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Alessandra Olivato

Certezas e incertezas

A verdade é que nunca estamos totalmente seguros e por isso vivemos sob uma angústia mais ou menos controlada

Por Alessandra Olivato

24 mar 2021 às 08:31

Uma das maiores necessidades do ser humano é a de se sentir seguro, e inventamos muitas estratégias para proporcionar essa sensação. Uma delas é a de uma sociedade governada por leis que evite a guerra de todos contra todos, que impeça que algum desafeto tente nos matar naqueles dias em que estamos demasiado irritantes.

Filosofias do cotidiano no blog da Alessandra Olivato.

Mas a verdade é que nunca estamos totalmente seguros e por isso vivemos sob uma angústia mais ou menos controlada, e silenciosamente alimentada por uma de nossas principais certezas: a de que mais cedo ou mais tarde partiremos dessa para melhor deixando tudo para trás e, pior, de que um dia nos despediremos daqueles que amamos. A morte também nos aterroriza por nos obrigar a experimentar a impotência, que é o contrário daquele controle que buscamos em quase tudo.

Interessante que não foi sempre assim; na Idade Média, por exemplo, doenças sem tratamento e batalhas constantes ceifavam vidas muito mais frequentemente. Mas a disponibilidade cada vez maior de alimentos, a diminuição das guerras e o desenvolvimento da ciência e da medicina possibilitaram não apenas prolongar a expectativa de vida como passarmos boa parte de nossos dias sentados confortavelmente em nossos sofás como se fôssemos eternos. A morte deixou de ser uma sensação premente, até que acontece algo e a segurança se afrouxa.

Não voltaremos ao cenário da idade média, mas a Covid-19 abalou nossas estruturas, lembrando-nos que temos um controle das coisas até certo ponto. Podemos sim evitar muitos contágios e mortes, mas não importa o que façamos, não podemos impedir todas elas. Então nos confrontamos com medos, incertezas em relação ao futuro e sobre como ele será, além de encararmos bem mais de perto a solidão e a raiva. Sentimo-nos confusos como há tempos não ocorria.

Eu não perdi ninguém próximo ou muito próximo para a doença, mas nos últimos sete meses também vivenciei a morte. Uma de minhas melhores amigas se foi, treze dias depois perdi meu pai sem ao menos poder me despedir, uma cachorra de nossa família morreu subitamente após ingerir uma medicação e há pouco mais de um mês tive que tomar a intragável decisão de sacrificar o animal que foi meu amigo por quinze anos. O estômago ainda embrulha e o peito, às vezes, tem dificuldade de puxar o ar. Isso durante uma pandemia e uma enxurrada de informações e opiniões que não têm prezado pela nossa serenidade.

Como eu gostaria de poder utilizar desse espaço para passar alguma ideia genial sobre como superar a dor da perda de forma mais rápida ou menos sofrida, com algum atestado sobre vida após a morte ou sobre a possibilidade de conversar com nossos entes queridos por meio de uma sessão espiritual ou outra coisa parecida! E não se trata de eu acreditar nisso ou não. É só que, por uma característica pessoal, não consigo impor uma crença como verdade, por mais evidências que dela eu tenha.

Então, só posso dividir a minha humilde estratégia de lidar com as perdas… Tenho buscado me conscientizar de que a insegurança faz parte da vida e que as incertezas sempre estarão presentes. Principalmente, tenho aceitado cada vez mais que eu tenho pouco controle sobre quase tudo.  Ah, sim, e a beleza também ajuda! Hoje pela manhã, por exemplo, algumas nuvens no céu permitiam que apenas um pequeno raio de sol iluminasse algumas das plantas, enquanto meus outros dois cachorros esperavam ao meu lado o seu pedacinho de pão com manteiga… E sorri porque senti aquela outra certeza bem mais prazerosa, a de que não importa o que estejamos passando, sempre ainda há muita beleza ao redor.

Como a de um poema… pena que não dá pra transcrevê-lo integralmente:

“(…)
A máquina do mundo se entreabriu
Para quem de a romper já se esquivava
E só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
Sem emitir um som que fosse impuro
Nem um clarão maior que o tolerável.
(…)
Assim me disse, embora voz alguma
Ou sopro ou eco ou simples percussão
Atestasse que alguém, sobre a montanha,
A outro alguém, noturno e miserável,
Em colóquio se estava dirigindo:

O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular
que nem concebes mais, pois tão esquivo

(…) vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.
(…)

E tudo o que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
(…)

Tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

(…) A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.”

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.