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HISTÓRIA

Uma parte da Letônia em Nova Odessa

Comunidade leta tem impacto no desenvolvimento do município, que completa 119 anos nesta sexta-feira

Por Gabriel Pitor

24 de maio de 2024, às 08h21

Festa Ligo reproduz a mesma celebração realizada no solstício de verão da Letônia - Foto: Divulgação

No fim dos anos 1890 e início dos anos 1900, a Rússia Czarista de Nicolau II estava em seus últimos anos como império antes de se tornar a União Soviética. O território, que reunia algumas localidades que atualmente conhecemos como países, a exemplo da Letônia, era comandado com várias restrições à liberdade cultural e religiosa.

Foi neste contexto que o pastor luterano Karlis Balodis e o filósofo Peteris Sahlítis vieram para o Brasil e conheceram “o país da terra fértil, que tudo produz”.

Voltaram para a Letônia e passaram a publicar textos no diário Baltijas Wehstnesis (o Mensageiro Báltico), bem como editaram o livro “Brazilija”. Foi o necessário para acender a chama da emigração.

Os primeiros letos que vieram para o Brasil, em 1890, desembarcaram em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Porém, a dificuldade de adaptação fez com que o batista leto Júlio Malves se reunisse com o então Secretário de Agricultura do Estado de São Paulo, Carlos Botelho, para pedir ajuda. E Botelho, fundador da colônia de Nova Odessa, ofereceu terras na cidade para a primeira leva de letos, em 1906.

Casa construída em Nova Odessa com base na arquitetura leta – Foto: Marcelo Rocha/Liberal

No mesmo ano, veio a segunda leva do país do Leste Europeu, motivada por propagandas criadas por João Gutmann e difundidas por uma sucursal inglesa. Foi nesta onda que a Anna, avó de Felipe de Carvalho Albrecht, de 40 anos, veio para o Brasil.

“O meu bisavô [Evalds Uzars] já tinha feito um artigo sobre o Brasil lá na Letônia falando das terras daqui e do clima que não era tão frio. Lá na Letônia eles aproveitam muito mais o tempo deles no verão por conta da boa temperatura, do sol”, disse Felipe, que é casado com a leta Renate de Carvalho Albrecht, de 38 anos.

Por fim, em 1922, já no contexto da União Soviética, outros letos vieram para Estado de São Paulo, mais especificamente para a colônia de Varpa, em Tupã, para fugir da Primeira Guerra Mundial.

Liliana, Priscila e Felipe são descentes de imigrantes letos – Foto: Marcelo Rocha/Liberal

Desse grupo, vários posteriormente viajaram para Nova Odessa, entre eles Osvaldo e Melania, pais de Liliana Minka Klavin, de 77 anos. “A minha mãe veio por conta da guerra. E eles ouviam que aqui tinha muitas terras, que qualquer coisa poderia ser plantada que iria produzir”, contou Liliana.

Contar a história da formação da comunidade leta em Nova Odessa é mostrar uma parte importante do desenvolvimento da cidade, que comemora 119 anos nesta sexta-feira.

Foram esses imigrantes que fundaram na colônia a primeira Igreja Batista Leta, em 1906. Eles também foram responsáveis pela mecanização do campo – como a carregadeira de cana – e por instalar energia elétrica na área rural – iniciativa de Rodolfo Kivitz.

Todos esses progressos foram trazidos mesmo com dificuldades, já que Letônia e Brasil sempre foram muito diferentes no clima, no idioma e na cultura. Os letos sofriam com essas barreiras e com doenças tropicais.

“Meu pai fala que, na casa dele, a família só conversava em letão. Aqui em Nova Odessa ele sofria muita zoação na escola, porque foi lá que ele aprendeu a língua portuguesa. Ele conta que chegou até a levar pedrada”, relatou Priscila Marestoni Peterlevitz Leal, de 37 anos, neta de Eduardo e Geni Peterlevitz, que vieram da Letônia.

Tradição é ensinada nas escolas municipais – Foto: Conexão Cultural/Divulgação

Porém, o que antigamente era motivo de zoação, hoje virou tradição ensinada nas escolas municipais de Nova Odessa no mês da festa Ligo, realizada anualmente pela comunidade e que reproduz a mesma celebração realizada no solstício de verão da Letônia.

Uma apresentação da história dos letos é acompanhada de danças e músicas, que fazem uso de instrumentos como kokle, órgão e violino. Também são ensinados alguns pratos típicos como geleias, cuca, gelatina de joelho de porco, sopas (chamadas de “zupas”) e galeto (frango defumado, marinado e feito na brasa).

A festa também leva o nome do prato Ligo, que é feito com chucrute, batata salté e linguiças. A décima edição está marcada para 8 de junho, a partir das 17h, no Espaço Cultural Ralfo Klavin (Rua Terezinha Alves de Souza, 99, Residencial Altos do Klavin). No dia 9, também terá o Ligo Running e um almoço com galeto.

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