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Alessandra Olivato

Ciência e religião

Óbvio que existem conhecimentos mais fundamentados que outros, mas quais são melhores? Confira a discussão no artigo da socióloga Alessandra Olivato

Por Alessandra Olivato

24 fev 2021 às 08:00 • Última atualização 24 fev 2021 às 08:40

No texto anterior me aventurei a filosofar sobre o que é fato e o que é opinião, discussão que ganha adeptos com uma das mais antigas dicotomias que conhecemos: a da religião versus ciência. A essa eu ainda acrescentaria, pela presença que tem hoje, as autoajudas de todos os tipos: conheça-te a si mesmo, dietas transformadoras, o passo-a-passo de um grande líder, como ficar rico com as redes sociais e por aí vai.

Outro tipo de conhecimento muito particular é o do senso comum, desenvolvido a partir de todas as experiências pelas quais passamos no decorrer da vida. Nos valemos dele diariamente para resolver ou evitar muitos problemas. O senso comum diferencia-se da ciência, entretanto, porque não precisa provar nada.

Enquanto discutimos se o ovo faz mal ou faz bem pra saúde, se a Terra é plana ou redonda, defendemos que “a pessoa vai pro crime porque quer” ou, pelo contrário, “a sociedade induz o indivíduo ao crime”, o médico, o físico e o cientista social precisam tentar responder a essas questões com argumentos racionais ancorados em uma boa base de dados e testes de correlações.

Afinal, governos não definem suas políticas e empresas não tomam decisões baseando-se nas opiniões de uma roda de amigos ou meia dúzia de comentários nas redes sociais.

Mas, especialmente a partir do Iluminismo, acredito que tenha ganho força uma ideia equivocada, que nos levou a crer que todo conhecimento que não seja científico é falso ou inválido.

Lembro-me dos anos que vivi na capital, como observava no trem ao retornar para casa pessoas “humildes”, em sua maioria homens, semblantes exaustos depois de um dia de trabalho, pescoços arqueados pra baixo, absortos na leitura da Bíblia. Pessoas que provavelmente só leram dois ou três livros na vida, se tanto.

Era impossível não imaginar o quanto aquelas palavras evitavam que o indivíduo parasse em um bar e enchesse a cara de cachaça antes de ir para casa encontrar sua esposa e filhos.

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Como eu via essa cena todos os dias, não importa que horário pegasse o transporte, ficava imaginando a parcela que essas pessoas representariam em uma cidade como São Paulo.

E os pastores? É certo que existem os que fizeram do ofício exclusivamente uma forma de enriquecer, mas também existem os vocacionados que encontraram no exercício sacerdotal um meio eficaz para ajudar pessoas.

Em um país onde o Estado é falho em administrar alguns conflitos e a educação não é generalizada, podemos imaginar o quanto uma cultura crente e resiliente, que busca na religião respostas e alívio para seu sofrimento, pode guardar um lado positivo.

Sim, seria melhor que não houvessem estelionatários religiosos, mas enriquecimento ilícito não é prerrogativa de igrejas. O que quero, apenas, é chamar a atenção para o lado positivo do conhecimento religioso, que é subjetivo e não científico.

Penso o mesmo em relação aos profissionais que lotam os meios de comunicação com seus métodos sobre como tornar nossa vida melhor.

Muitos passaram a vida estudando seus cristais, aromas, plantas, técnicas de respiração, numerologia, espiritualidade e vivendo experiências que tornam seu conhecimento também válido de algum modo. Alguns nos iludem e outros têm muitas coisas úteis a nos dizer, mas o X da questão não é esse, é que vivemos sim em uma democracia que, apesar de imperfeita, nos permite uma liberdade de escolhas incomparável à de séculos atrás. Temos a liberdade de ver tv ou desligá-la, se não houver nenhum programa que nos interesse.

Óbvio que existem conhecimentos mais fundamentados que outros, mas quais são melhores? Poderíamos dizer que é aquele que, a médio e longo prazo ajuda a melhorar nossa saúde, tornar nossas vidas menos complicadas e mais serenos nossos corações? Ou aquele que atinge um maior número de pessoas? Se assim for, acredito que ciência, religiosidade e autoajuda têm, cada uma com seus alcances e limitações, valores próprios em nossa busca incessante pela felicidade. E o melhor, podemos escolher qual delas preferimos, ou todas.

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.