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Alessandra Olivato

É verdade?

Leia o artigo de estreia da socióloga Alessandra Olivato

Por Alessandra Olivato

17 fev 2021 às 08:55 • Última atualização 17 fev 2021 às 08:56

O surgimento da imprensa e dos jornais impressos e, mais recentemente, das tecnologias de comunicação, principalmente internet e celular, tem nos agraciado com um volume incontável de informações que cresce a cada dia. Como alguém observou, uma criança de sete anos hoje sabe mais sobre o mundo do que um adulto bem informado do século XIX pra trás.

O que essa avalanche de informações não conta, porém, é que a maioria delas não apenas noticiam ou descrevem fatos, mas transmitem opiniões. Bem escritas e argumentadas, embasadas em eventos concretos, mas opiniões.

Nos aventurarmos a discutir sobre o que é “real” e o que é opinião no noticiário diário pode nos levar com certeza a gastar o estoque de cerveja de um bar ou, o que é menos agradável, começar a dividir as pessoas entre as que concordam conosco e as que discordam de nós (e de quem gostamos ou não).

Senão, vejamos: esse primeiro parágrafo de um artigo de um jornal reconhecido também contém a opinião de sua autora. E assim é com praticamente tudo o que lemos, nos contam ou ouvimos por aí. Fatos e opiniões andam juntos, não são excludentes.

Mas então somos enganados diariamente com as notícias? Calma, não é bem assim. O ser humano se diferencia dos animais pela capacidade de criar significados. Construímos nosso mundo real e imaginário, nos comunicamos e ajudamos uns aos outros a saber sobre a vida, a ciência e os acontecimentos, atribuindo sentidos às coisas.

Nossos sentimentos e maneira particular de pensar revela uma subjetividade que é parte de nossa natureza e grande parte desenvolvida a partir do que vivenciamos em contextos concretos.

Para ficarmos em um exemplo simples, pergunte a um médico qual é o maior problema da humanidade e provavelmente ele dirá que é a saúde, para a assistente social é a pobreza, enquanto que o gari tem certeza de que o planeta será destruído pela quantidade de lixo que produzimos. Nenhum deles mente, mas cada um chama a atenção para aquilo que lhe toca mais.

Outro exemplo? Pessoas que se identificam como de esquerda ou de direita, no geral, desejam coisas parecidas – o fim da corrupção, um mundo melhor, mas quase sempre discordam sobre o melhor método de se alcançar isso. Por quê? Em boa parte, porque tiveram experiências diferentes na vida.

É fundamental não confundir opinião com mentira. Mentira refere-se a algo que não ocorreu, opinião é uma versão parcial sobre algo. Seria revolucionário se tomássemos consciência disso tudo, porque nos permitiria entender muita coisa – como, por exemplo, que a opinião do gari, da dona-de-casa ou de um advogado são igualmente válidas, ainda que uma possa basear-se em uma maior gama de conhecimentos do que a outra.

Também nos ajudaria a filtrar tudo o que ouvimos ou nos é ensinado, reconhecendo melhor o valor de cada informação. E, muito importante, contribuiria para que não tomássemos opiniões diferentes da nossa como mentira, nem as iguais às nossas como verdades absolutas, e sim, nos ajudaria a compreender a ambas como ângulos diferentes de uma mesma realidade.

Muito interessante é que, para desenvolvermos essa capacidade, um bom caminho seria acreditar um pouco mais em nossa própria subjetividade, isto é, em nossa própria experiência de vida e naquilo que somos capazes de pensar por contra própria, sem que nos digam.

Como assim? Para sermos assertivos precisamos recorrer um pouco à subjetividade? Parece contraditório, e é um pouco! E, claro, reflete a opinião dessa humilde pessoa… mas não deixa de ter um fundo de verdade! Divertido não?

Mas já é filosofia demais para um primeiro texto de boas vindas a esse canal em que quero, humildemente, conversar sobre coisas variadas; um primeiro texto inspirado nessa divisão de opiniões sem fim que tomou conta de nós, brasileiros, mas que é global e contemporânea.

E para finalizar nossa filosofia do cotidiano, o trecho de um de meus poemas favoritos muito se encaixa aqui:

“Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.”

Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa

Até a próxima!

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.