Fique em casa por eles

Como famílias e profissionais da saúde têm convivido com uma rotina inédita, que impõe uma difícil, mas necessária, atitude: ficar em casa


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Com a ajuda do filho Rogério, a dona de casa Ivanilde mantém agora uma rotina caseira para se prevenir do novo coronavírus

Aos 81 anos, a dona de casa Ivanilde Bertolucci Martins, de Americana, tem energias de sobra. Faz ginástica três vezes por semana, caminhadas pelas ruas do bairro Cidade Jardim, vai ao mercado e se orgulha do fato de cuidar da casa sozinha.

Entretanto, de uma semana para outra, boa parte de sua rotina teve de ser suprimida. A ameaça de contaminação pelo novo coronavírus (Covid-19) fez com que ela se fechasse em casa. As idas ao mercado ficaram por conta do filho Rogério Carlos Ferreira Martins, de 57 anos. Já a rotina de exercícios se tornou estritamente caseira.

“A gente tenta fazer em casa, mas não é a mesma coisa. Lá a gente faz em grupo, se incentiva mais, aproveita mais. Fazer o que, né? Quando não dá mais, não dá”, conta a dona de casa.

Ivanilde decidiu intensificar os cuidados na semana passada, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou pandemia o surto do novo coronavírus.

Até então, a possibilidade do vírus parecia algo distante de sua realidade, só que a mudança de cenário serviu de alerta. A reclusão começou e os cuidados foram reforçados.

“O Rogério foi no mercado ontem e está cheio de pessoas de idade. Pra quê? Estão cansados de ouvir que não devem sair. Por que vai? Acham que não vai acontecer nada?”, questiona Ivanilde.

A postura de Ivanilde é um pedido de especialistas e autoridades de saúde em meio à pandemia do coronavírus no planeta.

Em países como Argentina e Espanha, por exemplo, jornais chegaram a fazer campanha para que as pessoas ficassem em casa, uma forma de evitar que o contágio se espalhe, faça vítimas e sobrecarregue o sistema de saúde.

Na Itália, o descumprimento das sugestões à população de permanecer isolada é apontado como uma das falhas que levaram o país a ser onde mais se registraram mortes até agora (leia relatos de americanenses na Itália na página 11).

A situação coloca, por outro lado, profissionais de saúde na linha de frente do combate ao vírus.

Médico que atua no setor de emergências do Hospital Municipal Dr. Waldemar Tebaldi, em Americana, Fabiano Gênova decidiu não ver os pais idosos até a situação do coronavírus se tranquilizar. A medida, que para muitos pode soar drástica, para ele faz parte de uma rotina de cuidados com a família diante da pandemia.

Tirar jaleco e sapatos antes de entrar em casa, ir diretamente ao banho e até mesmo evitar contato com os filhos também entraram na lista de cuidados.

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O médico do Hospital Municipal de Americana, Fabiano Gênova, que resolveu se afastar dos pais idosos

Ao LIBERAL, o médico contou que nos prontos-socorros os ânimos estão se exaltando e que já presenciou situações de pacientes desrespeitando profissionais de saúde, querendo atendimento ágil justamente por acreditar que estão com quadro que inspira cuidados por conta do coronavírus. Ele explicou que há prioridade para pessoas idosas e grupos de risco.

“É preciso respeitar o profissional de saúde. Ele está ali com toda sua experiência, sabedoria, para dar o melhor para quem for atendido, e está colocando a vida dele em risco para isso. Ele tem família, filhos, avós, e está ali de cara limpa para enfrentar a situação toda, não recuando, para cumprir o juramento que fez quando se formou”, defende Fabiano.

Gerente de uma UBS (Unidade Básica de Saúde) em Santa Bárbara d’Oeste, Carla Marin Bueno diz que a equipe está empenhada e comprometida, mas que é nítida a preocupação dos profissionais com família e amigos. Ela, por exemplo, abriu mão do contato físico com as filhas pequenas para protegê-las.

“Chego em casa e o maior conforto de todos os dias que é abraçá-las e beijá-las, não posso mais, e isso tem sido um grande desafio. Estamos todos em casa seguindo rigorosamente as normas de higienização e isolamento social. Minhas filhas não saem de casa para nada. Meu pai tem 84 anos e estou me preparando para não encontrá-lo nos próximos dias”, relatou Carla ao LIBERAL.

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“Por mais que tenha receios, precauções e prevenções, nada vai mudar. Se a população precisar, temos que atender da melhor forma possível”, afirma Willian Scarazzatti

Instrutor de policiamento da Gama (Guarda Municipal de Americana), Willian Scarazzatti conta que as equipes seguem fazendo patrulhamento para garantir segurança à população. Ele diz ter observado, nos últimos dias, uma queda no movimento de pessoas nas ruas e aposta em uma diminuição na criminalidade.

Por outro lado, a população tem buscado informações diversas – inclusive sobre coronavírus – junto aos patrulheiros, já que são das poucas pessoas a estarem nas ruas. “Por mais que tenha receios, precauções e prevenções, nada vai mudar. Se a população precisar, temos que atender da melhor forma possível”, admitiu.

PRISÕES. O LIBERAL conversou com dois agentes de penitenciárias da região, que desabafaram uma grande preocupação com a situação. O motivo é que as prisões atuam sempre acima da capacidade, com aglomerações e sem estrutura suficiente para atendimento médico.

Nesta semana, presos fizeram rebeliões em unidades do regime semiaberto no interior do Estado após o anúncio de que as saídas estavam suspensas, por conta do coronavírus.

Os agentes ouvidos pela reportagem fizeram apelo para que as famílias dos detentos não fizessem visitas e cobraram uma decisão mais abrangente do Estado. Na noite de ontem, a Justiça proibiu visitas a todos os presos nos presídios após pedido do sindicato dos agentes.

CONCILIAÇÕES. O risco para a população da terceira idade fez com que a bancária Ana Sgobin, de 48 anos, se oferecesse para ir ao mercado fazer compras para os idosos do seu condomínio em Americana. Até o momento, três moradores aceitaram sua ajuda.

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A bancária Ana Sgobin ajuda idosos a fazer as compras em Americana

“O pessoal está bem com medo de sair de casa, principalmente por ser grupo de risco. Acredito que vai ter mais casos [de vizinhos pedindo ajuda] no final de semana porque vai lotar o supermercado, as lojas”, disse Ana.

A bancária também faz as compras para sua mãe, de 80 anos, que está com a saúde debilitada. O exemplo dentro de casa foi outro motivador.

“Eu tenho uma mãe doente, que não tem possibilidade de ir ao mercado. Na minha comunidade tem bastante idoso. Eu acabei identificando essa dificuldade. São grupos de riscos para esse vírus e tive a ideia me disponibilizar”, explicou Ana.

A urgência da situação também não passou despercebida por Roberta Rossi, de 28 anos, que decidiu cancelar a festa de 5 anos do filho Mateus, que aconteceria no próximo dia 25 em Americana. O menino estava ansioso pela celebração, o que fez com que a mãe falasse abertamente com ele sobre os riscos envolvidos.

“Sentamos, explicamos sobre o vírus que era muito perigoso, que esse momento a gente tinha que fazer de tudo para proteger quem amamos, principalmente a ‘bisa’ e o ‘biso’. Ele disse que entendeu, que não queria que acontecesse nada com ninguém, mas ele não conseguia esconder que estava triste em não poder mais comemorar com seus amiguinhos”, relatou Débora.

Depois do cancelamento da festa, ela entrou em sites e deixou o filho escolher presentes. “Para mãe que está organizando não é fácil, imagina para uma criança que está fechada em casa, longe dos amigos, e não pode fazer sua festinha, então não sei se agi certo, mas sei que eu fiz o melhor que eu podia pra ele”, afirmou.

Enquanto isso, a dona de casa Ivanilde, que segue à risca o isolamento, faz as contas e junta esperanças sobre a pandemia. Na próxima quinta-feira, dia 26, ela viajaria com as colegas de ginástica para Barra Bonita, cidade conhecida pelos ranchos à beira da represa, a 150 quilômetros de Americana.

A pandemia do coronavírus, porém, fez a viagem ser desmarcada. “Agora, marcou para agosto. Se Deus quiser, até lá deve estar resolvido”, espera Ivanilde.

Além da Capa, o podcast do LIBERAL

A edição de número #27 do podcast “Além da Capa” traz a experiência de ex-moradores de Americana que hoje vivem em países onde o novo coronavírus já se alastrou de maneira mais ampla, revelando um pouco mais sobre este problema em crescimento no Brasil. Ouça:

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