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Cotidiano & Existência

Clamores

Vivemos num mundo com possibilidade de acesso e apropriação da totalidade do tesouro cultural produzido

Por Gisela Breno

13 abr 2021 às 11:58

O ser humano vive nesse milênio momentos atípicos, privilegiados e paradoxais de sua história.

Pela primeira vez na sua caminhada, o Homo sapiens tem a possibilidade de acesso e apropriação da totalidade do tesouro cultural produzido ao longo de sua trajetória. Os avanços das tecnociências superam fronteiras até então presentes nos devaneios humanos.

Homens e mulheres destes tempos se defrontam também com uma outra revolução: a passagem da cultura material para a imaterial.

Entra em cena o espaço das redes, o espaço da realidade virtual, o não lugar, por onde transitam nosso corpo imaterial.

As noções tradicionais de tempo e espaço se alteram, as barreiras espaciais tornam-se tão reduzidas, que o mundo se encolhe diante de nós.

Vagando, vertiginosamente, pelo espaço virtual, com o corpo sem peso, volume, nem matéria, aptos nos tornamos a aterrissar no mais recôndito lugar da Terra e a conversar com pessoas instaladas em quaisquer pontos deste planeta. A antiga Ágora é substituída pela novíssima praça planetária virtual.

Entretanto a conquista e apropriação do sentido e do resgaste de nossa existência caminham lentamente; quando não sofrem retrocessos.

Que travessias valorosas empreenderíamos se nos apoderássemos das fórmulas belas de nossa essência, gravadas em nossos genes desde as núpcias do espermatozoide paterno com o óvulo materno, a fim de que cada ser humano pudesse se despir das máscaras usadas em seu dia a dia e, num rasgão de autenticidade deixasse fluir o seu modo ímpar de ser, que necessita de todo o Cosmos para sustentá-lo.

Que marcas excepcionais imprimiríamos no solo da existência se reconquistássemos o território humano, o mais vasto, o mais ímpar dos espaços por onde o desejo, o sonho, a liberdade, a esperança, a singularidade, o amor podem transitar.

Quão mais iluminada seria a vida de contingentes de homens e mulheres deste tempo —sem acesso e usufruto dos avanços tecnocientíficos, carentes de um teto que os acolha e recolha, ávidos por um pedaço de chão capaz, com o suor e o trabalho de suas mãos, de gerar grãos que os alimentem, órfãos da mãe sociedade que insiste em não enxergá-los, órfãos do pai governo que os torna vultos sem direitos a voz e vez, desterrados na própria Pátria— se cada um de nós se tornasse árvore vigorosa, disseminadora de sementes portadoras de embriões prenhes de sentido de solidariedade, de acolhimento, de responsabilidade, de compaixão.

Não são esses os clamores da humanidade?

Gisela Breno

Professora, Gisela Breno é graduada em Biologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e fez mestrado em Educação no Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo). A professora lecionou por pelo menos 30 anos.