Aposentado tem em casa 800 escorpiões

Barbarense guarda os animais mortos em vidros com álcool e usa a mistura para passar em picadas de insetos, como seus pais e avós lhe ensinaram


Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Sebastião Leme começou a guardar os escorpiões há oito anos

Em um quarto nos fundos da casa onde mora na Vila Linópolis, em Santa Bárbara d’Oeste, o aposentado Sebastião Francisco Leme, de 68 anos, guarda uma “coleção” que à primeira vista arrepia. Ele calcula que possui entre 700 e 800 escorpiões em cinco potes com álcool, todos mortos e conservados, mesmo que os mais velhos tenham sido recolhidos há oito anos. A “mistura” é usada por Sebastião para passar em picadas de insetos e animais peçonhentos. O aposentado conversou com a reportagem esta semana e contou que aprendeu a prática com pais e avós.

Os primeiros escorpiões foram recolhidos durante uma obra no sistema de água realizada pelo DAE (Departamento de Água e Esgoto) na calçada da casa de Sebastião. Segundo ele, uma placa de cimento foi retirada e, embaixo, havia uma grande quantidade de animais. “A gente não via muitos escorpiões, até esse dia. Depois fui em outras calçadas aqui no bairro mesmo e fui achando mais”, explicou. Os animais são recolhidos ainda vivos com uma pinça de bambu de cerca de 30 centímetros. “Mas você coloca no álcool ele dura uns cinco, seis minutos no máximo”.

O álcool onde os escorpiões ficam é usado para passar em picadas de formigas, pernilongos, abelha e até mesmo do próprio escorpião. Sebastião disse que sua sogra foi picada por um animal há alguns anos e depois de usar o álcool para passar no ferimento nem precisou ir até o médico. Ele mesmo nunca foi picado por escorpião, mas garante que já passou o líquido em outras picadas e viu a alergia regredir.

“Tem muita diferença do álcool comum porque ele tem o próprio veneno do escorpião e ‘mata’ essas coisas. É mais rápido, você passa e em questão de minutos melhora”, garantiu, relacionando o suposto efeito ao mesmo princípio do soro antiescorpiônico, que é feito a partir do próprio veneno do animal.

A prática foi ensinada ao aposentado ainda na infância. Natural de Toledo, em Minas Gerais, Sebastião via os pais e avós fazendo uso do remédio caseiro para “curar” a alergia das picadas.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
O álcool onde os escorpiões ficam é usado para passar em picadas de formigas, pernilongos, abelha e até mesmo do próprio escorpiã

VENENO. A Secretaria de Saúde informa que a rede de esgoto é um dos principais alojamentos de escorpiões em áreas urbanas. Em função disso, a pasta “orienta a população a manter vedadas as aberturas para a rede de esgoto (ralos, caixas de gordura) para impedir o acesso de escorpiões aos imóveis”.
“Seguindo recomendação do Ministério da Saúde (Manual de Vigilância, Prevenção e Controle de Zoonoses, Brasília – 2016), não é realizado controle químico de escorpiões, já que não há evidência científica de eficácia desta técnica para controle populacional desses aracnídeos”, informou o município.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Os primeiros escorpiões foram recolhidos durante uma obra no sistema de água realizada pelo DAE na calçada da casa de Sebastião

Método usado necessita de comprovação

Apesar de muito comum, principalmente em cidades do interior, a prática de guardar animais peçonhentos em uma solução com álcool para passar em picadas não tem sua eficácia comprovada cientificamente. A afirmação é de especialistas ouvidos pela reportagem. Eles descartaram que a prática possa apresentar riscos, mas alertaram que o álcool não fica tão limpo quanto deveria para ser usado como desinfectante.

Infectologista e professor da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Campinas, Rogério de Jesus Pedro disse que a melhora observada nas picadas pode estar relacionada ao efeito antisséptico do álcool. “Os soros são preparados a partir do veneno, são injetadas pequenas doses em animais e são utilizados os anticorpos produzidos. Essa prática popular não tem esse rigor científico e não vejo nenhuma evidência de que funcione”, afirmou.

Diretora do Laboratório de Artrópodes e do Núcleo Estratégico de Venenos e Antivenenos do Instituto Butantan, Fan Hui Wen explicou que não há riscos do veneno se soltar do animal e contaminar o álcool, colocando em risco assim a pessoa que utilizá-lo. Contudo, fez uma ressalva quanto ao uso desse líquido. “O álcool poderia ser usado para limpar, mas como tem um animal ali dentro do vidro não é limpo”, afirmou. A diretora ainda alertou para a necessidade de procurar um médico após picadas de escorpiões para que seja avaliada a necessidade de aplicação de soro antiescorpiônico.

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