Vocação industrial faz Americana ter 2º pior saldo de empregos

Município fechou mais de oito mil postos de trabalho nos últimos quatro anos, ficando atrás apenas de Campinas entre cidades da região metropolitana


Nos últimos quatro anos, Americana foi a cidade com o segundo pior saldo de empregos da RMC (Região Metropolitana de Campinas). Segundo o Boletim do Observatório do Trabalho, elaborado pela Prefeitura de Campinas, foram extintos 8.091 postos de trabalho na cidade no período entre 2015 e 2018 – o saldo do ano passado foi contabilizado pelo estudo somente até outubro. O pior saldo foi o de Campinas, com 28.428 empregos perdidos.

Para economistas, a importância da indústria para o mercado de trabalho de Americana foi apontada como o principal fator que explica esse desempenho. A cidade que aparece em seguida na evolução dos saldos de emprego é Paulínia, com 3.468 postos fechados – menos da metade de Americana.
O saldo americanense também está distante daquele registrado em municípios com nível populacional semelhante. Cidades com mais de 200 mil habitantes – como Americana – Hortolândia e Indaiatuba fecharam, respectivamente 3.012 e 2.278 postos de trabalho.

Foto: Arquivo / O Liberal
Segundo o Boletim do Observatório do Trabalho, elaborado pela Prefeitura de Campinas, foram extintos 8.091 postos de trabalho na cidade no período entre 2015 e 2018

Americana é uma cidade caracterizada pela forte presença do emprego industrial. A indústria têxtil e a construção civil foram responsáveis pelo desempenho do mercado de trabalho formal na cidade no quadriênio anterior.

Comércio e serviços acabam sofrendo quando a indústria padece, já que dependem da renda diretamente de quem está empregado no setor industrial, que corresponde a boa parte dos empregos na cidade. A análise é da assessora econômica do Sincomércio (Sindicato dos Lojistas e do Comércio Varejista de Americana, Nova Odessa e Santa Bárbara d’Oeste), Caroline Miranda Brandão.

“Cidades menores que tiveram um desempenho superior tem saldo relativamente pequeno, mas tem menos perda de emprego. É isso que vai fazer a diferença no final”, afirmou a economista.
Apesar de amargar o segundo pior resultado da RMC, Americana fechou 2018 com saldo positivo – 231 vagas abertas. O único setor com retração no ano passado foi a indústria – tanto comércio quanto serviços fecharam no positivo.

Estudo

O relatório foi elaborado pela Secretaria Municipal de Trabalho e Renda de Campinas com base nos números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do Ministério do Trabalho. O economista responsável é André Luiz de Castilho Fonseca, que fez recortes avaliando períodos de quatro anos (2011-2014 e 2015-2018) considerando as gestões presidenciais.

“Faço uma análise de que o índice de admissão acompanha o de investimento. Em qualquer país, e no Brasil particularmente, o nível de investimento privado é puxado muito pelo nível do investimento do governo”, apontou o economista.

“Quando foi aprovada a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que congelou os gastos públicos por 20 anos, o governo sinalizou para a sociedade que não haverá investimentos e não haverá demanda para o setor privado. Se não há essa expectativa, o setor privado também não investe”, finalizou.

À espera do rumo do governo

Professora da Faculdade de Economia da Puc-Campinas (Pontifícia Universidade Católica) e economista do Observatório do Trabalho da mesma universidade, Eliane Rosandiski indicou que a retomada econômica talvez não esteja na atividade industrial.

O aspecto mais decisivo é como será a política econômica relacionada à indústria – se haverá incentivo às empresas ou agenda que favoreça importações. Isso pode provocar um efeito de desindustrialização, já que o produto nacional pode não conseguir competir com o estrangeiro.

“Como antes das eleições não teve um debate muito forte, ainda não sabemos. Vejo que o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem focado muita atenção no deficit público e na reforma previdenciária. Talvez isso dê uma estabilidade maior pra retomada do investimento, mas também ele já falou em liberar mercado”, disse.

Espremida

Em caso de agenda que favoreça importados, a saída para a criação de empregos estará, provavelmente, no setor de serviços.

“É bastante complicado porque o mais forte potencial que a nossa economia local tem é relacionado à tecnologia e à tecnologia da informação. É uma área que consegue produzir grande serviço com pouco trabalho”, explicou.

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