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Cotidiano & Existência

A escrita e o beija-flor

Engana-se quem acredita que o ofício de escrever é tarefa fácil e, às vezes, a inspiração aparece pela janela do escritório

Por Gisela Breno

20 de outubro de 2021, às 10h23

Debruçada no computador, teclando muitas vezes sem inspiração alguma, garimpando frases para deitá-las no papel que insiste em continuar branco, respiro profundamente.

Engana-se quem acredita que o ofício de escrever é tarefa fácil.

Frequentemente é parto com fórceps, árduo trabalho, porque mesmo portadores de uma imensidão de palavras que habitam o cérebro humano, por muitas, muitas vezes elas se recusam a deslizar para nossas mãos para juntar os fios que, alinhavados, darão a luz ao texto, ao poema, ao artigo, à poesia que precisam nascer.

Num gesto de súplica, fecho os olhos, ergo levemente a cabeça, uno minhas mãos e devagarinho, abrindo os olhos, os direciono para janela do meu escritório, berço que me embala, refúgio e ninho do emaranhado de linhas que compõem os novelos da minha essência.

Em meio às flores vermelhas e amarelas do meu jardim eis que ele aparece.

Corpo delicado, cores cintilantes, essa pequenina ave que me visita e me inspira, vai encostando sua cabeça nas flores, suga o néctar, absorve pólen em seu bico alongado e em instantes voa linda e suavemente pra longe de mim.

Magicamente uma paz invade minhas entranhas e porque aquele beija-flor perfumou e beijou minha alma, as palavras, as frases, igualmente inebriadas, sem resistência, escorrem para o papel.

Gisela Breno

Professora, Gisela Breno é graduada em Biologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e fez mestrado em Educação no Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo). A professora lecionou por pelo menos 30 anos.