Chuva deixa rastro de destruição, e afetados tentam retomar rotina

Moradores relatam medo com alagamentos depois do temporal de sexta-feira na região, lamentam os prejuízos e cobram mais atenção do poder público


Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Moradores do Jd. São Domingos, em Sumaré, trabalharam na limpeza de residências afetadas

Quarenta minutos. Esse foi o tempo que levou para a Rua Carioba, em Americana, ser tomada pelas águas do Ribeirão Quilombo no final da noite da última sexta-feira. O comerciante Sérgio de Campos Junior, que mantém uma loja e mora no local, viu a água começando a invadir a Avenida Bandeirantes quando chegava em casa. Passava um pouco das dez horas da noite. Era o início do que estava por vir. Acostumado ao drama – ele cresceu no local – tratou de avisar outros comerciantes da via. Foi o que os livrou de prejuízos maiores. Mas mesmo assim o estrago foi grande. A água subiu 45 centímetros e nem todos tiveram tempo de retirar ou salvar mercadorias. Um drama já vivenciado em verões anteriores, mas nem por isso menos traumático.

Bastou uma ronda ontem de manhã pelos pontos de alagamento em Americana e Sumaré para ver o rastro deixado pelas águas poluídas do ribeirão que corta as duas cidades e faz vítimas quando chove muito e ele não consegue dar vazão na mesma proporção. Entre lágrimas e muito trabalho, as pessoas afetadas aproveitaram a segunda-feira de tempo firme para tentar salvar o que restou e contabilizar prejuízos. Quem vivenciou o drama pela primeira vez ainda tentava entender o que havia acontecido, enquanto outros – já acostumados – custavam a aceitar o motivo do fato ainda se repetir toda vez que chove forte.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Residências no Jd. São Domingos, em Sumaré, foram invadidas pela água; móveis e outros pertences acabaram perdidos

DESABAFO. “Todo mundo sabe que no verão chove e se chover forte alaga aqui. Mesmo assim ninguém faz nada para ajudar a gente”, desabafou o comerciante Altair Urban Junior, há 33 anos proprietário de uma loja de móveis na Rua Carlos Gomes, quase esquina com a Rua Carioba. Ele estima seu prejuízo entre R$ 80 mil e R$ 100 mil e mostra num dos pilares da loja, as marcas deixadas por alagamentos anteriores. “Não é possível que isso ainda aconteça”. Quase 15 km dali, no Jardim Primavera, em Sumaré, a cabeleireira Analia Ozana dos Anjos compartilha o drama. Há 22 anos mora na mesma casa. A primeira enchente aconteceu quando estava há apenas três meses no local. Lembra de todas desde então e aponta para a janela da cozinha mostrando a altura alcançada pela água na enchente de 2015. “Chega prefeito, sai prefeito e nada. Continua do mesmo jeito”.

Há poucas ruas dali, no São Domingos, em Sumaré, a dona de casa Solange de Souza, 49 anos, compartilha da mesma opinião. Ela cresceu na casa que ontem estava praticamente vazia – exceto geladeira e televisão o resto foi perdido – e lamenta o drama vivido pela família ao longo de muitos verões. “Quando meu pai comprou essa casa, sem saber estava colocando a gente nesse enrosco. Ele e minha mãe morreram sem ver o fim disso tudo”.

Susto. Vinte pessoas – entre adultos e crianças – estavam no Lar da Mãe Esperança, localizado no Cordenonsi, em Americana, na noite de sexta-feira, quando a água começou a invadir o local. Ela chegou por meio do ralo e da bacia dos banheiros e rapidamente tomou conta do corredor onde ficam os dormitórios. Além deles – a água chegou na altura dos colchões – o escritório também foi alagado e a instituição perdeu três computadores. Coube à uma das moradoras mais antigas do local, Maria do Perpétuo Socorro Nunes dos Santos, tranquilizar as demais. “Todas ficaram bem assustadas”. valéria barreira

