Ex-morador de rua que salvou família de incêndio consegue emprego em Sumaré

Fernando ajudou a salvar família em automóvel que pegou fogo e, agora, tenta mudar de vida


Há pouco mais de dois meses, Fernando vivia nas ruas e passava o dia em busca de dinheiro para bebida, cocaína e comida. Em 18 de março, ajudou a salvar duas crianças de um carro em chamas na Avenida Eugênia Biancalana Duarte, em Sumaré. Um dia depois, conseguiu a janta no lixo. Agora, está prestes a começar a trabalhar como açougueiro, sua profissão, numa rede atacadista de Sumaré.

“Pra mim aquilo foi a mesma coisa que tomar um tapa na cara”, conta Fernando Luís Lourenço, de 35 anos, referindo-se à busca por comida no lixo, fato que define como “a gota d’água” para sua mudança. “Eu tava com dinheiro até umas horas antes, acabei usando bebida, gastei o dinheiro e não comi. [Aí pensei] a partir de hoje, não quero isso pra minha vida.”

Dois dias depois do acidente, o LIBERAL mostrou a história dele e de Leandro Carlos de Oliveira, de 29 anos. Moradores de rua, ambos ajudaram no resgate às crianças num sábado à tarde, quando um Vectra com um homem e dois filhos, de 2 e 4 anos, passou pegando fogo. Todos sobreviveram.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Fernando está prestes a começar a trabalhar em uma rede atacadista e diz ter largado as drogas

Desde então, os dois conseguiram vaga em um abrigo em Sumaré. Leandro ficou cerca de 15 dias e foi embora. Fernando teve ajuda da prefeitura e de funcionários do abrigo e passou a distribuir currículos. Mudou-se recentemente para outra casa de ajuda, mais próxima do futuro emprego. “Abracei a oportunidade.”

Manteve-se longe das drogas, diz, e com a cabeça no lugar. “Já saí sozinho, já peguei dinheiro, mas eu pus na cabeça [que não quer mais essa vida]”, afirma, antes de começar a contar os planos. “Só vou precisar depois mais pra frente arrumar um lugar pra mim, que aqui [no abrigo] não é pra vida inteira, né. Aí eu vou fazer meu pé-de-meia, guardando um pouco de dinheiro”, planeja Fernando, que vai receber R$ 1.780 por mês na rede atacadista.

Ele disse que já fez exames médicos e deve começar a trabalhar no começo do mês que vem. A empresa confirmou que Fernando está em processo de contratação, na fase de documentação. “Eu tô contente, graças a Deus, de sair da rua”, conta Fernando. Ele diz que era mais “sossegado” em relação a drogas e álcool, mas que o ambiente influenciava. “Só que na rua cê já sabe, né, irmão, você e é obrigado a beber, às vezes ‘cê’ não tem comida, não tem nada, pra dar um pouco de coragem. Mas agora graças a Deus ‘tô’ bem instalado, consegui esse emprego.”

O açougueiro vivia nas ruas há cerca de dois anos. Ele é de Piracicaba. Um problema familiar o fez intensificar o uso de cocaína. Logo depois, saiu de casa e começou a perambular por cidades. Conheceu Leandro em Rio Claro. Quando viram o carro pegando fogo, haviam acabado de se drogar. Eles dizem que ajudaram porque é o que qualquer pessoa com coração faria.

Foto: Adriano de Moraes - Divulgação
Carro pegou fogo em março, em Sumaré

Leandro abandonou casa de acolhimento

Leandro Carlos de Oliveira, de 29 anos, que também ajudou no resgate das crianças, deixou a casa de acolhimento em que foi abrigado após cerca de 15 dias. Segundo Fernando, o rapaz voltou às ruas. “Parece que foi pra Americana. Praticamente fiquei dois meses na Resgatar. Ele ficou 15 dias, puxou faca pra um. Cada um tem uma cabeça”, afirma, dizendo que o amigo é um homem “bom”, ainda é novo e merece uma chance.

Leandro nasceu em Barrinha. A mãe morreu quando ele tinha 4 anos e o pai é mendigo em Ribeirão Preto. Usa drogas desde os 12 anos, como contou ao LIBERAL dois dias depois do acidente. Viciado em crack, foi viver nas ruas quando a avó morreu, há cerca de cinco meses.

“Inicialmente ele que não aguentou ficar aqui e pediu desligamento”, informou a psicóloga da casa de acolhimento Resgatar, Letícia Cristiane Santana da Rosa. Segundo Letícia, Leandro saiu da casa uma primeira vez, voltou e depois voltou a abandonar o local. Fernando diz que já aconselhou o amigo, com quem passou por várias cidades.

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