Soro não chegou a ser aplicado em menina que morreu após picada

Dose do medicamento chegou a ser solicitada ao Hospital Municipal de Americana; prefeituras não responderam questionamentos da reportagem


A menina de 10 anos que morreu após ser picada por um escorpião no Jardim Europa, em Santa Bárbara d’Oeste, não chegou a receber o soro antiescorpiônico. O Pronto-socorro Dr. Edison Mano, onde Maria Eduarda de Araújo Pigatto chegou às 6h15 de quarta-feira (7), não tinha o medicamente, que chegou a ser solicitado ao Hospital Municipal Dr. Waldemar Tebaldi, em Americana. A criança morreu uma hora e meia depois, às 7h45, antes que a solução fosse aplicada.

A Prefeitura de Santa Bárbara, que administra o pronto-socorro, não esclareceu em que horário pediu o auxílio. As duas unidades ficam a 16 km de distância.

Foto: Arquivo pessoal
Escorpião picou Maria Eduarda no pé e na mão; ela não resistiu aos ferimentos e morreu

Maria Eduarda, que completaria 11 anos no dia 19, estava dormindo na casa dos avós paternos quando foi picada no pé e na mão, segundo seu padrasto, Kleyton Renato Ferreira, 38. “[Picou] No pé, nisso ela bateu a mão, picou a mão”, contou. A menina foi levada pelos avós ao pronto-socorro. Assim que chegou começou a vomitar várias vezes e estava agitada (dois sinais que indicam a gravidade da picada).

Maria Eduarda ficava na casa dos avós durante a semana porque é mais perto de onde estudava – a menina cursava o 4º ano do ensino fundamental na escola municipal Professora Maria Regina Barbosa Carpim. A mãe mora com o padrasto no Jardim Governador Mário Covas, em Americana, onde a garota passava os finais de semana.

“Como que um hospital, do Centro, não é um postinho, não é uma UBS, como que eles não têm um soro?”, questionou o padrasto. De acordo com ele, a mãe e a avó da menina passaram mal após a morte. A mãe ficou em estado de choque e estava à base de calmantes até ontem à noite. A avó precisou ficar em observação no mesmo pronto-socorro após sua pressão subir, contou Ferreira. A menina será enterrada hoje, às 9 horas, no Cemitério Parque Gramado, segundo o padrasto.

De acordo com a assessoria de imprensa da Prefeitura de Santa Bárbara, a equipe médica atendeu a criança prontamente e cumpriu todos os procedimentos de emergência. A prefeitura informou que fez contato com a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), referência regional neste tipo de caso, e que solicitou o soro à Prefeitura de Americana. As doses de soro antiescorpiônico são armazenadas em sedes regionais, de acordo com a prefeitura, e o local mais próximo era Americana.

A reportagem perguntou à assessoria de imprensa que horas o soro foi solicitado ao HM de Americana; se alguém de Santa Bárbara foi buscar o remédio ou se alguém de Americana iria levá-lo; se o soro foi ou não enviado; por que a menina não foi levada diretamente ao HM quando chegou com informação de picada de escorpião; e se a ausência do soro foi considerada pela equipe médica como fator que causou a morte. A prefeitura ignorou todas as perguntas. A Prefeitura de Americana não se manifestou.

A assessoria de imprensa da Secretaria Estadual da Saúde informou que a definição dos locais estratégicos que recebem o soro segue política do Ministério da Saúde.

O Ministério da Saúde informou que a escolha das unidades de saúde que podem disponibilizar a solução antiveneno é prerrogativa dos Estados. O órgão federal diz orientar que é necessário deixar esses imunobiológicos de forma estratégica em áreas de maior risco. De janeiro até agora, o Estado de São Paulo recebeu 3.820 ampolas.

Em todo o Estado, 21,7 mil casos de picadas foram registrados no ano passado. Sete pessoas morreram, segundo a Secretaria Estadual de Saúde. De acordo com o governo federal, 87% dos casos de ataques de escorpiões são leves e não exigem aplicação do soro.

Na região de Campinas, sete unidades contam com o soro, segundo o Estado. Além de Americana, o antiveneno está disponível em Campinas, Atibaia, Bragança Paulista, Itatiba, Jundiaí e Socorro.

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