Unicamp estuda a substituição do exame de Papanicolau

Troca do Papanicolau pelo teste do HPV é testada em Indaiatuba, e ainda não há previsão para cidades da Região do Polo Têxtil


A Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) realiza um estudo para aprimorar a forma como o vírus do HPV, causador do câncer do colo do útero, é detectado. Na nova proposta, o vírus será identificado antes mesmo da ocorrência de uma lesão significativa. Essa detecção será feita por meio do teste de HPV, que poderá substituir o exame de Papanicolau – este, detecta a doença apenas após o surgimento de lesões no colo. A rapidez no diagnóstico também vai agilizar o início do tratamento.

Foto: DIvulgação_UniCAMP
Equipamento, único no Estado de São Paulo, usado pelo Caism para processar o teste do HPV

A universidade substituiu, em caráter de pesquisa, o Papanicolau pelo teste de HPV na rede pública da cidade de Indaiatuba. O estudo no município teve início no ano passado, com previsão de durar cinco anos. Ao final desse período será possível avaliar o custo e os avanços representados pelo teste na detecção e prevenção da doença. Esses dados serão informados aos demais municípios, que avaliarão a viabilidade da mudança.

As prefeituras da RPT (Região do Polo Têxtil) foram procuradas, mas até o momento não há previsão de fazer a substituição do Papanicolaou pelo teste de HPV. Em Americana, Hortolândia e Nova Odessa foram realizados quase 32 mil exames de Papanicolau desde o início do ano, segundo as prefeituras. Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré não responderam.

A pesquisa da Unicamp faz parte do Programa de Rastreamento do Câncer de Colo de Útero, batizado como Preventivo, uma iniciativa pioneira no país encabeçada pelo Caism (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher).

Um dos gargalos na oferta do teste de Papanicolau é o excesso de uso por algumas mulheres, que o realizam com maior frequência do que seria necessário. Além disso, dois terços dos testes de Papanicolau do SUS (Sistema Único de Saúde) acontecem fora da idade recomendada (abaixo dos 25 anos), onde a incidência desse câncer é rara. Apenas 15% a 30% das mulheres entre 25 e 64 anos realizam o Papanicolau.

Com a mudança do exame, a coleta – que ocorre a cada três anos – poderá ser feita a cada cinco anos nos casos de resultado negativo para esse vírus. Se o teste for positivo, serão solicitados exames complementares.

O trabalho é coordenado pelo diretor da Faculdade de Ciências Médicas, Luiz Carlos Zeferino, e pelo diretor da Divisão de Oncologia do Hospital da Mulher – Caism, Júlio César Teixeira. Este explicou que com o teste de HPV é possível identificar o vírus e iniciar o tratamento antes mesmo do surgimento das primeiras lesões.

“Após um teste positivo, há uma sequência de novos testes ou segmento diferenciado para definir se ela já tem uma lesão ou se pode desenvolver. Um teste negativo é próximo de 100% de segurança de que ela não tem e não terá uma lesão pré-câncer significativa ou de maior risco para os próximos cinco anos”, apontou o coordenador.

Foto: Divulgação/Unicamp
Teste do HPV, diz Júlio César Teixeira, é mais eficiente

Exame é mais rápido e detecta diferentes tipos

O exame de HPV possibilita um diagnóstico mais rápido e preciso, identificando inclusive os diferentes tipos do vírus. A coleta é feita, assim como no Papanicolau, por meio da coleta de material no colo uterino. Contudo, ao invés de ir para a lâmina, o material será acrescentado a um líquido capaz de disponibilizar DNA para detectar diferentes tipos de HPV no colo do útero. Hoje, o teste do HPV é processado de modo automatizado no Caism no equipamento Cobas 480, único no Estado de São Paulo.

Enquanto o Papanicolau leva pelo menos dois meses para ser devolvido à paciente com o resultado, o teste de HPV é entregue entre sete e 14 dias após a coleta.

Segundo o diretor da Divisão de Oncologia do Hospital da Mulher – Caism, Júlio César Teixeira, pesquisas indicam que o teste de HPV é mais eficaz do que o de Papanicolau. No Brasil, é feito em clínicas privadas.

“O Papanicolau foi importante até aqui, para detectar as células sugestivas de lesão pré-câncer”, disse Teixeira. Como essas lesões demoram a se desenvolver, uma possível falha do Papanicolau acaba sendo corrigida com a repetição do exame. A citologia é coletada duas vezes por ano e depois a cada três anos na rede pública. No teste de HPV, a falha é menor porque o exame é processado por máquinas e tem como alvo a detecção de DNA viral.

A Unicamp ainda não fez contato com outros municípios para a implantação do teste, já que o custo inicial ainda é um empecilho para os municípios. Contudo, a estimativa é que como os testes poderão ser realizados a cada cinco anos, e não a cada três, como é o Papanicolau, torne-se um investimento viável.

Na rede pública, cada exame de Papanicolau custa R$ 6,97. Segundo a Unicamp, não é possível levantar, com base nos testes na rede privada, quanto custaria cada teste de HPV no sistema público.

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