Plantarum: uma mistura de sonho e legado

“O que fazemos aqui é uma verdadeira façanha”, afirma criador sobre a luta diária para manter o espaço de 80 mil metros em Nova Odessa


Uma área com cerca de 80 mil metros quadrados e mais de 4.500 espécies de plantas, algumas já extintas na natureza, distribuídas em grupos botânicos organizados em jardins temáticos identificados. O visual do Jardim Botânico Plantarum lembra os jardins da Europa, mas fica em Nova Odessa e representa o sonho do engenheiro agrônomo dedicado à botânica, pesquisador e escritor Harri Lorenzi.

“Sempre tive o sonho de fazer algo que eu pudesse deixar para as futuras gerações”, conta o estudioso natural de Corupá, cidade de Santa Catarina considerada a Capital catarinense das plantas ornamentais e das orquídeas.

O sonho começou a se tornar realidade em 1998, quando comprou a área e começou a plantar ali as mudas e sementes que trazia das expedições feitas pelo Brasil para embasar os livros sobre botânica escritos por ele. São 43 anos de pesquisa e quase 30 publicações assinadas pelo pesquisador, que responde ainda pelo Instituto Plantarum, referência em pesquisa e conservação da flora brasileira.

A decisão de abrir o jardim para visitação veio só em 2011 e desde então Lorenzi vive o desafio diário de manter o espaço. “O que fazemos aqui é uma verdadeira façanha”, resume, explicando que os custos de manutenção são altos, mas a paixão pelas plantas o faz seguir em frente. Afinal, conta o pesquisador, ele já sabia que não seria fácil e desde o início nunca quis fazer do jardim botânico um de seus negócios.

Você é natural de Santa Catarina. Como começou sua relação com Nova Odessa?

Fui casado com a irmã do Samartin (ex-prefeito Manoel Samartin) e vinha muito para Nova Odessa. Estava procurando um local havia muito tempo para fazer algo que eu pudesse deixar para futuras gerações e isso se concretizou em 98, quando eu comprei a área e idealizei o jardim onde pudesse colocar espécies raras e ameaçadas de extinção. Isso foi feito e em 2011 decidimos abri-lo para visitação.

Então o Plantarum nasceu de um sonho antigo…

Sim. Sempre tive esse sonho. Gosto de cultivar plantas. Estudo as espécies, escrevo livros e sempre fiz muitas expedições pelo Brasil em busca de informações e dados para essas publicações. Nessas expedições encontrava coisas interessantes, plantas que não existiam por aqui. Então, eu trazia sementes e mudas para cá e ia plantando em áreas de amigos. A partir de 98 comecei a trazer tudo para cá e com isso consegui montar uma coleção razoável com mais de 4.500 espécies entre árvores, arbustos, palmeiras e todo dia de planta possível.

Foto: Divulgação
Harri Lorenzi

Qual o principal desafio de se manter um espaço como esse?

É muito difícil. O que fazemos aqui é uma verdadeira façanha. Primeiro que isso tem um custo alto de manutenção e segundo que não tem muito apelo popular. Apesar das pessoas gostarem de espaços ao ar livre, no geral não conseguem distinguir entre um jardim bonito e um jardim medíocre. Elas não têm experiência nessa área. Isso é mais forte na Europa, onde as pessoas prestigiam muito os jardins botânicos, visitam e gostam. No Brasil não é bem assim. Mas eu já sabia disso porque desde o início, antes de criar o jardim, já visitava jardins pelo mundo para conhecer e saber como eram. Então eu já esperava isso e também, desde o início, eu não quis fazer o jardim como uma parte dos meus negócios porque é inviável economicamente. Meu negócio é escrever e publicar livros de plantas. Faço isso há 43 anos.

Como o jardim se mantém?

Durante a construção do jardim pensei em outras coisas que poderiam gerar receita e cobrir os custos de manutenção. Nessa área funcionava uma indústria, então aproveitei os prédios que estavam abandonados e transformei em cinco espaços de vários tamanhos para eventos sociais e em três auditórios para eventos corporativos. Tudo isso foi muito importante para o jardim. Basicamente é o que garante a sua sobrevivência porque a visitação não paga nem os funcionários da recepção. Quando ouço falar que o Estado quer privatizar os parques fico assustado porque não sei como essas empresas vão sobreviver. É uma luta constante. Mantemos uma equipe mínima. São apenas cinco jardineiros, que além de trabalhar no jardim cuidam da avenida onde estamos para manter o entorno também sempre bonito, mais três funcionários na administração, e mesmo assim o jardim não se paga. Apesar disso a gente faz com paixão e o objetivo, como eu disse, não é econômico.

Há mais de 40 anos você se dedica à botânica. Ao longo desses anos, trabalhando também com a preservação das espécies, você tem notado maior conscientização ambiental?

Se ouve falar muito em preservação, mas na prática se vê pouca coisa. É muito oba-oba. Vemos empresas fazendo alguma coisa, mas lamentavelmente apenas quando são obrigadas. Tem que ter ações. É muita gente falando, mas na prática não está ocorrendo como deveria.

Você acredita que isso vai mudar?

Temos um programa de educação ambiental voltado a estudantes. Tomara que essa geração faça a diferença. Nesses mais de 40 anos de expedições pelo Brasil, posso testemunhar a destruição que vi. Não podemos ir contra o progresso para preservar o meio ambiente, mas acho que deveríamos fazer as duas coisas.

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