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Escritório também foi alagado e a instituição perdeu três computadores

Fuga. Raquel Sulen Crispin Domingos mora com o marido, dois cunhados e a filha Rebeca, de apenas sete meses, em uma casa de três cômodos na Rua Diogo de Faria, no Cordenonsi, em Americana. Ela percebeu a água entrando no quintal, mas não imaginou que invadiria a casa. Ela está há apenas duas semanas no local e quando se deu conta, não foi mais possível sair pelo portão. A água já passava da sua cintura. O jeito foi sair pelos fundos e fugir do alagamento pulando o muro do vizinho. A família perdeu colchões, o berço da bebê e roupas. Questionada se vão sair do lugar, disse que não. “É o que a gente consegue pagar”.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Moradora percebeu a água entrando no quintal, mas não imaginou que invadiria a casa

Desespero. Ao voltar para casa na sexta-feira à noite após um dia de trabalho, a operadora de caixa Adriana da Silva Oliveira ficou desesperada com o que viu. A água havia invadido a sua casa, na Rua Diogo de Faria, no Cordenonsi, em Americana. “Meu marido estava em choque”. Adriana foi impedida de entrar pela Defesa Civil e passou a noite na casa de parentes. Há seis meses a família aluga o imóvel e desconhecia os alagamentos que ocorrem no local. Perdeu móveis, roupas e alimentos. Ontem, Adriana tentava secar os documentos molhados. Emocionada, disse que não quer ficar mais ali. “Não quero passar por isso de novo”.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Operadora de caixa Adriana da Silva Oliveira ficou desesperada com o que viu

Socorro. A aposentada Luzia de Fátima Souza, de 60 anos, estava sozinha em casa, no Jardim São Domingos, em Sumaré, quando a água começou a invadir o imóvel. Assim que percebeu ligou para os irmãos. Ela tem problemas de saúde e foi levada para a residência de um parente. Só deu tempo de retirar a televisão e de pegar o medicamento de uso contínuo que estava na cozinha. A marca nas paredes indica que a água chegou a quase um metro de altura na localidade. Ontem à tarde, ela lamentava a situação enquanto a irmã limpava o imóvel. Os móveis e mantimentos foram todos perdidos pela família, que estava desconsolada.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Os móveis e mantimentos foram todos perdidos pela família, que estava desconsolada

Prejuízo. Quando começou a chover na sexta-feira à noite, o comerciante Altair Urban Junior já se preocupou com o que poderia acontecer. Criado na região da Rua Carioba, em Americana, tem um comércio no local e viu de casa, pela câmera, a água começar a chegar na sua loja. Correu para lá, mas não deu para evitar o prejuízo com a situação. O estoque de móveis novos ficou embaixo da água. Entre as peças usadas muitas foram perdidas e se acumulavam ontem, em frente ao estabelecimento. Ele e funcionários trabalhavam no final da manhã na limpeza e também no rescaldo do que sobrou para poder retomar o comércio na loja.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Quando começou a chover na sexta-feira à noite, o comerciante Altair Urban Junior já se preocupou com o que poderia acontecer.

Justiça. Edcarlos Nunes de Oliveira e a mulher Analia moram no Jardim Primavera, em Sumaré, e viram todos os móveis da pequena igreja na frente da casa serem perdidos no alagamento. Dentro da residência também não sobrou quase nada. Analia trabalha como cabeleireira e no cômodo usado para atender os clientes, por exemplo, só restou o espelho. Eles já passaram por isso antes e cansados de perder tudo, decidiram recorrer à Justiça contra a Prefeitura de Sumaré para pedir o ressarcimento do prejuízo. Até que saia uma decisão, vão recomeçar de novo. “Se a gente olhar para trás vai ver que há coisa pior. Aqui foi só perda material”, disseram.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Cansados de perder tudo, Edcarlos e Anália decidiram recorrer à Justiça contra a Prefeitura de Sumaré
LIBERAL VIRTUAL Acesse agora

Receba nossa newsletter!