‘Justiça não foi feita’, diz irmão de ciclista morto em acidente

Técnico de informática Hyoran Gabriel Alves de Oliveira foi condenado a quatros anos e três meses de prisão em regime inicial semiaberto


Após o fim do julgamento de Hyoran Gabriel Alves de Oliveira, condenado a quatros anos e três meses de prisão em regime inicial semiaberto pela morte dos ciclistas Diogo de Faria e Márcio José Bechis, na Rodovia dos Bandeirantes (SP-348), em 2017, os irmãos de uma das vítimas se disseram decepcionados com a sentença e fizeram críticas a atuação da promotora.

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O policial militar reformado Marcos Antonio Bechis, 55, acompanhou o júri nesta quinta ao lado da irmã Sueli Aparecida Bechis, 60. Eles são irmãos do ciclista Márcio José Bechis

“Sem argumento, foi fraquíssima. Já vi pessoas que foram condenadas por furto qualificado com sentença muito mais pesada do que essa de hoje, mas é a Justiça brasileira. O advogado de defesa fez o jogo dele”, disse Marcos.

Durante o júri, o advogado de Hyoran afirmou que a esposa de Márcio perdoou o técnico de informática pelo acidente. A fala gerou desconforto nos irmãos presentes.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Sueli e Marcos Bechis acompanharam o julgamento e se disseram indignados com a sentença

“Perdoar a gente perdoa. Sabe por quê? Pra fazer bem pra gente. Perdoado ele está, mas a Justiça infelizmente não foi feita”, ressaltou Marcos.

Já a esposa de Diogo, a empresária Maythe Santini, preferiu não ir ao julgamento. Ao ser informada pela reportagem sobre a sentença, ela se disse “perplexa” com o resultado.

“Pena extremamente branda diante do crime cometido. Duas vidas interrompidas sem direito à defesa, famílias dilaceradas, filhos órfãos, mulheres viúvas, sonhos e planos tolhidos. Tudo isso é irreparável. Esperava que vidas valessem muito mais”, afirmou Maythe.

Foto: Divulgação / Facebook
Diogo de Faria e Marcio Bechis foram atropelados por Hyoran Gabriel Alves de Oliveira

Na época do acidente, o filho do casal tinha apenas 14 dias de vida, fruto de uma gravidez planejada. A tragédia transformou Maythe em viúva, mãe solteira e empresária da noite para o dia.

“Vivemos num País de inversão de valores, de impunidade, de reincidentes atos destrutivos. Porém, creio que a Justiça do homem pode falhar, mas existe a Justiça de Deus. E espero que por parte do réu, haja um arrependimento genuíno na presença do Senhor, para que sobre ele não pese a condenação”, disse a empresária.

O acidente

O acidente ocorreu na manhã do dia 16 de julho de 2017, no km 146 da Rodovia dos Bandeirantes, trecho que passa por Limeira. Alcoolizado e sem habilitação, Hyoran dirigia o carro que atingiu as bicicletas de Diogo, morador de Americana de 38 anos, e Márcio, de Nova Odessa, que tinha 47 anos. Eles pedalavam juntos pela primeira vez.

Morador de Itu, o técnico em informática tinha vindo para a casa de um amigo de Americana na noite anterior. Os dois foram para uma balada e ele bebeu, segundo relato dele mesmo. Depois dormiu por cerca de quatro horas na casa do amigo. Quando acordou, pegou a Rodovia dos Bandeirantes.

Foto: Lucas Claro / rapidonoar.com.br
Bêbado e sem habilitação, Hyoran dirigia o carro que atingiu as bicicletas de Márcio José Bechis e Diogo Cia de Faria

Ele alega ter se perdido e por isso foi parar no trecho da rodovia em Limeira. Ainda em juízo, Hyoran declarou que teve um apagão e não se lembra do acidente.

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Durante o júri popular nesta quinta-feira, o técnico em informática voltou a dizer que não se recorda do atropelamento. Segundo Hyoran, sua primeira lembrança era ter passado pelo pedágio e acordado na ambulância, sem saber o que tinha ocorrido.

O júri

Hyoran foi condenado a quatros anos e três meses de prisão em regime inicial semiaberto nesta quinta-feira (31). O técnico de informática de 21 anos foi julgado no Fórum de Limeira. Ele poderá recorrer em liberdade da pena, da qual será descontado 1 ano e 9 meses já cumprido, e está proibido de retirar uma CNH (Carteira Nacional de Habilitação) por dois anos.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Hyoran saiu do Fórum de Limeira pela porta da frente, mas não quis dar entrevista

Ele era acusado de homicídio com dolo eventual, quando uma pessoa assume o risco de cometer um crime, apesar de não desejar.

Entretanto, o corpo de jurados, composto por sete mulheres, aceitou a tese do Ministério Público e desclassificou o crime de homicídio doloso para a modalidade culposa, sem intenção, o que reduziu a pena máxima a que ele poderia ser condenado.

Segundo o advogado de defesa, Mauro Atui Neto, a desclassificação de dolo eventual é aplicável pelo fato de seu cliente não ter tido a intenção de matar. Ao invés do homicídio doloso, o defensor apresentou a tese de culpa consciente, com base no artigo 302 do CTB.

O advogado disse que apresentará recurso, na modalidade embargos de declaração, para que seu cliente cumpra a pena em regime aberto quando o processo transitar em julgado. Após a sentença, Hyoran deixou o fórum pela porta da frente, acompanhando de familiares e amigos. Nenhum deles quis gravar entrevista.

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