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Histórias de Americana

A longa história do moralismo

Se o moralismo é de longa data, é também internacional, nacional e local

Por Gabriela Simonetti Trevisan

10 Outubro 2021, às 09h52

No século II, o cartaginense Tertuliano, patriarca da Igreja, publica um livro chamado “A aparência das mulheres”, no qual argumenta que as roupas femininas eram feitas para chamar atenção dos homens de maneira imprópria, afetando a moral.

Desde o ano passado, no Brasil, acompanhamos o julgamento do estupro de Mari Ferrer e vimos o uso de argumentos deslegitimadores da vítima, buscando justificar a violência pelas roupas que usava.

Se o moralismo é de longa data, é também internacional, nacional e local. Em Americana, a mesma lógica também já foi muito reproduzida nos veículos públicos.

Como exemplo, encontramos um artigo de opinião do dia 18 de maio de 1969, publicado no LIBERAL e intitulado “A minissaia agita o mundo médico”.

Nele, o autor argumenta que médicos europeus apontavam como esse novo artigo da moda seria responsável pela depravação sexual, levando à destruição da família.

O autor, concordando, argumenta que a educação sexual não havia sido necessária em outros tempos, já que “antigamente havia pudor”, diferente do “afrouxamento dos costumes” de então. Ainda deixa sua crítica ao “amor livre”, costume “hippie” que ainda não teria chegado ao Brasil, “país cristão” que deveria se proteger da “imoralidade comunista”.

As falas que parecem atuais, presentes nas declarações públicas de uma série de figuras políticas brasileiras, chegam ao nível do cômico quando pensamos historicamente sua incoerência.

No século XIX, médicos europeus e brasileiros já defendiam posições similares, alegando que as mulheres eram “histéricas” e naturalmente cuidadoras do lar, já que seriam incapazes de raciocinar e, logo, de estar na política, por exemplo. É por isso que, entre o século XIX e início do XX, diversas autoras e intelectuais como Nísia Floresta, Júlia Lopes de Almeida e Maria Lacerda de Moura já atacavam esse tipo de pensamento.

Já no mesmo ano do texto da minissaia, em 1969, em plena ditadura civil-militar, assistíamos a ascensão da Tropicália, ganhando prestígio internacional, e havíamos passado pelo explosivo maio de 1968, que levou jovens do mundo inteiro às ruas, exigindo liberdade e direitos.

Já se espalhavam os debates sobre direitos reprodutivos nos grupos de discussão femininos e as mulheres começavam a adentrar o cenário político e universitário. Também é nessa época e com mais força nos anos 1970 que essas mesmas mulheres jovens de minissaia seriam parte dos movimentos estudantis que exigiam a volta da democracia.

Vale ressaltar que neste 10 de outubro comemoramos o Dia Nacional de Luta Contra a Violência à Mulher, data necessária diante das permanências dos discursos que se vestem de moral para destilarem culpabilização sobre as mulheres, desde Tertuliano até Mari Ferrer. Continuemos
lutando pela liberdade.

*Gabriela Simonetti Trevisan
Membro do grupo Historiadores Independentes de Carioba, dedicado à pesquisa história sobre Americana

Historiadores de Carioba

Blog abastecido pelo grupo Historiadores Independentes de Carioba, que se dedica à pesquisa histórica sobre Americana.