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Alessandra Olivato

A insustentável aparência do ser

Difícil negar que alguns nossos dos momentos mais felizes é quando podemos ser “nós mesmos”; leia o novo artigo de Alessandra Olivato

Por Alessandra Olivato

02 jun 2021 às 07:36

Há muito tempo atrás eu e uma amiga varamos a madrugada a discordar sobre uma questão filosófica: serão os sentimentos e necessidades humanas universais, isto é, semelhantes no mundo todo, ou variam conforme a cultura a ponto de haver algumas que nem usam a expressão “necessidades humanas”? Passados mais ou menos vinte anos daquele debate de boteco, reafirmo minha opinião de que apesar das evidentes diferenças culturais nesse enorme planeta, parece haver algumas necessidades básicas ao ser humano.

O mundo de hoje tem me feito pensar que existe uma necessidade emocional que, ao menos em algum momento da vida, torna-se inadiável: a necessidade de verdade, especificamente, a de sermos verdadeiros. Difícil negar que alguns nossos dos momentos mais felizes é quando podemos ser “nós mesmos”, sem carapuças ou armaduras. Entretanto, para que a sociedade possa existir é necessário desempenharmos uma série de papéis sociais e padrões de comportamento. A previsibilidade das nossas ações é fundamental para criar um sentimento sine qua non à vida: o de segurança. Ao abrir o portão de casa pela manhã esperamos trocar um amistoso bom dia com nosso vizinho e não que ele esteja nos aguardando nervoso e com uma arma na mão. Tudo bem, nem sempre funciona assim, mas a probabilidade enorme de que assim será nos dá a segurança necessária de que o restante do dia também transcorrerá sem surpresas desagradáveis.

Mas… Será que chegamos a um ponto em que esperamos uns dos outros muito além do bom dia no portão? Cobramos e somos cobrados não apenas em cumprir nossos papéis e responsabilidades sociais, mas também que sejamos otimistas, positivos, magros, bonitos, alegres, bondosos, compreensivos, bem-sucedidos, educados, politicamente corretos e, não menos importante, fortes. Sou defensora convicta da ideia de positividade diante da vida e do esforço em enfrentar os problemas de maneira construtiva. Vencer os próprios desafios pessoais nos move e nos mantém vivos de fato. Sem desafios, entramos em um estado meio letárgico.

Mas é fato que a autocobrança e as expectativas alheias se potencializaram nos últimos tempos com o surgimento de novas formas de vigilância e punição social, como as redes sociais. Não interessa se não somos entusiasmados o tempo todo, temos que parecer ser. É a ordem dos tempos. Procure agradar todo mundo. Se quiser expressar sua opinião, considere o que o outro vai pensar, não descuide das consequências. Seja afável mesmo com quem lhe fez mal. Goste de todo mundo. Não erre. Não mostre suas fraquezas. Queira sempre mais, mostre-se uma pessoa ambiciosa, destemida e invencível. Jamais, sob hipótese alguma, mostre-se “fraco” – seja lá o que cargas d’água isso quer dizer. E acima de tudo, seja jovem. Mantenha-se disposto e cheio de energia. Ou pelo menos aparente.

Com o perdão da parcialidade, mas se for mulher, mostre-se correta, honesta, trabalhadora, fiel, boa esposa, boa mãe, amiga irrepreensível; seja vaidosa mas não gaste muito, seja independente mas ainda um pouco submissa, faça o que esperam que você faça sempre, procure não surpreender. Publique fotos nuas mas não publique opiniões, e se diga emponderada.  E de jeito nenhum pareça velha.

Apesar de subliminar, o novo voyeurismo contemporâneo é impactante. Não poucos profissionais já apontam a cobrança em manter uma imagem virtual positiva e a comparação crescente com a vida dos outros – hábitos impulsionados pelas redes sociais – como um dos fatores para o aumento vertiginoso dos transtornos de ansiedade nos últimos anos. De minha parte, não tenho nenhum dúvida de que já vivemos uma versão social muito próxima à da série Black Mirror (em especial à do episódio “Queda livre”).

Quem me conhece melhor sabe que sou do grupo politicamente incorreto que acha que existe muito mimimi hoje em dia. Sim, acho que tem gente se faz de vítima demais e considero o brasileiro um tanto quanto melindroso. Gosto da expressão resiliência. Mas a questão, como penso em relação a tudo, é o exagero. Por isso, penso que vivemos atualmente uma apologia às aparências acima do normal. De forma alguma defendo a ideia de “sou o que sou e não me importa os outros”. Particularmente acho horrível. Mas talvez não seja melhor nos darmos o direito de estarmos tristes ou desleixados ou de sermos mal-humorados e até mal-educados de vez em quando a fim de preservar um pouco nossa espontaneidade e até sinceridade? Ao invés de sufocar sentimentos e opiniões não seria melhor podermos discutir às vezes e depois esquecer? E aí, você se sente sufocado pelas aparências sociais ou convive bem com elas? Me conte e até a próxima!

Alessandra Olivato

Mestre em Sociologia, Alessandra Olivato aborda filosofias do cotidiano a partir de temas como política, gênero, espiritualidade, eventos da cidade e do País.