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Histórias de Americana

Silêncio

Por Elizabete Carla Guedes*

02 Maio 2019 às 09:18 • Última atualização 19 Maio 2021 às 15:14

Dionyzio de Campos - Foto: Divulgação

Nota do editor: este texto foi atualizado em 18 de maio de 2021.

Quem passa pela estrada que segue para a cidade de Paulínia – aquela estrada antiga que se conecta à atual Americana –, observará em algum momento um senhor bicentenário: uma grande construção que se levanta em seu majestoso esplendor, solitária em meio aos rios que o cerca dos dois lados. A visão desse senhor, chamado popularmente de Casarão, em si só transpassa o tempo, levando o observador a uma reflexão saudosa de um passado do qual só se ouviu dizer.

Como eram essas paragens há mais de duzentos anos atrás? Os rios limpos, as matas intocadas, quando as mãos gananciosas dos homens ainda mal tinham tocado a terra virgem. Quais foram os primeiros braços a lavrarem estas terras? Ex labore dulcedo! Porém, a história mostra que o trabalho não foi assim tão doce para alguns…

Esta é a história de vida de um menino que cresceu em meio às terras recém-desbravadas do cenário descrito acima, contada através de uma foto pequenininha e amarelada doada para o Museu Histórico e Pedagógico Municipal Dr. João da Silva Carrão, o Museu do Salto Grande, nosso senhor bicentenário. Não obstante, esta foto veio acompanhada de um relato da vida de Dionísio Fortunato, do qual já falamos brevemente nesta coluna, dois anos atrás.

Na descrição, Dionísio é citado como escravo na fazenda Salto Grande quando esta ainda pertencia a Francisco de Campos Andrade, o mesmo proprietário que, um ano antes da abolição da escravatura, iria trazer as primeiras famílias de imigrantes italianos para trabalhar em suas terras nas lavouras de café, constituindo uma época marcada pelas política de transição da mão-de-obra escravizada para a assalariada na fazenda e no resto do país.

Em uma matéria publicada no LIBERAL, na data de 19 de junho de 1982, é trazido o relato do doador da fotografia, o Sr. Pedro Bertine:

Dionísio nascera por volta do ano de 1848, na África, onde foi escravizado e trocado por uma caneca de ferro (segundo contava o próprio Dionísio), veio com um pouco mais de sete anos para o Brasil e foi comprado pelo fazendeiro Francisco de Campos. O menino nesta época ainda não tinha nome, sendo lhe dado nome na Fazenda Salto Grande, e ainda segundo relatos, Dionísio em seus trabalhos diário, sofre um acidente, com a queda de uma árvore e perde um dos braços. Futuramente se torna um tipo muito conhecido, principalmente pelos imigrantes italianos, agora sitiantes da região do bairro São Vito, onde os Faé, os Meneghel, os Cia, os Bertini, os Ardito, que mais tarde se transformariam em donos de terras, em virtude de o Dr. Francisco de Campos, na época, sem numerários para pagar-lhes os serviços, acaba oferecendo-lhes parte de suas terras para saldar as dívidas. Dionísio, após a Lei Áurea que aboliu o trabalho escravo no Brasil, acabou prestando serviços ao velho Rovíglio Bertini. Ele costumava carregar uma cestinha dependurada no único braço que lhe restara, descendo para a vila, onde comprava carretéis de linha, retalhos, miudezas em geral, para os sitiantes, sendo conhecido como o “Correieiro”. Andava invariavelmente acompanhado por um cachorrinho fiel, Dionísio falece no sítio Gê Bertini em 1928.

Pesquisas realizadas após a publicação do relato no jornal apontam se tratar de Dionyzio de Campos, africano, e que provavelmente tenha herdado o sobrenome de seu antigo senhor, o Major Francisco de Campos Andrade.

Neste ponto, vemos no relato uma confusão entre o Dr. Francisco de Campos e o Major Francisco de Campos: este seria o pai do primeiro e o responsável por distribuir as terras para aos imigrantes italianos que se tornaram colonos, após alguns anos da chegada à fazenda.

Ainda segundo pesquisas, Dionyzio de Campos faleceu no bairro da Barroca, em 15 de agosto de 1932, por marasmo senil, com 80 anos de idade, tendo sido sepultado no Cemitério da Saudade. Aqui, é necessário mencionar que, apesar de constar que Dionyzio faleceu com 80 anos, há informações que apontam que ele nasceu em 1848, e, nesse caso, seria mais velho na ocasião de sua morte. Porém, não se conhece de fato sua verdadeira data de nascimento, não sendo possível afirmar a sua idade exata.

Outro fato importante a ser analisado é a imagem que, ainda segundo relatos de Pedro Bertini, foi uma foto tirada por volta de 1918, em frente à loja de Carlos Zabani, situada na Rua 30 de Julho, perto da Estação da Paulista (estação ferroviária). É importante salientar que, mesmo após terem se passado 30 anos da abolição da escravatura na época, Dionyzio aparece com os pés descalços na fotografia, condição que era associada à de escravizado, denotando a possível continuidade da exploração de seu trabalho como serviçal e/ou sua pobreza como marginalizado socialmente.

Tal fato pode ser corroborado se observados os trajes deste personagem histórico, que condiz ao de um andarilho, em meio a outros personagens que aparecem ao fundo. No entanto, se desconhece o fotógrafo ou o motivo pelo qual ele nos presentou com tal documento, que se tornou nos dias atuais uma importante testemunha da história.

Nos deparamos aqui com um relato riquíssimo, em que às vezes o próprio Dionyzio aparece como relator dos fatos, sendo algo muito incomum de se encontrar, especialmente quando se trata da memória da população cativa da região. Consta na continuidade da descrição que Dionyzio, na ocasião de sua morte, faleceu sem deixar bens, fato comum quando observamos estes relatos de vida, de muitas Marias, Josés, Beneditos, e, enfim, diversos nomes sem sobrenomes, sem rostos, sem falas, sem histórias, sem marcas, apenas nomes e números.

O tempo silenciou em seu seio a memória latente daqueles que primeiramente desbravaram as terras, mas que não acumularam sequer uma moeda de que se pudessem valer após a tão sonhada liberdade. Memórias, contudo, que por si só se fazem ricas, como a voz de Dionyzio, do menino que para terras inóspitas foi trazido contra sua vontade, como tantos outros.

Sua voz grita em meio aos túmulos de lápides apagadas, em meio ao mar de esquecidos e abandonados. Este personagem histórico não possuía família, não foi casado e se desconhece sua filiação. Não há nenhum ser para lembrar de sua existência, apenas uma foto e o rico relato daquele que deu de presente à posterioridade a oportunidade de conhecer a história de Dionyzio de Campos. Sua voz não foi silenciada, perpetua-se na história rompendo as barreiras do esquecimento, representando todos aqueles que o tempo tentou calar.

*Elizabete Carla Guedes é membro do grupo Historiadores Independentes de Carioba, dedicado à pesquisa histórica sobre Americana

Historiadores de Carioba

Blog abastecido pelo grupo Historiadores Independentes de Carioba, que se dedica à pesquisa histórica sobre Americana.