Historiador destaca heterogeneidade de imigrantes

Obra da Unicamp aborda a chegada dos norte-americanos a Santa Bárbara d’Oeste; 49 deles compraram escravos na cidade


Grupo heterogêneo, interessado em terras, e não necessariamente vinculados à Guerra da Secessão e à Confederação. Essas são algumas das conclusões apresentadas pelo historiador e antropólogo Alcides Fernando Gussi em seu livro “Os Norte-Americanos (Confederados) do Brasil – Identidades no Contexto Transacional”.

A obra trata sobre os imigrantes norte-americanos que seguiram para Santa Bárbara d’Oeste no século 19. Publicado pelo Centro de Memória da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) em 1997, o livro também aborda a relação dos descendentes com suas raízes e símbolos.

Foto: Arquivo / O Liberal
Bandeira usada na Festa dos Confederados, em Santa Bárbara d’Oeste, transformou-se em polêmica

Nos últimos dois anos, a tradicional Festa Confederada, que integra o calendário oficial de eventos de Santa Bárbara, tem sido alvo de manifestantes contrários ao uso da bandeira confederada. O principal argumento é de que ela foi símbolo dos escravagistas dos EUA e representava uma “economia baseada em escravidão”.

Após concluir seu estudo antropológico sobre os descendentes norte-americanos em Santa Bárbara, Gussi apontou que o grupo de imigrantes que veio para a região era heterogêneo. Cerca de 500 famílias se estabeleceram em Santa Bárbara entre os anos de 1866 e 1868.

“Haviam pessoas que estavam desgostosas com a guerra, pessoas que tinham perdido escravos, mas também aventureiros que queriam reconstruir a sua vida em algum lugar. Chegaram aqui para tentar viver daquilo que eles tinham de trabalho na agricultura”, explicou Gussi.

Durante sua pesquisa, o historiador cita que estão listados no cartório de Santa Bárbara que 49 norte-americanos compraram escravos entre os anos de 1866 e 1880, em um total de 66 escravos. Não é possível determinar, no entanto, se todos foram comprados por sulistas, já que a região recebeu ianques e confederados, fazendeiros, profissionais liberais e “gente comum”, segundo Gussi. A utilização de mão de obra escrava em Santa Bárbara é descrita como “bastante reduzida”.

Na obra, o autor cita que, além das dificuldades econômicas, há informações na literatura de que a não-adaptação dos americanos tem relação com “um novo contexto de relações raciais, menos demarcadas aqui para indicar posições sociais do que no Sul dos Estados Unidos”.

BANDEIRA

Sobre a bandeira confederada, Gussi disse ao LIBERAL que, na época da imigração, sua utilização estava relacionada com a “preservação da memória e identidade”.

“As ideias quando são transplantadas de lugar, elas mudam. Aqui você vai ter um significado simbólico próprio para a bandeira. Na época, o que eu escutei é que os descendentes retomam simbolicamente a bandeira como uma forma de preservar sua memória, sua identidade. Não tem uma conotação política, ideológica que sustentaria, no meu ponto de vista, uma conotação racista ou de defesa da escravidão”, opinou.

Sim x Não

A pedido do LIBERAL, o presidente da Fraternidade Descendência Americana, João Leopoldo Padovezes, e a presidente da Unegro (União dos Negros e Negras Pela Igualdade) em Americana, Cláudia Monteiro, responderam quatro perguntas sobre o tema.

Foto: Arquivo / O Liberal
João Leopoldo Padoveze, presidente da Fraternidade Descendência Americana

1. Você acredita que é possível desassociar a bandeira confederada em Santa Bárbara d’Oeste de todo o contexto da Guerra Civil norte-americana? Os imigrantes deixaram o país em direção ao Brasil por conta das imposições econômicas, o que inclui a proibição da escravidão?

João Leopoldo Padoveze: Errado. Dom Pedro II tinha planos de expansão econômica para o Brasil e por isso fez um convite aos norte-americanos para que viessem ao país e escolhessem a melhor área para a produção agrícola. Estes imigrantes compraram terras se utilizando das facilidades para o financiamento que lhes foram oferecidas. Chegaram na região e foram responsáveis pelo desenvolvimento de dois municípios: Santa Bárbara d’Oeste e Americana, assim como importantes realizações em toda a região. Quanto à Guerra da Secessão, estudá-la é importante para compreender os motivos pelos quais os imigrantes quiseram sair dos EUA e começar uma nova vida no Brasil. Reduzir todo o contexto desta guerra para um tema é uma irresponsabilidade.

