cinéfilo, que Dylan Farrow inicia sua primeira carta aberta, em fevereiro de 2014, para relatar os abusos que sofrera ainda criança do pai adotivo, o cineasta Woody Allen.

“Quando eu tinha sete anos, Woody Allen me levava pela mão para o sótão da minha casa. Ele me mandava deitar de bruços e brincar com trenzinho elétrico do meu irmão. E me atacava sexualmente”, traz trecho da carta.

Dylan com Woody Allen, sua mãe Mia Farrow e o irmão Ronan – Foto: Divulgação

Na época, a sociedade como um todo não acreditou no relato de Dylan, uma mulher de 28 anos que se pronunciava pela primeira vez sobre o caso. Desde que a ex-companheira de Allen, Mia Farrow, foi à Justiça para denunciar o abuso, em 1993, o que se viu foi um circo midiático que tentava desacreditar a acusação.

Ninguém queria colocar em cheque a integridade de Woody Allen. Ninguém queria que um dos maiores diretores da história do cinema norte-americano fosse um pedófilo.

O caso é retratado na série documental “Allen contra Farrow”, composta por quatro episódios disponíveis na HBO. O detalhe mais impactante, e que até então nunca havia se tornado público, são os vídeos da própria Dylan, ainda criança, contando para a mãe o que o pai havia feito com ela.

A série aborda em detalhes como foram conduzidas as duas investigações sobre o abuso. Em uma delas, chefiada por uma clínica de Nova York, Dylan foi submetida a repetidas entrevistas com psicólogos, o que não é recomendado quando se trata de uma criança vítima de abuso sexual.

Com base em documentos do processo, o documentário mostra que os relatos eram consistentes e se mantinham iguais em elementos fundamentais nas diversas vezes em que a menina foi questionada. No entanto, a conclusão foi de que Mia Farrow, mãe adotiva de Dylan, estaria influenciando a filha a contar mentiras sobre Allen.

Essa tese foi amplamente difundida pelo próprio diretor, que sempre negou as acusações e aborda o caso em sua autobiografia, lançada ano passado. Tudo seria uma grande armação orquestrada por Mia, segundo ele.

O casal ficou junto por 12 anos, mas nunca se casou. Nesse período, Mia estrelou diversos filmes de Allen, em uma das mais interessantes parcerias do cinema.

Posteriormente, Mia descobriria que o companheiro tinha um caso com uma de suas filhas adotivas, Soon-Yi, que era 35 anos mais nova. Depois da revelação, Allen se casou com a garota e eles estão juntos até hoje.

Woody Allen começou a se relacionar com Soon-Yi quando ela tinha 18 anos – Foto:

A outra investigação em andamento na época dos fatos foi feita pelo Estado de Connecticut. O promotor responsável, Frank Marco via materialidade suficiente, mas optou por não processar Allen.

Em um dos momentos mais comoventes do documentário, Marco – hoje já aposentado – se encontra com Dylan e reforça que para processar Allen, ele teria que levá-la ao tribunal. A ponderação era de que o episódio – que atrairia cobertura internacional – poderia elevar o trauma para a criança.

Dylan Farrow relata os traumas que carrega por conta do episódio – Foto: Divulgação

Ao longo dos quatro episódios, Dylan, Mia, amigos da família e seus irmãos relatam os comportamentos suspeitos de Allen durante o período. Porém, nada choca mais do que os vídeos da menina contando o que o pai fizera. Os registros foram filmados por Mia durante o final de semana seguinte ao abuso.

Esse documentário só foi possível porque vivemos num momento onde as vítimas estão sendo ouvidas. Quando Dylan voltou a falar sobre o caso, em 2018, o mundo já era outro.

Movimentos como o “Me Too” ganharam força e algum progresso foi alcançado. O caso Harvey Weinstein deixa isso claro.

Houve, de fato, uma mudança na cultura sobre o tema, como apontado pelo irmão de Dylan, o jornalista Ronan Farrow, filho biológico de Woody Allen e uma das vozes que pedem para que Allen seja responsabilizado.

Mas e aí, qual o seu filme preferido de Woody Allen?

O documentário, evidentemente, tem uma agenda e busca desconstruir a tese de que é possível separar o homem de sua obra. Diversas pessoas, incluindo jornalistas e críticos de cinema, falam sobre como a filmografia de Allen era importante para eles.

