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SB 201 anos

A história de Santa Bárbara através de prédios históricos

Eles marcaram época nos 201 anos que Santa Bárbara completa nesta quarta-feira

Por Débora de Souza

04 dez 2019 às 07:54 • Última atualização 04 dez 2019 às 10:51

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O ano era 1817, quando Dona Margarida da Graça Martins se fixou em terras que dariam origem a célula-mater da RPT (Região do Polo Têxtil). Santa Bárbara d´Oeste é uma das raras cidades brasileiras fundadas por uma mulher. Seu DNA pioneiro seguiu junto às suas indústrias, com o primeiro trator e o primeiro carro construídos no país, dentre muitos outros “primeiros” que o espaço aqui não lhes faria jus. A cidade que se ergueu como uma das maiores produtoras de cana-de-açúcar do Brasil completa hoje 201 anos de fundação e tem em seus prédios e construções muito de sua história.

IGREJA MATRIZ

Conta a história que Dona Margarida chegou à região para tomar posse de uma sesmaria adquirida em leilão por seu finado marido. Dona de engenho na cidade de Santos, chegou por aqui em 1917 com seus filhos e escravos. Devota de Santa Bárbara, doou parte de suas terras para a construção de uma capelinha em homenagem a santa – na região central da cidade. Atribui-se a data de conclusão da obra o dia 4 de dezembro de 1818, dia da padroeira e dia instituído como fundação de Santa Bárbara.

Foto: CEDOC / Fundação Romi
Igreja Matriz

Nos anos de 1830, a capela se tornou igreja. Em 1875 o prédio foi ampliado e passou por reformas. “Outra grande reforma aconteceu em 1912, para a construção da torre dos sinos e relógio, já prevista no projeto de 1875”, conta o historiador Antônio Carlos Angolini. “A torre foi inaugurada em 1918 e, em 1922, os sinos tocaram em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil. O relógio foi importado da Europa e doado pela Família Cervone à igreja, em 1928”, completa.

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Em torno da igreja, foi construída uma praça que ficou conhecida como “Largo da Matriz”. Em torno dela nasceram os primeiros comércios em indústrias barbarenses, com destaque para as oficinas de instrumentos agrícolas que dariam origem ao setor metalúrgico na cidade. Ainda hoje, a então Praça Cel. Luiz Alves é um dos principais endereços comerciais da cidade. É também um importante espaço de lazer para a população, com canteiros floridos, espelhos d’água e shows aos finais de semana.

USINA SANTA BÁRBARA

O cultivo de cana-de-açúcar e a produção de aguardente logo chamaram a atenção e, em poucos anos, muitos outros engenhos se estabeleceram na região. A economia local começou a mudar em 1877, com a chegada do Major João Frederico Redher. Ele foi o primeiro a investir em destilaria de álcool, o que despertou o interesse de investidores franceses a fim de ampliar e exportar a produção de açúcar e álcool.

Foto: Arquivo / O Liberal
Usina Santa Bárbara

“A ideia era transformar o engenho em usina, mas para isso, era preciso uma malha férrea para escoar a produção. Em 1913 é constituída a Companhia de Estada de Ferro Agrícola. Major Redher vende a fazenda São Pedro e, agora com a estrada de ferro, os investidores fundam a Usina Santa Bárbara, em 1914”, conta Angolini.

Em 1922, a usina é comprada por Cel. Luiz Alves de Almeida. “Ele modernizou a usina, construiu o casarão, doou terras para a construção de um clube, reformou a igreja, ele trouxe muitas melhorias à usina e à cidade”, diz o historiador.

Outros engenhos se transformaram em usina a partir de 1928: Azanha, Galvão, De Cillo e Furlan. Santa Bárbara se tornou uma das maiores produtoras de açúcar do país, o que lhe rendeu o título de Pérola Açucareira.

Anos mais tarde, a Usina Santa Bárbara é vendida ao Grupo Pedro Ometto, de Piracicaba (1968) e, após a fusão com a Usina Costa Pinto, deu origem ao Grupo Cosan (1987). A Usina Santa Bárbara paralisou suas atividades em 1995.

Atualmente o prédio é patrimônio histórico da cidade e um de seus principais cartões postais, além de abrigar diversos eventos culturais como o Via Crúcis. A Usina Furlan foi a última usina a encerrar as atividades no município, em 2018.

IGREJA BATISTA E CEMITÉRIO DO CAMPO

A perseguição política contra os confederados após o fim da Guerra da Secessão (1861-1865) culminou no maior êxodo populacional da história dos EUA. Naquele ano, o coronel William H. Norris encontrou em Santa Bárbara o lugar ideal para se estabelecer com sua família. Seu êxito no cultivo de algodão resultou na vinda de centenas de famílias norte-americanas a partir de 1866.

Foto: Arquivo / O Liberal
Igreja Batista e Cemitério do Campo

Os novos imigrantes trouxeram consigo diversas novidades, dentre elas a fé protestante. Em Santa Bárbara construíram a primeira Igreja Batista do país, em 1870, nas dependências do Cemitério do Campo, também conhecido como Cemitério dos Americanos.

