Igreja ignorou pedidos da polícia para que relatório fosse enviado

Inquérito policial foi concluído sem que investigação do Vaticano pudesse fazer parte do procedimento


A Polícia Civil de Limeira tentou ter acesso ao relatório de investigação da Igreja Católica sobre dom Vilson Dias de Oliveira, mas os pedidos foram ignorados pela embaixada do Vaticano no Brasil. Bispo de Limeira e comandante da igreja em 16 cidades, Vilson é investigado desde janeiro pela polícia local por supostamente extorquir padres subordinados a ele em alguns destes municípios. O inquérito policial foi concluído anteontem sem o resultado da investigação católica.

Foto: Arquivo - O Liberal
Dom Vilson disse que seu salário é de R$ 12 mil e recebe de R$ 300 a R$ 500 em eventos

Além da investigação policial em Limeira, em Piracicaba a polícia apura se o bispo teria acobertado abusos sexuais atribuídos ao padre americanense Pedro Leandro Ricardo, que nega os atos.

Em paralelo à investigação policial, o Vaticano encomendou sua própria apuração sobre Vilson e Leandro.

Diversos depoimentos foram colhidos em fevereiro pelo bispo de Lorena, Dom João Inácio Müller, designado para conduzir a apuração. O delegado Otávio Ferreira Balbão Júnior, responsável pelo inquérito do bispo na esfera policial, queria ver o resultado da investigação da igreja, para eventualmente instruir seu procedimento.

Ele primeiro pediu o relatório por e-mail a dom João, que informou que o pedido teria de ser direcionado à Nunciatura Apostólica, embaixada do Vaticano no Brasil.

O delegado então enviou quatro pedidos por e-mail à Nunciatura, entre os dias 14 e 22 de março. O máximo que obteve foi uma confirmação de recebimento, no dia 21 de março.

O delegado Otávio Balbão não estava trabalhando nesta sexta-feira por problemas de saúde, segundo informado na Delegacia Seccional. O delegado seccional, Antônio Luiz Tuckumantel, afirmou que desconhecia os detalhes do caso e só sabia que o inquérito já havia sido concluído e enviado à Justiça.

A reportagem enviou um e-mail para a Nunciatura na tarde de ontem perguntando por que o relatório da igreja não foi enviado, mas não obteve resposta. O e-mail do LIBERAL foi recebido.

R$ 4 MIL. O relatório final da polícia acabou restrito a um fato: a doação, em 2015, de R$ 4 mil de uma paróquia de Artur Nogueira ao bispo, algo que o próprio Vilson admitiu. O dinheiro foi repassado para uso pessoal do religioso, que alegou que estava em apuros financeiros.

O relato do padre Ângelo Rossi, que antecedeu Pedro Leandro Ricardo em Americana, não foi citado no relatório. Rossi contou que Vilson lhe exigiu R$ 50 mil em 2012, e que o dinheiro foi negado.

O padre depôs em Americana, mas o depoimento dele e de outras pessoas que confirmaram que ouviram Rossi relatar o pedido foram enviados a Limeira – é que a solicitação de Vilson teria ocorrido lá.

Dom Vilson nega ter feito qualquer exigência. O inquérito agora será analisado por uma promotora de Limeira, que decide quais elementos vai analisar e se denuncia ou não o bispo.

Bispo recebe de R$ 300 até R$ 500 por evento

Dom Vilson Dias de Oliveira contou à Polícia Civil de Limeira, no dia 1º de abril, que recebe entre R$ 300 e R$ 500 para celebrar eventos em paróquias que integram a Diocese. O pagamento tem o nome de “espórtula”, segundo explicou Vilson ao delegado Otávio Ferreira Balbão Jr. Além disso, ele disse que recebe um salário de R$ 12 mil.

O bispo às vezes participa de eventos como batizados e mutirões de confissões, por exemplo, em igrejas subordinadas à Diocese de Limeira. Vilson deu esta informação à polícia enquanto falava sobre seu patrimônio, que saltou de R$ 80,5 mil para R$ 386,4 mil em dez anos, conforme revelou O LIBERAL ontem. Esta evolução patrimonial também não é citada no relatório final da polícia. Ele fala que o patrimônio é oriundo de família, embora não existam heranças em suas declarações.

 

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