“Não consigo mais assistir nenhum filme dele” é uma das frases recorrentes. A própria Dylan diz estar cansada de ouvir que é preciso separar as duas coisas.

Desde 2018, Allen tem dito dificuldades para lançar seus filmes. Até mesmo sua autobiografia teve de mudar de editora e quase não foi lançado por conta do caso.

Aos 85 anos, Allen já dirigiu 55 filmes e o que não falta são clássicos, como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977). Porém, o documentário também tenta mostrar como o diretor normaliza a relação entre homens mais velhos e mulheres muito novas, quando não adolescentes, como em “Manhattan” (1979), uma de suas obras mais aclamadas.

O raciocínio por trás do “boicote” ao diretor – apoiado por atores que já trabalharam com ele, como Natalie Portman e Timothée Chalamet – parte do princípio de que é preciso parar de premiar e apreciar artistas acusados de violência ou abuso contra mulheres.

Dylan se tornou mais reclusa após o abuso, segundo seus familiares – Foto: Divulgação

“E o que a gente faz com os filmes dele? Não pode mais ver? Tá proibido?”. Essa é outra frase costumeiramente vista pela internet, especialmente entre aqueles que não botam fé nos relatos de Dylan ou são simplesmente machistas camuflados, para não dizer coisa pior.

Quando algo assim é escancarado, é natural que a obra do artista seja colocada em cheque. O documentário “Leaving Neverland”, também da HBO, mostra os relatos de dois meninos que teriam sido abusados por Michael Jackson. Como continuar consumindo algo do artista depois disso?

Ambos os documentários possuem essa característica. De forçar o público a enxergar algo que, por anos, muitos se esforçaram para não ver.

Enquanto documentário, o que prejudica “Allen contra Farrow” é a ausência do outro lado. Woody Allen se recusou a dar entrevista. A saída foi utilizar trechos de sua autobiografia, que são inseridos para reforçar a tese defendida ao longo dos quatro episódios: Allen é culpado.

Por mais fortes que as declarações sejam, a série entrega indícios, e não uma prova cabal, como alguns esperam. E talvez seja esse o ponto do documentário: não há esperança por justiça, condenação, e sim uma busca por conscientização, para que as pessoas parem de dar palco para o diretor.

Respondendo a pergunta que abre este artigo, meu filme favorito de Woody Allen é “Meia-Noite em Paris” (2011). Não existe outra obra que fale tão bem sobre a ilusão de achar que seria mais feliz caso tivesse nascido em outra época. Tem até um termo para este sentimento: fauxtalgia.

Revi o filme depois do documentário, na certeza de que a experiência não teria como ser mais a mesma. Coloquei o blu-ray para rodar e, por motivos alheios às minhas convicções, continua me emocionando como da primeira vez. 

Woody Allen sempre foi sinônimo de cinema de alta qualidade. Domínio técnico, roteiro apurado e personagens inseguros, tema com o qual me identifico.

Não acho que exista um protocolo definitivo sobre como lidar com esse tipo de sentimento sobre obras passadas. Arte é algo que atinge e reverbera de forma diferente em cada pessoa.

No fim, acredito que a obra não pertence ao artista. Uma vez no mundo, ela será consumida e ressignificada de diversas maneiras. É um processo natural, assim como é absolutamente compreensível quem decida abandonar a filmografia do diretor.

Independentemente das discussões sobre obra e legado, o fundamental é não menosprezar o sofrimento de Dylan Farrow e de vítimas de abuso. O que está em jogo aqui, enquanto sociedade, é a necessidade de parar de duvidar da vítima em prol da manutenção de um status quo.

André Rossi

Repórter do LIBERAL, está no grupo desde janeiro de 2019. Sempre em conflito por não saber o que priorizar: a eterna lista de filmes que só aumenta, as séries pendentes que não dão descanso, ou o backlog de RPG’s que nunca termina.

Estúdio 52

Quer saber sobre aquela série que está bombando na internet? Sim, temos. Ou aquele jogo que a loja do seu console vai disponibilizar de graça? Ok. Curte o trivial e precisa dos lançamentos do cinema? Sem problema, é só chegar.