O espaço foi criado em 1869 pelo Cel. Asa Thompson Oliver após ser impedido de enterrar sua esposa no cemitério municipal (por divergências religiosas). A mesma situação foi vivida por outras famílias protestantes, que passaram a enterrar seus mortos o Cemitério do Campo. Cerca de 500 pessoas foram sepultadas ali.

O local é mantido pela FDA (Fraternidade Descendência Americana) e é um dos cartões-postais da cidade. A entidade realiza, todos os anos, a Festa dos Confederados, com danças e comidas típicas. A arrecadação do evento é utilizada na manutenção do local.

INDÚSTRIAS ROMI

Os investimentos no cultivo de cana-de-açúcar e algodão trouxeram uma nova necessidade a Santa Bárbara: a manutenção e reposição dos instrumentos agrícolas, o que favoreceu o surgimento de dezenas de oficinas em Santa Bárbara. Dentre elas, destaca-se a Garagem Santa Bárbara, fundada por Américo Emílio Romi, em 1930.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Indústrias Romi

Onze anos mais tarde, Emílio lançou o primeiro torno industrial fabricado no país e mudou os rumos de sua empresa. Em 1944, foi construída a matriz das Indústrias Romi, na Rua Pérola Bigyton. Ali nasceram o primeiro trator (Toro, 1944) e o primeiro carro (Romi-Isetta, 1956) construídos no Brasil.

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A empresa de Emílio se tornou uma das grandes exportadoras de peças e ferramentas para setores variados como o automobilístico, energia, infraestrutura e bens de consumo em geral, com 13 unidades fabris (11 no Brasil e 2 na Alemanha).

ESTAÇÃO CULTURAL

O prédio que dá lugar à Estação Cultural, na Av. Tiradentes, foi a segunda estação férrea construída em solo barbarense, em 1917 (a primeira estação foi inaugurada em 1875, em terras que hoje pertencem a Americana). A ideia de uma segunda estação era completar o ramal férreo entre Nova Odessa e Piracicaba (1922), que facilitaria o transporte de carga e passageiros entre as cidades.

Foto: CEDOC / Fundação Romi
Estação Cultural

A estação de trem funcionou até 1977 para passageiros e até 1995 para trens de carga – devido ao fechamento da Usina Santa Bárbara. A rodoviária funcionou no local de 1988 até 1999. Em 2007, a Fundação Romi assumiu o local e inaugurou a Estação Cultural, sob cessão de uso junto a Rede Ferroviária Federal S/A.

No local acontecem o projeto Ninho Musical (que visa a formação de músico de orquestra), projeto Capoeira Socioeducativa, Estação Artesanal (feira de arte, cultura e gastronomia) e oficinas culturais, além de um Memorial da Ferrovia aberto ao público para visitação gratuita.

MUSEU DA IMIGRAÇÃO

O prédio foi construído pelo governo estadual, em 1896, para abrigar a primeira Câmara e a cadeia. A Câmara funcionou por ali até 1915 ficando apenas a cadeia, até meados dos anos 70, quando foi desativa.

Foto: CEDOC / Fundação Romi
Museu da Imigração

“Há muito era desejado um museu na cidade e, quando o prédio foi desocupado, viu-se a oportunidade. Na década de 80 ele foi reformado e, em 30 de janeiro de 1988, foi inaugurada o Museu da Imigração”, conta Angolini. O acervo é constituído em grande parte por fotos e objetos dos imigrantes norte-americanos e também fotografias dos primeiros imigrantes italianos, alemães e outros.

BIBLIOTECA MUNICIPAL (antigo prédio)

O prédio foi construído em 1940 e funcionou como prefeitura até o final da década de 70. A criação de uma biblioteca foi uma iniciativa do Lions Club. A primeira biblioteca municipal foi inaugurada na década de 70, no prédio que abrigava a Câmara, entre as ruas Graça Martins e Santa Bárbara.

Foto: CEDOC / Fundação Romi
Biblioteca, antigo prédio

Somente no final da década de 80 o serviço passaria ao prédio na Rua João Lino. Em janeiro deste ano, a Biblioteca Municipal “Maria Aparecida de Almeida Nogueira” foi transferida para uma nova instalação (e mais moderna), ao lado do Terminal Urbano.

ESCOLA CENTENÁRIA

A Escola Estadual José Gabriel de Oliveira pertence a um seleto grupo de 12 escolas centenárias do interior de São Paulo. A primeira reforma no ensino ocorrida em 1902 foi um marco importante no processo de modernização e urbanização do país.

Foto: Arquivo / O Liberal
Escola Estadual José Gabriel de Oliveira

Antes dela, a educação brasileira propagava-se pelas chamadas escolas isoladas, existentes na área de grandes fazendas. Santa Bárbara possuía seis escolas do gênero onde lecionavam professores de Campinas.

Com a reforma, foi inaugurada a primeira escola oficial do município, em 1913, sob o título de 1º Grupo Escolar de Santa Bárbara, com oito salas de 1º a 4º ano, divididas por gênero. O prédio seria batizado novamente em 1938 com o nome de José Gabriel de Oliveira, ex-prefeito e inspetor da escola.