Tratamento de pacientes com Aids tem evolução

Especialista que acompanhou o primeiro caso de Aids no Brasil, em 1982, define avanço no tratamento como uma evolução 'monumental'


Era 1982. Após vagar por vários hospitais sem diagnóstico, um paciente já debilitado chega ao Serviço de Moléstias Infecciosas do Departamento de Clínica Médica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Tinha insuficiência respiratória, candidíase oral e emagrecimento severo, que levaram à morte.

O médico e infectologista Francisco Hideo Aoki, então residente de Moléstias Infecciosas e Parasitárias, hoje denominada de Infectologia, acompanhou de perto a história do homem que depois veio a ser diagnosticado como o primeiro brasileiro vítima da Aids.

Mais de três décadas se passaram, a Aids continua fazendo vítimas, mas muita coisa mudou desde então. Coordenador do Laboratório de Pesquisas em Aids (LPAids) da Unicamp, Aoki destaca que a evolução do conhecimento em torno do HIV, vírus causador da Aids, tem sido “monumental”.

A tecnologia derrubou o custo do diagnóstico e do tratamento, garantindo vida aos pacientes infectados. Segundo ele, ainda estamos longe da cura, mas o diagnóstico deixou de ser sentença de morte. A doença perdeu o status de letal e passou a ser crônica. Hoje é possível conviver bem com o HIV, mas levar uma vida normal exige comprometimento.

A qualidade de vida dos pacientes passa pelo acompanhamento médico, exames periódicos e fidelidade ao tratamento. O diagnóstico precoce também é ressaltado pelo infectologista. Sem saber ser portadora do HIV, a pessoa fica vulnerável a infecções e retrocede aos primórdios da doença.

Segundo Francisco Aoki, um terço dos potenciais infectados não sabe que é portador do vírus. O médico também chama a atenção para a prevenção e destaca que os avanços no tratamento não devem ser motivos de descuido. Mesmo com todos os avanços, é importante lembrar que Aids pode ser evitada.

O senhor já estava na Unicamp quando ela recebeu o primeiro paciente brasileiro com Aids, em 1982, e a doença ainda era desconhecida. O que o senhor lembra dessa época?

Francisco Hideo Aoki Sim, estava no primeiro ano como residente de Moléstias Infecciosas e Parasitárias, hoje denominada de Infectologia, e naquela época, em 1982, o paciente recebido vagava por alguns hospitais em tratamento de quadro de pneumonia que começou a se agravar, razão pela qual chegou ao Serviço de Moléstias Infecciosas do Departamento de Clínica Médica da Unicamp. Tinha insuficiência respiratória, candidíase oral, consumo do estado geral com emagrecimento severo, falecendo já com a hipótese aventada pelos professores da época, de Aids – síndrome da imunodeficiência adquirida.

Foto: Antoninho Perri - Unicamp.JPG
Coordenador do Laboratório de Pesquisa em Aids da Unicamp, Aoki acompanhou o primeiro caso da doença no Brasil

O que mudou desde então no campo do diagnóstico?
A evolução do conhecimento a respeito do HIV/Aids tem sido monumental, mudando inclusive muitas certezas incertas que haviam com relação à imunologia e virologia gerais, que obtiveram grande avanço, incluindo a própria descoberta do HIV1 em 1983 e em 1986, a descoberta do HIV2. A partir daí a tecnologia para detecção do diagnóstico de triagem e exames confirmatórios evoluíram muito, derrubando os preços, que eram milhares, para poucos reais de custo.

E no tratamento?
O tratamento também evoluiu muito com a descoberta das drogas antirretrovirais que agem em pontos específicos de algumas enzimas importantes para manter o HIV vivo e com a criação pelo Ministério da Saúde de um sistema de prevenção, diagnóstico, rede de laboratórios e ambulatórios no sentido de prover assistência adequada e humanitária de alto padrão para esses pacientes.

Ainda estamos longe da cura?
Sim, mas o controle da doença hoje é garantido com o uso de TARV (tratamento antirretroviral), que é um conjunto de drogas antirretrovirais em associação que inibem a multiplicação viral, permitindo a reconstituição imunológica dos pacientes. Isso tem permitido que pacientes reduzam ou quase zerem as infecções oportunistas que antes os levavam, concedendo a eles uma qualidade de vida muito melhor, praticamente normal, no convívio de familiares, no trabalho e em outras atividades próprias do ser humano.

Então é mesmo possível a um paciente com Aids ter uma vida normal?
Sim. Vida normal, mas com os devidos cuidados de seguir adequadamente as orientações médicas, realizações de exames periódicos e tomada de medicamentos, preferencialmente com adesão total ao tratamento antirretroviral.

A Aids deixou de ser considerada doença letal e vem sendo classificada como crônica. É correta essa afirmação?
Sim, pois o tratamento permite uma sobrevida praticamente igual a uma pessoa não infectada pelo HIV.

O fato de não estar mais associada à morte faz as pessoas relaxarem nos cuidados preventivos?
Com certeza esse deve ser um dos fatores, por saber que se trata de uma doença não curável, porém com manutenção da vida durante longo tempo desde que a adesão ao acompanhamento clínico bem como ao tratamento seja feita de maneira adequada. Mas a negligência à necessidade de utilização de práticas seguras de sexo, o desleixo e muitas vezes a falta de informação também são fatores importantes que levam as pessoas a relaxarem nos cuidados.

Se é uma doença que pode ser evitada, na opinião do senhor por que ainda há tantos casos de contágio?
Falta de cuidado, mas deve-se atentar para o fato de que muita gente não realiza o diagnóstico precoce, o que faz com que cheguem como se estivessem na era sem antirretrovirais, nos primórdios da epidemia de Aids. Cerca de um terço ainda dos potenciais infectados não sabem que o são, não têm reconhecida e nem diagnosticada essa situação.

Qual a maior dificuldade enfrentada por eles? Os medicamentos são garantia de qualidade de vida ou precisam de algo a mais?
Acolhimento familiar, dos serviços de saúde, por parte dos profissionais, responsabilidades individuais em tomar adequadamente os antirretrovirais, fazer acompanhamento médico periódico, enfim, com tudo isso o paciente pode evitar infecções oportunistas, neoplasias, e ter vida normal, apenas tomando os remédios de acordo com as recomendações.

Qual o trabalho desenvolvido no LPAids?
O LPAids faz assistência, realizando exames para a macrorregião estendida de Campinas, como testes de triagem para o HIV, exames confirmatórios, quantificação de carga viral do HIV, quantificação de linfócitos TCD4+, entre outros exames. Como fruto de assistência desenvolve pesquisas de cunho clínico e epidemiológico.

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