‘Não estou pronto para passar outra vez por ali’

Em sua primeira entrevista passados mais de cinco anos da tragédia, Alonso conta que acidente o faz ter pesadelos


[\img]O LIBERAL: O senhor ainda vê matérias da época do acidente?

ALONSO DE CARVALHO – De vez em quando vejo. Eu vou falar para você: aquele portão era para estar lá em 1998. Um amigo meu passou ali, o trem pegou, mas não matou ninguém. Isso em 98. Foram colocar em 2010 depois do meu acidente.

E quando o senhor leu que as famílias não querem o senhor preso, isso o confortou?

Alonso – Aí é que eu digo para você: por que falou uma coisa uma hora e no outro dia falou outra? Quem fez isso vai ter que prestar conta com nosso senhor Jesus Cristo um dia. E lá não vai ter desculpa. Eu tô com minha consciência tranquila, eu falei a verdade. (.) O que me conforta é a minha paz. O que os outros pensam, não me importa. Quando aconteceu o acidente, foi muita coisa. Tenho meus irmãos, minhas irmãs, meus amigos e a minha fé.

Quando o senhor passa ali e vê o portão…

Alonso – Eu não passo ali, eu não estou preparado para passar ali. Além de eu ver a minha dor, eu não vejo só a minha dor. Eu vejo as pessoas que morreram e vejo o lado dos parentes das vítimas. Eu digo para você: eu sei que eles estão sofrendo, mas não foi culpa minha, eu não errei. Desde a hora que eu saí de lá da Unisal [na noite do acidente, o ônibus conduzido por Alonso partiu da faculdade em direção ao bairro Antônio Zanaga] até a hora que aconteceu.

O senhor então conhecia todos os passageiros daquele horário?

Alonso – Eu sabia até os pontos. Eu nem parava no ponto, parava de frente pra casa. Era a última viagem, então eu parava perto da casa deles, parava na esquina. Eu fui preparado para ser motorista de ônibus, de carreta, de caminhão. Dirigi até o dia que aconteceu. Eu sinto pelos que se foram, pelos que se feriram, que sofrem, mas por culpa minha não.

E na hora do acidente? O senhor se lembra?

Alonso – Na hora que eu cheguei no terminal, 23h23, e o meu horário de passar ali era entre 23h20 e 23h25. Eu estava dentro do meu horário. Entrou o pessoal que era daquele horário, depois entrou um povo que eu nunca tinha visto, fiquei olhando com o freio de mão puxado. Pensei: “vou esperar dar 25 porque sempre vem um correndo”. Aí era 23h24, o cobrador falou: ‘vamos?’ Então vamos. Peguei, engatei o ônibus, coloquei em segunda (marcha). Era um ônibus novo, sai na segunda. O farol estava verde, coloquei terceira e virei em terceira, já reduzi para a segunda, porque se subir em terceira no trilho bate o fundo do ônibus. Reduzi e entrei, não tinha nada tocando. Depois que eu atravessei, já tinha passado todo o pneu dianteiro, que fica para trás do motorista, tinha nove metros de ônibus para trás. E é que nem eu falei para o juiz, aquilo foi assim, como posso falar, milésimos de segundos e já tinha acontecido. Estourou o meu ouvido todo, não ouço mais nada desse ouvido [aponta para a orelha esquerda]. Bateu atrás de mim e me jogou para fora. Na hora que estava lá na frente, eu desmaiei, caí em cima de uma daquelas pedras. Eu queria gritar e não tinha jeito, eu estava em estado de choque. O vagão passava aqui assim (mostra proximidade com a cabeça), ele não tinha parado ainda, aí eu desmaiei de novo. Só acordei de novo no hospital.

O senhor, então, não viu a cena?

Alonso – Não, eu acordei no hospital e lembrava o que tinha acontecido. Sabia que estava em um hospital. Cheio de medicamento, mas lembrava perfeitamente o que tinha acontecido. (…) Outra coisa que eu faço para entreter é a Bíblia. Agora mesmo eu estava com ela. Agora eu estou em casa a maior parte do tempo, porque a escola de informática parou para o fim do ano. Lá eu me sinto bem. Lá eles não veem o Alonso motorista, eles veem o Alonso pessoa.

O senhor sente revolta pelo que ocorreu? O senhor se sente injustiçado?

alonso – Eu sinto por jogarem em cima de mim, por uma culpa que não é minha. Você acha que aquele portão que está lá evita acidente? É manual, não é? A cancela está aqui (de um lado) e o canceleiro aqui (do outro lado). O próprio canceleiro corre risco de vida. Ele tem que atravessar para o outro lado para fechar a cancela. Eu já fiquei sabendo que um deles machucou o pé.

O senhor demorou para voltar a falar do acidente?

Alonso – Não, eu tenho uma família muito unida. Se eu não tivesse, eu estava ferrado. A gente precisa falar e falava entre a gente, com minha psicóloga…

O senhor ainda frequenta a psicóloga?

Alonso – Ainda. Eu preciso da ajuda das pessoas. Tenho que passar por psiquiatra desde aquela época.

A história dos pesadelos é verdade [na época dos acidentes, a imprensa noticiou que o motorista ainda sofria com pesadelos com as imagens da batida]?

alonso – Sim, eu tenho pesadelo direto. Tenho pesadelo, sento na cama e parece que é verdade, que o trem acabou de bater no ônibus. Aquilo parece que é verdade, demora 20 a 30 segundos para ver que não aconteceu. Mas aí o resto da noite acabou, não durmo mais. Não por culpa do acidente, eu era um cara certinho.

O senhor chegou a encontrar gente do trabalho depois do acidente?

Alonso – Toda semana. Não tem uma que não venha um amigo (da VCA) meu aqui.

O que o senhor costuma fazer no dia-a-dia?

Alonso – Eu procuro muito estar com meus irmãos e para ocupar a cabeça, eu faço aula de informática. Outra coisa que faço é ler a Bíblia sempre.

E esse ambiente no terminal é o que mais te faz falta? Aquela ‘resenha’?

Alonso – [Alonso começa a chorar] Faz muita falta. O ambiente, não os meus amigos, que estão aqui sempre. (Fazem falta) O ônibus, os passageiros, o terminal, a empresa, eu sinto uma falta que… [não consegue concluir a fala e segue chorando]. Quando eu converso com Jesus, eu peço para que ele tire esse vazio de mim. Mas tem que ser no tempo dele, não é na hora que eu quero. Mas vai passar. Olha, eu estou com minha cabeça sossegada. Tenho as minhas deficiências e sofro, sei que outros ficaram lesionados, mas minha cabeça tá legal.

O senhor evita falar o seu nome por medo de ser reconhecido?

alosnso – Sim. Não por achar que eu fiz e matei as pessoas, porque eu sei que não fiz, mas você fica receoso.

O senhor acha que as pessoas que te reconhecem te julgam culpado?

Alonso – Sim, tem muitas pessoas. Da forma que foi colocado, tem muita gente. Eu fui muito em hospital, então, tem de dar o nome e eu ficava receoso de dar o nome. Nunca aconteceu de alguém falar do acidente, mas é um medo meu. A psicóloga está me ajudando nisso aí faz tempo. Eu fico com medo, mas nunca fui repreendido, aliás fui ajudado nos hospitais. Só encontrei amigos, os funcionários cuidavam do Alonso paciente, não cuidavam do motorista Alonso, nunca ninguém me falou nada, encontrei apoio.

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