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Combate à Covid-19

Na linha de frente, profissionais de saúde vivem desafios e fazem apelo à população

LIBERAL ouviu quem atua em unidades de Americana, Santa Bárbara e Nova Odessa durante a disparada de casos do coronavírus

Por Marina Zanaki

05 jul 2020 às 08:53

Encarar longas jornadas de 36 horas de trabalho, lidar com a sobrecarga no sistema de saúde e fazer escolhas difíceis de quem terá acesso a recursos como respirador. Essa tem sido a rotina da médica infectologista Mary Luz Cruz, que trabalha na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Covid-19 do Hospital Santa Bárbara.

A cidade foi a primeira na região a apresentar relatos de colapso no sistema e pacientes com coronavírus aguardando durante dias por uma vaga de UTI. A médica ressalvou que a situação não é recente no sistema público de saúde, mas que a pandemia apenas tornou-a mais evidente.

A médica infectologista Mary Luz Cruz, que trabalha na Santa Casa; pandemia tornou situações mais evidentes – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

“Na Itália talvez tenha acontecido agora, mas para a gente sempre foi assim, não é por conta da pandemia. Trabalhei bastante em pronto-socorro, quando tinha três pacientes para irem para UTI e uma vaga só, tinha que priorizar o que tinha mais possibilidade de evoluir. Não é de agora que está acontecendo, é do sistema. Mas agora é que fica mais evidente”, contou.

A médica lembrou que o hospital de campanha foi ativado para atendimento de casos moderados, e a expectativa da prefeitura é utilizar o espaço de enfermaria do Hospital Santa Bárbara para implantar mais leitos intensivos caso seja necessário.

Atualmente, são 25 leitos, tanto para coronavírus quanto para atendimentos gerais. No início do ano, eram oito leitos intensivos. O município foi questionado pela reportagem, mas não informou se mais UTIs serão implantadas.

“Não adianta termos 20, 30, 40 leitos de UTI se o número de pacientes aumenta numa velocidade espantosa, assustadora”, alertou a médica.

Mary fez um apelo para que a população tenha consciência da gravidade da doença. “Não adianta todo o sistema fazer força, nos arriscarmos, colocarmos em risco a saúde de nossas famílias para cuidar desses doentes se a própria população não toma consciência da gravidade”, afirmou.

“Se por um momento cada um de nós se imaginar deixando uma pessoa que ama num hospital com grande chance de nunca mais voltar a vê-la, nem mesmo no enterro, aí talvez poderia se conscientizar um pouco”, alertou a médica.

A Prefeitura de Santa Bárbara destacou que a atual gestão atuou, primeiramente, na atenção básica, inaugurando oito nas unidades de saúde e, na sequência, chegando às especialidades, urgência, emergência e alta complexidade.

INCERTEZA
Todas as manhãs, o médico Fabiano Gênova acorda com uma pergunta. “Será que é hoje que vou ter sintomas, febre, dor de garganta? Todo dia a gente vive essa incerteza”, contou.

O profissional trabalha na emergência do pronto-socorro do Hospital Municipal de Americana e encara que o contato com o vírus é inevitável.

Médico Fabiano Gênova diz que contato com o vírus é inevitável e preocupação é constante – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

“Todo dia tenho contato com paciente com sintomas e todo dia acordo pensando que aquele pode ser o dia que vou estar contaminado. E se eu estiver, a pergunta que surge em seguida é: vou ser acometido pela forma grave?”, contou Fabiano, que tem 39 anos, nenhuma comorbidade, mas viu na prática as complicações do novo coronavírus.

O HM chegou a ter 100% dos leitos de enfermaria para coronavírus ocupados no final de junho. Contudo, apesar da sobrecarga, até o momento o hospital conseguiu oferecer suporte a todos os pacientes moderados e graves.

“Não tivemos situação que tivesse que escolher qual paciente seria intubado, como já vimos relatos. Graças a Deus conseguimos fornecer, mas muitos pacientes pela gravidade da situação e a presença de comorbidades, não resistiram”, disse o médico.

PREOCUPAÇÕES
“Quem está ali doente é o amor de alguém, pode não ser o meu e nem o seu, mas é o amor de alguém. Causa uma certa revolta e tristeza [ver aglomerações], porque são vidas. Só vai dar valor quando acontecer com alguém que ama”.

O depoimento é da coordenadora da fisioterapia de Nova Odessa, Patricia Fassina, que lamenta que muitas pessoas não levem a sério a pandemia do novo coronavírus.

A coordenadora de fisioterapia Patricia Fassina, paramentada para atendimentos – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

Mesmo ficando machucada com o uso prolongado de máscaras em jornadas de seis ou doze horas, não abre mão da paramentação pelo medo de levar o vírus para dentro de casa.

“Tirar a paramentação é assim: para tomar água, mas quase não toma; para ir ao banheiro, tenta ir muito pouco; e para comer. Porque cada vez que desparamenta é um risco para contaminação. Muitas vezes nem dá tempo, é muito intensa a rotina”, contou a profissional.

A fisioterapeuta é responsável por ajustar a respiração mecânica e acompanhar a terapia respiratória. Ela contou que a piora do quadro ocorre de maneira repentina.

“Precisa dar conta muitas vezes de quatro, cinco, seis pacientes ao mesmo tempo. Isso desgasta”, disse.

DESAFIO
Coordenadora da Unidade Respiratória e do setor de enfermagem de Nova Odessa, Luciana Roberta de Oliveira contou que tem sido difícil emocionalmente para as equipes isolar os pacientes contaminados ou suspeitos dos familiares.

“O mais difícil tem sido restringir o contato da família com o doente, ver muitos partirem sem a despedida, sem a oportunidade de dizer algo. Isso tem sido muito tenso para as equipes”, contou.

Ela disse que tem ficado assustada com as complicações em pacientes jovens, entre 30 e 50 anos. “Mesmo quando acaba o expediente, a minha preocupação continua, com a minha família que está exposta”, afirmou a enfermeira.

CAPACIDADE
A Unidade Respiratória de Nova Odessa está preparada para atendimento de pacientes leves a moderados, e a procura disparou em junho. Segundo balanço da prefeitura, houve aumento de 96% nos atendimentos nas últimas três semanas.

Quem precisa de cuidados intensivos é inserido na Cross (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde), para ser transferido a hospitais referência em outras cidades.

Até o momento, as transferências têm levado menos de 24h. Contudo, tanto Patrícia quanto Luciana temem que em algum momento não seja possível absorver os pacientes. No Hospital das Clínicas da Unicamp, por exemplo, 100% dos leitos de UTI estão ocupados.

“A preocupação é que todos os lugares estão ficando lotados e vai chegar uma hora que provavelmente não se consiga absorver pacientes, e cada cidade vai ter que cuidar dos seus”, disse a fisioterapeuta.

Luciana teme que o número de doentes aumente muito nas próximas semanas e não haja estrutura para atendimento para todos os pacientes.

“Aqui na cidade tem sido feito muito pela saúde, tem a visão de investir, se preparar ao máximo. Mas pode chegar situação que a gente não dê conta, que o sistema não suporte”, alertou a coordenadora da enfermagem.

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Por quais razões a recomendação de manter o isolamento social permanece como a maneira mais difundida no combate ao novo coronavírus, mesmo com mais de 100 dias de quarentena e com a retomada da produção econômica em curso?