Claudia Monteiro: Não é possível dissociar a Bandeira Confederada da Guerra Civil estadunidense, pois a guerra foi travada por um fator preponderante – a manutenção do escravismo por partes dos estados sulistas. Os Estados confederados defendiam a manutenção da mão de obra negra escravizada, pois consideravam que os negros naturalmente tinham condições de suportar o calor e os trabalhos pesados. Aos brancos estava vedado o trabalho no sol escaldante, conforme relatado no Manifesto ‘’Abaixo a Bandeira Confederada’’.

Foto: Arquivo / O Liberal
Claudia Monteiro, presidente da União dos Negros e Negras Pela Igualdade em Americana

2. Com exceção da Festa Confederada e de alguns grupos de memória, geralmente a bandeira ressurge no noticiário relacionada a extremistas, como a Ku Klux Klan, ou nas manifestações vistas em Charlottesville. Como vocês lidam com um tema desse tipo?

João Leopoldo Padoveze: Da mesma forma que qualquer pessoa de bom senso: com repulsa! Focamos nossos trabalhos nas questões histórica a cultural, não alimentamos temas deste tipo. Os EUA têm leis severas e punem rigorosamente atos violentos. Esta organização que você citou se apossou de uma bandeira que não os representa. Mas também vejo como um desserviço da mídia mostrar apenas as ações violentas de um grupo específico e não mostrar as centenas de milhares de manifestações positivas que acontecem todos os dias dos descendentes dos confederados.

Claudia Monteiro: A bandeira confederada foi apropriada pelos supremacistas brancos, pois está ligada com a origem histórica da simbologia representada pelo regime escravagista nos EUA, sobretudo no Sul dos EUA. A simbologia da bandeira está carregada de ódio desde os tempos mais remotos do escravismo nos EUA, no qual os negros foram submetidos a situação degradante e desumanizante. Assim como a suástica nazista que também foi apoderada pela ascensão do nazismo e provocou um dos maiores genocídios da história da humanidade.

3. A Festa Confederada envolve uma série de tradições que buscam manter viva a memória dos confederados. Você acredita que a bandeira é fundamental para a festa ou existe algum cenário em que seria possível não utilizá-la?

João Leopoldo Padoveze: A Festa Confederada começou como uma reunião de famílias e se tornou a grande festa que conhecemos hoje. A bandeira não é o principal, realmente, mas ela representa parte da nossa origem. O principal elemento da festa são seus participantes.

Claudia Monteiro: Não somos contrários à celebração da festa e também dos descendentes estadunidenses de rememorar seus ancestrais. Partimos do princípio que os imigrantes sulistas foram recebidos de maneira fraterna pelo governo brasileiro. Sendo assim, consideramos ser necessário respeitar os povos aqui constituídos que trazem na sua história um legado de dor e de sofrimento de mais de 300 anos de escravismo. Ademais por que não usar a Bandeira dos EUA para celebrar a memória dos seus antepassados (FDA)? Em respeito a esse país que ainda convive com uma problemática racial.

4. Esse foi o segundo ano que houve manifestação contra a bandeira. Como estão os relacionamentos?

João Leopoldo Padoveze: Chegamos a convidá-los (Unegro) para a festa do ano passado para participar com apresentações, mas nos foi negado. Particularmente não entendi o motivo de ela ter se repetido já que no ano passado, em conversa com um de seus representantes, tínhamos chegado a um consenso de que poderíamos trabalhar juntos em vários aspectos históricos e culturais na cidade. Mas não aconteceu. A Festa Confederada completou 31 edições e nunca antes tivemos desentendimentos com quem quer que seja. Isso só aconteceu nestes últimos dois anos. Respeito a manifestação, mas fico entristecido pela falta de disponibilidade do diálogo.

Claudia Monteiro: Não houve avanço na tentativa de diálogo com a FDA. Em 2017 fomos pelo diálogo, organizamos um seminário com quatro encontros e convidamos os integrantes da FDA para um debate acerca do uso da bandeira. Os mesmos não abrem mão do uso da Bandeira Confederada, mesmo com os argumentos por parte do Movimento Negro, sobretudo pela carga de dor trazida pela bandeira confederada.

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