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Histórias de Americana

A remadora de Carioba

Por Gabriela Simonetti Trevisan

08 nov 2020 às 10:21

Entre os séculos XIX e XX, a relação entre mulheres e esporte era bastante controversa. É nesse período que a ciência consolida a ideia de que haveria uma natureza materna incontornável e, para preservá-la, algumas práticas deveriam ser restringidas para as mulheres, como a participação política, a leitura e, claro, as atividades físicas. Vistas como “sexo frágil”, as mulheres deviam vencer uma série de barreiras para se tornarem atletas.

Ao mesmo tempo, também é nesse período que o esporte se torna símbolo de saúde, higienismo e nacionalismo. No Brasil, em 1874, surge o primeiro espaço esportivo, o Guanabarino.

Após ele, clubes de regatas proliferam em todo o país, voltados especialmente às elites locais. Contudo, é apenas em 1911, no Rio de Janeiro, que acontecerá a primeira competição feminina de remo.

Na virada entre os anos 1920 e 1930, o cenário parece se alterar e encontramos em diversos jornais do estado de São Paulo a participação das mulheres em competições, ainda que majoritariamente amadoras.

Americana, região ligada ao polo econômico e urbano campineiro nesta época, não estava à parte desse cenário. Como é sabido, Carioba era, então, detentora de espaços de recreação e práticas esportivas, como o Clube Recreativo e Esportivo Carioba e o Clube de Regatas e Natação Carioba.

Em um recorte do jornal O Município, de 1932, por exemplo, encontramos o anúncio de um “festival esportivo” que contaria com um festejo, homenagem à medalha de prata de uma “remadora veterana”. Sem nomes citados, a matéria ainda anunciava a competição feminina e masculina de nado livre e remo.

Atleta cujo nome não pudemos encontrar no acervo do periódico, sua participação esportiva parece pequena diante das grandes descrições dos jogos de futebol e pingue-pongue, com atletas masculinos. Contudo, o singelo evento organizado para homenagear sua medalha é uma memória viva da presença feminina na história do esporte cariobense.

É apenas a partir da segunda metade do século XX que as mulheres ocuparão mais espaço nos diversos esportes, desconstruindo preconceitos.

Hoje, conhecemos Marta, Hortência, Serena Willians, Maurren Maggi e Nadia Comăneci, entre tantas outras. Estas só puderam existir por conta das atletas sem nome, que já foram rodapés dos jornais. Que o esporte continue se feminizando.

Referência: “As práticas corporais femininas em clubes paulistas do início do século XX”, de Milena Bushatsky Mathias e Kátia Rubio (USP), disponível online.

*Gabriela Simonetti Trevisan
Membro do grupo Historiadores Independentes de Carioba, dedicado à pesquisa histórica sobre Americana
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Historiadores de Carioba

Blog abastecido pelo grupo Historiadores Independentes de Carioba, que se dedica à pesquisa histórica sobre Americana.