21 de maio de 2022 Atualizado 14:57

8 de Agosto de 2019 Atualizado 13:56
MENU

Publicidade

Compartilhe

Histórias de Americana

De Campos a Campos

Coluna do grupo Historiadores Independentes de Carioba conta um pouco sobre personagens históricos que compunham a mão de obra escravizada da Fazenda Salto Grande

Por Elizabete Carla Guedes

12 Dezembro 2021, às 09h04

No dia 11 de junho de 1875, falecia Dona Ana Francisca de Andrade, segunda esposa de José de Campos Penteado, um dos proprietários da Fazenda Salto Grande. Dona Ana, além de ser prima de seu marido, também era irmã da sua primeira esposa, Dona Rita. Em seu testamento, deixou como herança seus escravizados, sendo estes distribuídos entre seus sobrinhos, os quais eram também seus enteados. Consta em sua lista de herdeiros Francisco de Campos Andrade, último proprietário da Fazenda Salto Grande do período escravocrata, também responsável pela transição da mão de obra escravizada para a assalariada.

Entre os escravizados que estavam listados em seu inventário como pertencentes à Fazenda Salto Grande estavam Inocência, mulher negra, de origem africana, que constava ser cozinheira, e Candido, caracterizado como pardo e oriundo do Pará, exercendo o ofício de ferreiro. Ambos são citados sem sobrenomes. Porém, durante a avaliação desses escravizados, Saturnino de Camargo Campos entraria com um pedido na Justiça para pagar a carta de alforria de sua mãe Inocência e de seu padrasto Candido, que foram avaliados pela quantia de quinhentos mil réis cada um. Ainda segundo as leis vigentes da época, inclusive citadas no documento (Lei de 28/09/1871 – regulamento de 13/11/ 1872), o juiz autoriza que Saturnino pague a quantia total de um conto de réis, valor somado de seus parentes, para que fosse lavrada carta de alforria, fato este que ocorreu em 16 de setembro de 1875.

Neste ponto, vale ressaltar que a pesquisa histórica se faz necessária, pois traz luz a narrativas que foram silenciadas pelo tempo, através de escolhas políticas impostas desde o colonialismo. No entanto, muitas outras interpretações podem ser resgatadas através de documentos, que nos dão alguns perfis, mesmo que escassos, de informações mais depuradas dos personagens históricos que compunham a mão de obra escravizada da Fazenda Salto Grande. Neste texto, trazemos a breve narrativa de Saturnino de Camargo Penteado sobre sua família.

É importante para essa cadeia genealógica observar que sua mãe e seu padrasto não possuíam sobrenome ao serem listados como escravizados, sendo conhecidos apenas por Inocência e Candido. No entanto, o filho liberto apresentava sobrenome, provavelmente herdado de seus antigos senhores. Aqui, é possível também citar Dionyzio de Campos, escravizado analisado em textos anteriores desta coluna. Notamos uma relação de proximidade dos sobrenomes, mas, apesar de ser Campos, não havia nenhuma relação consanguínea com a família de Saturnino, pois Dionyzio chegou ao Brasil já na condição de escravizado, de filiação desconhecida, faleceu sem filhos e não tinha irmãos. Sabendo a ordem de família de que Ana Francisca descende, sendo esta dos Camargo Penteado, Camargo Campos e Campos Penteado e se tornando Campos Andrade, é possível traçar as relações de poder destes com seus escravizados, bem como as relações entre estes últimos, seguindo os rastros que compõe essa trajetória.

NOTA DO EDITOR: A coluna retorna em fevereiro

Elizabete Carla Guedes
Membro do grupo Historiadores Independentes de Carioba, dedicado à pesquisa história sobre Americana

Historiadores de Carioba

Blog abastecido pelo grupo Historiadores Independentes de Carioba, que se dedica à pesquisa histórica sobre Americana.