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Economia

Consumo de carne bovina diminui em meio às incertezas econômicas

Crescimento da demanda de fora e alta no preço colaboraram para que o brasileiro passasse a comer menos cortes bovinos

Por Heitor Carvalho

01 fev 2021 às 14:32 • Última atualização 01 fev 2021 às 16:04

A junção entre oferta interna baixa, demanda externa alta, crise econômica e câmbio desvalorizado criou o cenário ideal para a queda no consumo de carne pelo brasileiro.

De acordo com o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), o valor das carnes em geral subiu 17,97%, enquanto a inflação como um todo registrou alta de 4,52%.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a picanha (17,01%), o contrafilé (12,71%) e a alcatra (5,39%) ficaram mais caros em 2020. A exceção é o filé-mignon, que ficou 6,28% mais barato no ano passado.

Em cortes menos valorizados, como costela, acém e cupim, a alta de preço foi ainda maior, passando dos 20%, o que afeta justamente a população mais pobre.

Segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento, consumo de carne caiu 5% em 2020 – Foto: Ernesto Rodrigues / O Liberal

Em açougues de Americana ouvidos pelo LIBERAL, o preço médio do quilo de carnes consideradas nobres chega a passar dos R$ 70, como é o caso da picanha. O filé-mignon chegou aos R$ 55, enquanto o contrafilé e a alcatra passam dos R$ 42.

Tempestade perfeita

O consumo de carne bovina per capita no País recuou 5% em 2020, após já ter caído 9% em 2019, segundo estimativas da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Segundo Marcos Cavichioli, diretor do departamento de supermercados na Acia (Associação Comercial e Industrial de Americana), vários fatores, combinados, foram os responsáveis por essse cenário.

“Foi uma tempestade perfeita. Tem a China com uma demanda muito forte e, por outro lado, não há oferta do produto. Esse aumento de preços é por conta das exportações. E o câmbio depreciado ajudou ainda mais nesse processo”, afirmou.

De acordo com Cavichioli, a cadeia de produção de proteína animal é complexa. “Os suínos e os frangos têm grandes produtores, o que é chamado de ‘cadeia longa’. Isso não acontece com o mercado de bovinos, que é muito mais pulverizado”, explicou.

Como são pequenos, os vários produtores de carne bovina ficam ao mercê do mercado. Eles compram o bezerro para engordar até o abate, o que pode levar até cinco anos.

“O bezerro está muito caro, o que deixa o produtor com medo. Antigamente você comprava três bezerros com um boi gordo, ultimamente você compra dois, daqui a pouco vai ser 1,5 bezerro”, afirma.

O valor do boi gordo é utilizado como um parâmetro sobre as oscilações de preços dessa commodity. Ele equivale a 330 arrobas líquidas e o seu valor, é baseado no preço do boi macho, castrado e pronto para o abate.

No ano passado, de acordo com dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”), a arroba do boi gordo fechou em R$ 267,15, valor 29% maior do que o registrado no final de 2019.

Causas

Segundo pesquisador Thiago Bernardino de Carvalho, do Cepea, a crise hídrica registrada em 2014 causou uma queda na oferta de bovinos por conta da diminuição dos pastos.

Por conta disso, os preços começaram a subir em 2015, o que fez com que os pecuaristas se animassem para produzir mais bezerros e abastecer o que parecia ser um mercado aquecido.

“Mas então vem a crise do impeachment em 2016, o desemprego sobe e o preço do boi começa a cair em 2017 e 2018, o que estimula o abate de fêmeas em 2018 e 2019″, explica.

O grande número de abates ocorrido nesse período causou um colapso da oferta brasileira de carne, o que causou a falta de gado em 2020. Isso, aliado com uma demanda internacional crescente, causou o aumento dos preços nos patamares atuais.

“Apenas China e Hong Kong, que apesar de serem o mesmo país compram carne separadamente, respondem por cerca de 60% das exportações de carne brasileira. E o dólar valorizado tornou nossa carne ainda mais atraente para esses mercados”, afirma.

Mas também há uma questão cultural. “O brasileiro tem preferência pela carne bovina no país, principalmente na região sudeste. Você não encontra boutique de carnes de frango, por exemplo. Por isso o valor aumenta”, diz.

2021

Para esse ano, o cenário de carne mais cara, além de câmbio depreciado e da forte demanda externa deve se manter.

A restrição de oferta do produto, no entanto, deve permanecer até meados de março, por conta da falta de chuvas, mas deve melhorar em meados de 2021 e, principalmente, em 2022.

“No primeiro quadrimestre, até abril ou meados de maio, ainda teremos reflexo do pagamento de impostos e dos gastos de final de ano. Isso, somado ao fim do auxílio emergencial, deve ainda trazer um impacto econômico negativo”, conclui Thiago.

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