Papa Francisco aceita renúncia de Dom Vilson

Dom Vilson sofria pressão de fiéis para deixar o posto em Limeira desde que começou a ser investigado pela polícia


O bispo da Diocese de Limeira, dom Vilson Dias de Oliveira, renunciou ao cargo. A decisão ocorre em meio a investigações sobre extorsão, enriquecimento ilícito e acobertamento de abusos em Americana e Araras.

A renúncia foi aceita pelo Papa Francisco e divulgada na manhã desta sexta-feira (17) pelo Vaticano. Para o lugar de dom Vilson, foi nomeado Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida. Ele será um administrador da diocese.

Dom Vilson, que ficou no cargo por quase 12 anos, publicou uma carta ressaltando que vem enfrentando “todo tipo de cruzes, por meio de ataques à nossa Igreja Particular de Limeira, a mim e a vários presbíteros” nos últimos meses. Na manifestação, ele não cita a investigação policial.

“Reconheço minhas limitações, mas também levo no coração todo amor que aqui recebi do bom Povo de Deus presente nos 16 municípios que compreendem esta Igreja Particular de Limeira. Com imensa gratidão, digo-lhes que sempre fui muito bem acolhido e aceito pelo povo desta importante Diocese de Limeira. Hoje me despeço de vocês como Bispo Diocesano e peço minha renúncia por amor à Igreja de Cristo e pelo bem desta Diocese para que os trabalhos pastorais possam continuar crescendo e se fortalecendo com a doação incansável de cada um de vocês que se dedicam ao Reino de Deus”, escreveu.

Nesta quinta-feira (16), a Diocese de Limeira tinha agendado um posicionamento para falar com a imprensa nesta sexta-feira, às 9h, na catedral Nossa Senhora das Dores, em Limeira. A igreja comentaria as denúncias contra o bispo e já existia a expectativa é de que o assunto fosse a saída do bispo.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
O bispo Dom Vilson Dias de Oliveira, responsável pelas paróquias católicas de 16 cidades que integram a Diocese de Limeira

Dom Vilson sofria pressão de fiéis para deixar o posto. No último sábado, cerca de 150 pessoas protestaram pela saída do comando da igreja em frente à Basílica de Santo Antônio.

Na quarta-feira, rumores de uma suposta renúncia do bispo movimentaram os bastidores do clero. A Diocese de Limeira, porém, não confirmou a informação na ocasião. Procurado pelo LIBERAL por telefone, Dom Vilson respondeu em mensagem de WhatsApp que não tinha “nada a declarar”.

Foto: Rodrigo Alonso / O Liberal
Cerca de 150 fiéis protestaram em frente à Basílica de Santo Antônio pela saída do bispo Dom Vilson

INVESTIGAÇÕES

Dom Vilson é investigado pela Polícia Civil de Limeira por supostamente extorquir padres subordinados a ele. O religioso comanda a Igreja Católica em 16 cidades, inclusive Americana.

Em abril, o LIBERAL revelou que o bispo admitiu à polícia ter recebido R$ 4 mil de uma paróquia de Artur Nogueira para uso pessoal. O sacerdote assinou até um recibo. O valor, em cheque, foi repassado em outubro de 2015.

Em depoimento no dia 1º de abril, Vilson disse à polícia que passava por problemas financeiros e por isso recebeu a “doação” da paróquia Nossa Senhora das Dores, subordinada a ele.

À polícia, o padre Edson Adélio Tagliaferro, responsável pela paróquia, afirmou em depoimento no dia 22 de março que Dom Vilson disse que precisava do dinheiro para construir um poço artesiano em sua casa de praia em Itanhaém – em seu depoimento, Vilson não explica para que usou o dinheiro.

Tagliaferro disse à polícia que o bispo não fez uma exigência, e sim um pedido. O padre então levou o assunto ao Conselho Administrativo e Econômico da paróquia, composto por fiéis, e se posicionou contra a doação.

O grupo também não queria dar o dinheiro, diz o padre. Porém, segundo Tagliaferro, todos do Conselho chegaram à conclusão de que, se os R$ 4 mil fossem negados, poderia haver retaliações e perseguições.

Em depoimento, Vilson disse que nunca exigiu dinheiro de nenhum sacerdote, mas admitiu ter recebido o valor. “Na verdade, foi uma doação para me ajudar”, disse o bispo.

No mesmo depoimento, o chefe da Igreja Católica na região afirmou que ganha R$ 12 mil de salário como bispo (não esclareceu se já recebia isso em 2015). Vilson também disse que não tem qualquer despesa particular, pois mora em uma casa da Diocese, que é quem banca seus custos.

O inquérito que tramitava em Limeira já foi relatado. O caso tramita em segredo de justiça.

O relatório final da polícia acabou restrito a um fato: uma doação, em 2015, de R$ 4 mil de uma paróquia de Artur Nogueira ao bispo, algo que o próprio Vilson admitiu. O dinheiro foi repassado para uso pessoal do religioso, que alegou que estava em apuros financeiros.

O relato do padre Ângelo Rossi, que antecedeu Pedro Leandro Ricardo em Americana, não foi citado no relatório. Ângelo contou que Vilson lhe exigiu R$ 50 mil em 2012, e que o dinheiro foi negado.

O padre depôs em Americana, mas o depoimento dele e de outras pessoas que confirmaram que ouviram Rossi relatar o pedido foram enviados a Limeira – é que a solicitação de Vilson teria ocorrido lá.

Dom Vilson nega ter feito qualquer exigência. O inquérito deve ser analisado por uma promotora de Limeira, que decide se denuncia ou não o bispo.

ACOBERTAMENTO

Além disso, a polícia também apura se o bispo acobertou supostos casos de abuso sexual que teriam sido praticados pelo padre Pedro Leandro Ricardo, que foi reitor da Basílica de Americana e está atualmente afastado do cargo.

A investigação policial foi aberta em janeiro pela Delegacia Seccional de Americana, por requisição do Ministério Público. O órgão recebeu uma denúncia anônima que relata episódios de desvio de dinheiro, extorsão e assédio sexual na igreja.

Foto: Marcelo Rocha/O Liberal (4-6-2015)
O bispo da Diocese de Limeira, Dom Vilson, e o padre Leandro Ricardo durante festa de Santo Antônio em Americana

Na ocasião, Dom Vilson negou ao LIBERAL que sairia por conta das denúncias e da investigação. Em paralelo à investigação policial, o Vaticano encomendou sua própria apuração sobre Vilson e Leandro.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora