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Cotidiano & Existência

Desigualdades aviltantes

Por Gisela Breno

12 de abril de 2022, às 14h00 • Última atualização em 12 de abril de 2022, às 14h01

Semana passada, a revista Veja noticiou que, “Maternidade mais luxuosa do país terá até ‘camarote’ anexo à sala de parto”.

Nos aposentos, as persianas sobem de maneira automática, as luzes e o ar-condicionado se ajustam, os lençóis são do tipo 400 fios, as “amenities” do banheiro são da grife Trousseau, o choro do bebê chega à enfermaria pela assistente virtual Alexa, entre outras comodidades. Se a mamãe optar por uma suíte presidencial, pagará diárias de 12 000 reais.

Numa sociedade marcada por um profundo e perverso racismo estrutural que, de maneira cruel, ainda em 2022, cultiva o estereótipo de que as mulheres pretas têm quadris mais largos, são parideiras por excelência, mais fortes e mais resistentes à dor, e podem, portanto, não receber analgésicos na hora do parto, receber uma notícia dessa é um tapa na alma.

A dor também tem cor no pré-natal das mulheres prestas, com menor número de consultas e exames.

É claro que esse investimento de 550 milhões de reais em uma estrutura tão luxuosa, é particular e servirá às mulheres de alto poder aquisitivo. Impensável um investimento dessa natureza ser proveniente do poder público, igualmente fora de cogitação encontrar entre essas clientes um número significativo de mulheres pretas. O perfil será de brancas, com escolaridade e alvos do imposto de renda.

São aviltantes as desigualdades sociais, mas perfeitamente cabíveis na sociedade do espetáculo, do pensamento raso e da ostentação em que estamos mergulhados.

Gisela Breno

Professora, Gisela Breno é graduada em Biologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e fez mestrado em Educação no Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo). A professora lecionou por pelo menos 30 anos.