Mosquito ‘do bem’ reduz incidência de casos de dengue em cidades da região

Enquanto Americana vive nova epidemia, projeto em Piracicaba e Indaiatuba usa animal modificado para combater doença


Em meio à epidemia nacional de dengue, alguns locais se destacam pela baixa incidência da doença. Bairros de Indaiatuba e Piracicaba que receberam a tecnologia do Aedes do Bem nos últimos anos registram poucas confirmações, e as prefeituras creditam issso ao mosquito biologicamente modificado.

Foto: Divulgação
Mosquitos biologicamente modificados soltos no meio ambiente são machos – e, portanto, não picam – e procuram as fêmeas selvagens para acasalar

Primeira cidade da região a receber a tecnologia, em 2015, Piracicaba registra desde o início do ano 796 casos de dengue. Nos dois bairros que receberam o projeto de forma pioneira – Cecap e Eldorado – foram registrados, respectivamente, dois e três. Na temporada 2014/2015, foram 133 casos nestes bairros, onde vivem 5 mil pessoas.

Na região central, 11 bairros receberam o Aedes do Bem, segundo o coordenador do Programa Municipal de Combate ao Aedes de, Sebastião Amaral Campos. Apesar de alguns bairros dessa região registrarem bons números, com apenas um caso confirmado, há outros com mais positivos, como Alto (52), São Dimas (32) e Centro (21).

Campos acredita que o fato de alguns bairros registrarem mais casos está relacionado ao fato de que os últimos mosquitos Aedes do Bem foram soltos nessa região em junho do ano passado, enquanto na região do Cecap e Eldorado, o programa segue soltando mosquitos.

“O projeto é excelente, tecnicamente muito bom, e consideramos uma ferramenta muito importante no controle do mosquito. Tanto que começamos num bairro pequeno e levamos para a região central, região mais importante do município, com mais de 60 mil habitantes. A ideia nossa, se possível, é fazer o município todo”, indicou o coordenador.

Indaiatuba tem 55 casos confirmados da doença. Nova Odessa, com um quarto da população de Indaiatuba, tem 124.

Os quatro bairros com maior incidência de dengue em Indaiatuba recebem, desde maio de 2018, a pesquisa da segunda geração de Aedes do Bem. São eles Morada do Sol, Cecap, Moacir Arruda e Jardim Itamaracá. A prefeitura daquele município foi questionada sobre quantos casos foram registrados nesses quatro bairros, mas não informou.

No momento, a pesquisa está em período de monitoramento da espécie e avaliação da linhagem que ficou. “Ainda não temos os dados fechados da pesquisa, mas o resultado está evidente. Comparando Indaiatuba com as cidades da região estamos com poucos casos confirmados”, disse a secretária de Saúde, Graziela Garcia, por meio da assessoria de imprensa.

Ela destacou que há inúmeras ações contra dengue sendo realizadas na cidade. “No entanto, o trabalho mais importante em relação ao controle da dengue é o projeto desenvolvido pela Oxitec, o Aedes do Bem”, avaliou.

O trabalho em Indaiatuba foi feito com parceria e não representou custos ao município. A Prefeitura de Piracicaba e a Oxitec, que desenvolveu a tecnologia, não responderam sobre os investimentos.

Tecnologia entra na 2ª geração

A tecnologia do Aedes do Bem, desenvolvida pela empresa Oxitec, entra na segunda geração com aprimoramentos. Contudo, para que seja ampliado a outras regiões do país, depende de parcerias e financiamentos.

Os mosquitos biologicamente modificados soltos no meio ambiente são machos – e, portanto, não picam – e procuram as fêmeas selvagens para acasalar. Seus descendentes herdam os genes adicionais do Aedes do Bem e morrem antes de chegar à fase adulta. Essa característica é chamada autolimitante.

A Oxitec incorporou uma mudança nessa segunda geração. As fêmeas filhas de Aedes do Bem morrem, como normalmente já ocorria, mas os machos sobrevivem – metade deles carrega o gene modificado autolimitante, e a outra metade carrega genes naturais de suscetibilidade a inseticidas para a população. A frequência do gene autolimitante vai diminuindo a cada geração subsequente, até que estes machos não persistam mais no ambiente.

“Temos parcerias com as cidades de Indaiatuba e Itupeva, e estamos discutindo um novo projeto com o município de Piracicaba”, explicou a diretora geral da Oxitec, Natalia Verza Ferreira.

“Estamos também buscando uma parceria com o Ministério da Saúde para que esta tecnologia possa ser avaliada para integração ao conjunto de ferramentas adotadas pelo Programa Nacional de Controle da Dengue do Ministério da Saúde”, disse.

O ministério classificou a tecnologia como promissora, mas ressalvou que tem alto custo e é importada. “É necessário realizar estudos mais robustos de efetividade e de custo-benefício quanto à indicação e forma de uso”, explicou.

As prefeituras de Americana, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré informaram que no momento não há nenhuma iniciativa de aderir ao Aedes do Bem.

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