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SANTA BÁRBARA

Uso da bandeira Confederada evidencia disputa pela memória, diz antropólogo

Símbolo associado ao racismo perde espaço nos EUA, mas memória afetiva dificulta que debate reverbere na região

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26 Julho 2020, às 10h44 • Última atualização 26 Julho 2020, às 19h25

A ausência de conotação política da bandeira confederada no Brasil e a memória afetiva para os descendentes dos imigrantes norte-americanos dificultam com que o debate sobre a carga racista associada ao símbolo reverbere na região.

A análise é do historiador e antropólogo Alcides Fernando Gussi, autor do livro “Os Norte-Americanos (Confederados) do Brasil – Identidades no Contexto Transacional”.

A tradicional Festa Confederada de Santa Bárbara d’Oeste, cuja 32ª edição ocorreria em abril, foi adiada devido à pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

O evento é alvo de críticas por parte da Unegro (União dos Negros e Negras Pela Igualdade) há quatro anos justamente pelo uso do estandarte.

Dança típica em cima do símbolo maior da festa na edição de 2019 – Foto: Prefeitura de Santa Bárbara / Divulgação

Símbolo do lado derrotado na guerra civil americana do século 19 e associado ao racismo no país de origem, a insígnia dos confederados – 13 estrelas brancas sob um X, em cima de um fundo vermelho – está perdendo força nos Estados Unidos há pelo menos uma década.

O exemplo mais recente aconteceu no dia 30 de junho. Depois de 126 anos, o último estado que ainda ostentava o símbolo, o Mississippi, retirou a marca de sua bandeira. A lei foi sancionada pelo governador Tate Reeves.

A decisão veio na esteira dos protestos raciais que explodiram no país. O assassinato do negro George Floyd, 46, por um policial branco no dia 25 de maio, em Minneapolis, desencadeou o movimento #BlackLivesMatter (Vidas Negras Importam).

Outro desdobramento foi a proibição da bandeira confederada nas provas da Nascar, categoria de automobilismo popular nos EUA. O pedido partiu do piloto Bubba Wallace, o único negro do grid.

A motivação é histórica e tem como base a guerra civil norte-americana, também conhecida como Guerra da Secessão. O conflito armado começou em 12 de abril de 1861 e só teve fim em 22 de junho de 1865.

Os estados do Sul se separaram do restante do país diante da perspectiva de terem de desistir da escravidão como mão de obra. Com o passar do tempo, a bandeira confederada se tornou símbolo do racismo e da escravidão para os afro-americanos.

Apesar dos recentes desdobramentos nos Estados Unidos, não há nenhum plano por parte da Fraternidade Descendência Americana de abolir o uso da bandeirante confederada em Santa Bárbara d’Oeste.

Presidente da Fraternidade, João Leopoldo Padoveze foi questionado pelo LIBERAL se os protestos nos EUA despertaram alguma nova discussão interna sobre a remoção da bandeira da festa. Por WhatsApp, o dirigente evitou a pauta, mas indicou que o assunto não está nos planos.

“Acreditamos que, diante do atual cenário, a saúde de nossos familiares e amigos está em primeiro lugar. Qualquer outro assunto relacionado a movimentos políticos ou quaisquer outro que não seja a agenda da saúde, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, não estão dentre as nossas pautas no momento”, escreveu Leopoldo.

Presidente da Unegro em Americana, Cláudia Monteiro, esperava que a Fraternidade aproveitasse o momento para discutir o assunto. Ela ressalta que o grupo não é contra a realização da festa e que reconhece sua importância, mas que a história “precisa ser contada”.

“Nós reivindicamos o direito à memória dos nossos ancestrais, e a bandeira nos afeta diretamente. É contra isso que nós temos lutado, mas sempre há tempo da fraternidade repensar sua postura. Isso é um processo, leva tempo, mas eu acredito que no futuro eles vão repensar com um pouco mais de profundidade, nesse contexto histórico, o que de fato nós estamos querendo dizer há muito tempo”, afirmou Claudia.

Disputa
Para o antropólogo Alcides Fernando Gussi, a situação em Santa Bárbara evidencia uma “disputa pela memória”. Em suas pesquisas, a bandeira confederada aparece na região como uma forma de preservação da identidade.

“Lá (nos EUA), a bandeira é um símbolo político. Ela representa a supremacia branca. Tem uma conotação racista muito forte”, afirmou Alcides.

“A memória aqui é um pouco mais afetiva. Talvez por isso agarra-se tanto a essa simbologia. Não são por convicções políticas, mas é se agarrar mesmo a uma memória mais familiar”, explicou.

Entretanto, embora a memória afetiva seja justificada em sua visão, o pesquisador pondera que ela precisa ser “negociada” com grupos que foram excluídos e tiveram sua própria memória praticamente apagada.

“É um impasse mais coletivo de disputa pela memória de um país, de coisas que foram esquecidas e estão sendo lembradas agora. Diante de um contexto político que recoloca a história e a memória negra no país. Talvez essa disputa seja benéfica para todas as partes”, disse Alcides.   

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