‘Escola não atende mais as expectativas do jovem’, afirma diretora de ensino

Dirigente Regional explica as mudanças propostas no Inova Educação, que na região vão afetar diretamente o cotidiano de cerca de 20 mil alunos


O ano letivo para os estudantes da rede estadual será diferente em 2020. Além da redistribuição dos recessos em quatro em vez de dois períodos, o número de aulas também vai mudar para que novas disciplinas sejam incluídas na grade escolar.

Atualmente são seis aulas de 50 minutos, mas a partir do ano que vem serão sete aulas com duração de 45 minutos, estendendo a jornada na escola por 15 minutos. Dentro dessa “aula extra” que será incluída, serão desenvolvidos o Projeto de Vida, as disciplinas eletivas e, também, a disciplina de Tecnologia. A mudança vai valer para alunos do 6° ano do fundamental até o 3° do ensino médio.

O projeto, chamado “Inova Educação”, foi lançado no início de maio pelo governador João Doria (PSDB) e pelo secretário de Estado da Educação, Rossieli Soares. A reportagem conversou com a Dirigente Regional de Ensino de Americana, Joseana Caltarossa Moreira. Ela prevê que 20 mil alunos da regional, que inclui Nova Odessa e Santa Bárbara d’Oeste, sejam incluídos no Inova Educação.

Foto: João Carlos Nascimento_O Liberal.JPG
Por que a gente fez diferença pra alguns e pra outros não Não tem como você não se sentir responsável”, diz Joseana

Como surgiu a ideia do Inova Educação?
Já há algum tempo se pensa em algo pra mudar a educação. O governo e todos nós da educação temos claro que não tem outro jeito de melhorar uma nação, a qualificação, o nível de emprego, e até o ser humano se não for pela educação. Mas a gente percebia que muitas medidas iam sendo tomadas e os resultados não vinham.

Esses resultados começaram a aparecer muito claramente nas escolas de jornada estendida. Começou a se perceber que existia uma diferença muito clara de rendimento, formação, resultados, o protagonismo do aluno. A secretaria começou a questionar o que era diferente, porque essas escolas conseguiam resultado bem mais fácil que outras. Começou a consultar e sempre as respostas eram as mesmas: professor fica nessa escola o dia todo, e há trabalhos voltados ao projeto de vida. Como você se vê, o que você quer pra você. Pode ser algo pra daqui 20 anos ou algo que quero pra mim todo o mês.

A escola mostrava dentro do projeto de vida quais são os caminhos para que aquela criança, aquele jovem conseguisse chegar o mais próximo possível de seu objetivo na idade escolar. Dentro desse projeto de vida outros desdobramentos aconteciam.

Uma aula se chama Projeto de Vida e a partir dela existe um espaço. No começo do ano ninguém sabe na verdade do que vai ser a aula. Quando os alunos fazem atividades iniciais com acolhimento e colocam ali todos os projetos de vida no varal dos sonhos, os professores têm contato com todos aqueles projetos de vida e desenvolvem as disciplinas eletivas. Se tenho vários alunos que querem cursar medicina veterinária, então faço uma eletiva envolvendo animais para que o aluno conheça aquilo. Tenho vários alunos que escolheram gastronomia, então faço oficinas voltadas a isso. Tudo isso para que no desenvolvimento daquelas eletivas o aluno consiga construir algo.

As disciplinas se chamam eletivas porque professores fazem mais, buscam mais atividades, e apresentam para os alunos e “vendem seu peixe”. Falam: venha pra minha eletiva, e o aluno dentro do seu projeto de vida vota qual eletiva ele quer participa. Quando você percebe que existe um objetivo – aluno vai pôr a mão na massa – aquilo faz com que seja muito diferente o processo no dia a dia. Se o aluno não consegue desenvolver porque tem uma dificuldade, ele busca sanar essa dificuldade, eles buscam fora dos muros da escola. É algo que faz com que aluno seja protagonista da busca do conhecimento.

Serão cinco novas aulas por semana, como será a distribuição?
Dessas, duas serão obrigatoriamente do Projeto de Vida, uma de Tecnologia – e vamos entender não só como só ir pro computador, mas de todas as formas novas de se resolver os problemas do cotidiano, busca do conhecimento, formas de inovações tecnológicas – e duas destinadas às eletivas.

Na região temos 16 escolas que já trabalham no sistema de ensino integral e quatro ETEs (Escolas Técnicas Estaduais) que são de tempo integral. Das nossas 80 escolas, 20 são de jornada estendida. Temos muita gente que trabalha nesse sistema e pode passar essa experiência para todas as outras escolas, então nós temos treinamento específico que está vindo aí, com grêmios estudantis para que eles próprios acolham os colegas. Todos os alunos não vamos conseguir, com os pequenos é meio difícil falar de projeto de vida, mas do 6° em diante vai. Eles já estão na escola onde muitos vão até a terceira série do ensino médio, para que já vejam objetivos diferentes dentro da educação, que eles tenham ali uma forma de também serem protagonistas do próprio conhecimento, escolhendo as eletivas, os projetos de vida e a aula de tecnologia.

