Plano abrange mais de 50% da região

Até mesmo os recém-nascidos acabam sendo incluídos por famílias que não querem dor de cabeça em um momento delicado


Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Miriam diz que jovens estão se preocupando mais em fazer os planos
Basta estar vivo para se preocupar com a morte. Não é somente quando se aproxima o Dia de Finados, comemorado amanhã, ou quando se perde alguém da família que as pessoas pensam nesse assunto tão fúnebre e nada agradável de ser discutido. É o que revela a prática da maior parte da população dos municípios da RPT (Região do Polo Têxtil), que dedicou algum dia de sua vida a se preparar para o momento final e resolveu contratar ou se associar a um plano funerário.

Levantamento feito pela reportagem do LIBERAL com as funerárias das cidades apontou que a maior parte dos moradores de Americana, Hortolândia, Nova Odessa, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré está preparada, pelo menos financeiramente, para a hora da morte. Para os representantes das funerárias da região, esse número pode ser bem maior, tendo em vista que cada plano, em geral, abrange um número grande de familiares, com uma média de 10 pessoas.

“Hoje em dia os planos funerários abrangem quase todo mundo, desde o jovem até o mais idoso”, contou a secretária de uma funerária de Americana, Mirian Carla de Souza Assis. “Os jovens estão se preocupando mais em fazer plano porque não tem idade para a morte. A morte não escolhe idade”.

A violência e o maior acesso às informações, como acidentes e grandes tragédias, têm resultado em uma preocupação com a morte, especialmente entre os jovens. “Para quem tem plano, é normal. Nasce uma criança, os associados já vêm e incluem até um recém-nascido no plano funerário”, contou a secretária.

Além da precaução, a procura também está relacionada com o peso quase insignificante de um plano funerário no orçamento das famílias. Em média, o custo fica entre R$ 20 e R$ 30 por mês para o grupo de pessoas. Enquanto isso, pagar por um velório particular pode pesar no bolso de quem fica, já que custa entre R$ 1,5 mil e R$ 5 mil. Além disso, a família ainda pode ter que pagar por serviços à parte, como tratamentos de corpo, coroas e até mesmo os traslados.

“É uma quantia mensal que não faz diferença no orçamento e, quando faz particular, geralmente as pessoas não estão preparadas no momento”, analisou o agente de uma funerária de Hortolândia, Thiago Oviar.

Para atrair o interesse dos clientes, as funerárias também apostam nos benefícios para os vivos. Quem é associado tem desconto em consultas médicas, óticas e na locação de materiais hospitalares, como cadeiras de rodas e camas específicas para pacientes.

Mirian contou que, apesar de ser um assunto evitado por muitas pessoas, é necessário ter um pouco de frieza nas questões práticas que envolvem a morte de alguém. “Tem aquelas pessoas que são colocadas no plano e nem sabem porque são mais agourentas e acham que vão falecer só porque estão no plano funerário. Mas não tem nada a ver”, colocou.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Em média, planos funerários custam entre R$ 20 e R$ 30 por mês para as famílias da região
Classe média se prepara mais, diz proprietário

Para o proprietário de uma funerária de Sumaré, Alexandre Moraes, famílias de classe média estão mais preocupadas com os custos da morte. Já famílias abastadas, em geral, pagam o funeral particular porque fazem exigências de serviços específicos no momento de maior comoção. “Alguns planos fazem restrição de idade para a cobertura, mas tem muito óbito de jovens também. Então não faz muito sentido”, afirmou ele.

Ele lembrou que basta alguém próximo morrer para que as pessoas comecem a se preocupar com o assunto. “A pessoa vê que morreu alguém e que a família não gastou nada na hora porque tinha a cobertura. Aí decide fazer o plano também. Por isso a maioria das pessoas tem. Todo mundo já perdeu alguém”, avaliou.
Já o agente funerário Thiago Oviar relatou que o perfil da pessoa que procura por um plano funerário é, em geral, a que tem idosos na família. “Os mais jovens não gostam muito de pensar em morte. E os velhos pensam que querem que eles se associem porque os familiares já querem que eles morram. Então são os adultos que procuram mais e geralmente fazem o plano escondido de pais e avós”, contou.

Para o auxiliar administrativo da Funerária Americana, Sílvio Gaspari, o plano funerário já faz parte do orçamento de quase todas as famílias. “Hoje o plano é um mal necessário. É como ter um seguro de automóvel. Ninguém gosta de pagar, mas é necessário. Na hora de um funeral, a pessoa não quer pensar em dinheiro, não quer pensar em pagamento”, colocou.

A secretária Mirian Assis contou que quase todas as famílias que não possuem plano são pegas de surpresa. “Atendemos o caso de um acidente que morreram três da mesma família e ninguém tinha plano. Pegou a família totalmente desprevenida”, contou. “Mas teve outro caso de um senhor que era associado e perdeu três parentes em seis meses. Sorte que ele tinha o plano. Senão, tinha que ter condições para pagar”, afirma ela.

‘Por enquanto, eu não me preocupo’

Em meio aos preocupados com a hora da “passagem”, tem gente que quer mesmo saber é de continuar vivo. É o caso do operador de empilhadeira Anderson Kawabata que, aos 35 anos, nunca pensou em se preparar para a morte. Apesar de morar no bairro Parque Gramado, em Americana, onde fica um dos cemitérios da cidade, ele nunca parou para avaliar o assunto. “A gente nunca pensa que vai morrer um dia”, afirmou. “Minha família toda tem plano e só eu estou despreparado. Eu acho que, para quem fica, é uma dor de cabeça a menos, mas para quem morreu, já foi mesmo”.

Ele acredita que, conforme a idade avançar, esse tipo de preocupação deverá chegar também, mas garante que não tem nenhuma superstição em não querer falar em morte. A administradora Fernanda Meneghim, de 37 anos, também não pensa nisso e deixa claro que não é por medo de mau agouro, mas sim pela questão financeira.

Ela já enfrentou a morte de um parente próximo e, mesmo assim, prefere não se planejar. “É um absurdo pagar tanto tempo e nem saber por quanto tempo vai pagar”, avaliou. “Eu não estou preocupada por enquanto. Em um momento difícil, já está passando por outras coisas, passa por essa também. E tem vários serviços no mercado”.

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