Esses cinco minutos reduzidos em cada aula farão diferença?
O que a gente imagina não é uma fala institucionalizada do governo, mas já conversamos em nível de diretoria, o professor tem um tempo da aula pra ele entrar, fazer chamada, anotações de diário, e com informatização e secretaria escolar digital, todo esse processo passa a ser informatizado. É uma ideia do secretário já colocar isso também agora, já tem um teste algumas coisas, acredita que até 2020 todo mundo consiga fazer, é um tempo que vai ser otimizado. E sempre a orientação ao professor, de otimizar o tempo, fazer com que seja melhor utilizado através das tecnologias, para que esses cinco minutos não façam diferença no conteúdo.

O que será abordado na disciplina de Tecnologia?
Os professores vão receber treinamento. Vamos começar toda a parte de orientação, eles não precisam ter formação em ciência da computação pra dar aula de Tecnologia, são professores que podem trabalhar desde que tenha aquele vínculo.

Teremos formação da própria secretaria e para cada um desses novos componentes os professores terão um tempo de pelo menos 30 horas de curso para que entendam bem o que é. Até o final desse ano vamos ter o credenciamento dos professores. Vamos receber os detalhes dos passos desse credenciamento e os professores que conseguirem terão direito de ministrar essas aulas. Na atribuição, que a secretaria pretende fazer em dezembro, ele já vai ter uma carga horária, não poderá pegar tudo de componentes novas, porque tem que ter as matérias para qual é inscrito.

A tecnologia pretende trabalhar com os alunos quatro elementos: pensamento computacional, cidadania digital, cultura digital e uso de diferentes mídias e tecnologias. Hoje um exemplo claríssimo que trabalharia seria fake news e cyberbullying.

Como foi a aceitação dos professores?
Para os professores estamos na fase da divulgação à gestão. Temos reunião para esboçar como será a matriz 2020, mas a aceitação vem sendo muito boa. Além da possibilidade nova, porque tudo professor tem a veia de curiosidade, se motivar pelo novo. Lógico que não são todos que vão querer, mas aceitação no geral vem sendo muito positiva dos profissionais que a gente conversa. Porque além de tudo para o professor vai facilitar um pouco os horários de aula. Hoje ele pode pegar até 32 aulas, e os períodos de manhã e tarde tinha 30. Para pegar a jornada completa você precisa, necessariamente, dar algumas aulas no período diverso, e fica preso por causa disso. Da forma como está sendo feito, ele vai continuar com as 32 aulas, os cinco minutos diminuem, mas o número de aulas continua o mesmo. O período vai ter 35 e os professores vão conseguir colocar as 32 aulas num único período.

Dentro do universo de professores na rede, se prevê necessidade de contratar?
Para isso não, até porque como são aulas da matriz a grande maioria das aulas vai ficar com quem já está trabalhando. Pode ter um impacto, por exemplo: sempre peguei 32 da minha matéria, agora quero 28 da minha e quatro dessas, e aí a hora que vai somando tudo isso acaba precisando de outro professor.

Não temos na nossa região uma área de ensino que não tenho professor, tenho bastante gente cadastrada pra contratação, mas não temos falta de professores, temos profissionais para as áreas, e contratações não são mais limitadas pela Secretaria da Educação. Mas não tem como falar por causa disso vamos chamar tantos professores a mais, isso não tem como precisar.

Qual sua expectativa em relação a essa novidade?
Algo precisa mudar. A escola que temos hoje já não atende mais as expectativas do jovem do século 21. A secretaria fez uma pesquisa de escuta à rede no dia 30 de abril. Nesse dia os questionários vieram perguntando várias coisas para o jovem, o que ele gosta, exemplos bons, como gostaria que a escola fosse. E tudo que veio dentro do Inova Educação vem tranquilamente de encontro àquilo que tanto os meninos quanto os professores pediram: trabalho com tecnologias, o aluno quer escolher.

Vejo como uma ação arrojada, porque mudar toda uma rede assim, de uma hora pra outra… Vamos colocar tudo isso, e é muita gente envolvida. Mexe com muita gente, e tem impacto de todos os lados, impacto financeiro, trabalho todo que será feito pra acomodar isso, suprir, seja de material, de pessoas. Mas algo precisa mudar, a escola precisa estar mais próxima dos anseios do jovem que está lá.

Não tem como fazer parte da educação sem acreditar que só por ela melhora. Você fazendo parte você se sente responsável. Você fala: esse pai e essa mãe já passaram por mim, o que eu fiz por ele? Onde foi que eu falhei?

Todo mundo, desde o mais humilde aos seres na faixa dos 30, 40 anos que vemos na nossa região; da mais humilde até as mais bem-sucedidas, todas passaram pela escola. Por que a gente fez diferença pra alguns e pra outros não? Não tem como você não se sentir responsável.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora