Tio Gága: ele só queria um banquinho para ver a lua

Tio Gága não gosta de dar entrevista, mas o idealizador da praça mais famosa de Americana falou ao LIBERAL


Ele é conhecido como alguém que não gosta de aparecer. E não gosta mesmo. Reservado e tímido, raramente dá entrevistas. Tem medo de ser mal compreendido e de passar a impressão de que está querendo se promover. Por isso, conseguir falar com ele não foi tarefa fácil. Mas o LIBERAL conseguiu. No final da tarde de quarta-feira, o engenheiro Luiz Gonzaga Trevisani, ou Tio Gága, como é conhecido, recebeu a reportagem na praça batizada informalmente pelos frequentadores com o seu nome.

O homem que prefere fazer ao invés de falar conseguiu transformar uma iniciativa despretensiosa num exemplo de cidadania sem nunca ter divulgado seu trabalho. Tudo começou com a vontade de melhorar a área abandonada em frente à casa onde mora há 35 anos, no Jardim Glória, em Americana.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Tio Gága: idealizador de praça

Do espaço de quase 10 mil metros quadrados, ele usou só um “cantinho” para construir um banco de onde pudesse ver a lua ao anoitecer. Isso foi há três anos. O banco continua lá, mas já não está sozinho. Brinquedos construídos em madeira foram ocupando o lugar ao longo dos anos. Além da transformação visual, a iniciativa deu outro sentido ao conceito de uso do espaço público.

A Praça do Tio Gága na verdade é de todo mundo. Ele ressalta isso e chama atenção para a importância das pessoas tomarem posse de áreas ociosas e praças abandonadas e transformá-las em espaços de lazer e convivência. Na avaliação dele, isso é um gesto de cidadania e para acontecer “basta querer fazer”.

O engenheiro também faz questão de destacar que nunca esteve sozinho. Recebeu ajuda de amigos e de outros moradores do bairro, que também colaboram com a manutenção do espaço. Na praça que leva o seu nome, Gága – apelido derivado de Gonzaga e que recebeu ainda na infância – se sente em casa. Ele está lá todo final de tarde. Gosta de estar em meio às crianças e embora seja chamado de tio, se sente mesmo é avô de todas elas.

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A Praça do Tio Gága

Como surgiu a Praça do Tio Gága?
Essa área sempre existiu. Minhas crianças brincavam aqui quando eram pequenas. Depois elas cresceram, cada uma tomou seu rumo e o espaço ficou abandonado de fato por 15 anos até eu ter a oportunidade de vir e começar um cantinho, limpar, ajeitar para ficar mais agradável. Ao invés de sair de casa e ver o mato, pelo menos via um lugarzinho mais agradável e ficou tão agradável que agradou um monte de gente. Aí começou a crescer e foi expandindo, expandindo, até se transformar nisso.

E você fez tudo sozinho?
Não. Tive a ajuda de muitos amigos que moram aqui perto e também das crianças. E foram muitas. Sempre contei com a participação dos pequenos, incentivando eles de fato a fazer alguma coisa, ensinando a bater um prego ou a cortar uma madeira. E elas gostam disso porque conseguem ver a madeira se transformando, ganhando forma, surgindo um brinquedo. Muitas que já me conhecem, quando me veem por aqui me perguntam “o que nós vamos construir hoje, Gága”?

Isso ajuda na formação de cidadãos mais conscientes?
Sim. Elas acabam aprendendo como é importante fazer algo pelos outros. As pessoas são imediatistas, querem as coisas pra si. Esquecem dos outros. Quando você envolve a criança na criação de alguma coisa, elas entendem que estão fazendo algo não só pra elas, mas para todos os amigos. Se sentem úteis. Isso é uma transformação de atitude.

Então você gosta de criança?
Muito. Não tenho netos, mas posso dizer que me sinto avô das crianças que frequentam a praça. Sair da minha casa e ver esse espaço cheio de crianças brincando é uma alegria muito grande. Para elas, isso aqui é muito diferente do videogame, da televisão. Aqui elas podem ser crianças de verdade.

E a ideia dos brinquedos lúdicos, feitos em madeira, como surgiu?
A gente sempre teve problemas com os galhos que caíam das árvores e ficavam jogados aqui. Então tive a ideia de aproveitar a madeira e construir um banco e assim foi. À medida que os galhos iam caindo, me peguntava o que fazer com eles. Dessa forma foram surgindo os brinquedos. Sempre aproveitando o material disponível e cada dia inventando uma coisa diferente.

O fato de você ser engenheiro ajudou na transformação do espaço?
Não. Nunca existiu nenhum projeto. As coisas foram simplesmente acontecendo graças à união de vários moradores com a mesma intenção, transformar uma área abandonada num lugar mais agradável e limpo. A cada galho que caía a gente inventava um brinquedo diferente, usando a criatividade, e criatividade qualquer um pode ter.

Por que esse espaço atrai tanta gente hoje?
A simplicidade do lugar e do material. Nada aqui foi comprado. O custo com esse espaço foi praticamente zero. Isso prova que não precisa esperar o poder público ou um milagre para fazer algo acontecer. De forma simples, é possível transformar um lugar. Aqui, tudo é muito simples. Hoje eu saio na frente de casa e não vejo mais uma área abandonada. Vejo um lugar agradável, com um monte de criança brincando.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Praça é opção de lazer em Americana

Você acha que o fato de vir muitas pessoas aqui demonstra também que existe carência de espaços de lazer na cidade?
Sim. Existe a carência, mas também falta conscientização das pessoas. Todos os bairros têm um espaço que pode ser transformando num lugar bacana. Falta alguém cuidar. E esse alguém pode ser qualquer pessoa. Todos podem fazer. É preciso mudar a forma como a gente vê o espaço público. Ele não é da prefeitura, ele é de todo mundo. Também não adianta ter uma praça cheia de brinquedo se depois de um tempo eles forem destruídos. Ninguém pensa em apertar o parafuso de um brinquedo quando vê que ele está solto. A pessoa espera o parafuso soltar, cair no chão e a prefeitura ir lá consertar. Infelizmente é dessa forma que a maioria ainda pensa. É tão simples, tão gostoso, pegar uma criança e falar “vamos lá consertar aquele brinquedo”. Dá próxima vez que essa criança ver alguém quebrando o brinquedo, ela mesmo vai chamar a atenção e falar eu consertei, não pode quebrar. É isso que acontece aqui. A manutenção é mínima, mas quando acontece tem sempre quatro ou cinco crianças querendo ajudar. Todos os finais de semana estamos por aqui fazendo alguma coisa. Tornou-se um hábito.

O que falta para as pessoas terem essa consciência?
Falta iniciativa. Não adianta ficar só pensando “Eu tenho vontade”, “talvez”, “pensei em fazer”. É preciso dar o início, começar. Deixar de ir no bar, no futebol e ficar com o filho. Chama ele pra ir ali, limpar um cantinho de uma área suja e abandonada. É isso que precisa, ter iniciativa. É mudar a mentalidade e entender que não precisa esperar acontecer se a gente consegue fazer. Por que não fazer o bem para os outros?

Sua iniciativa está respingando em outros bairros da cidade. O que você sente em relação a isso?.
Uma alegria que você não faz ideia. Porque aos poucos as pessoas estão mudando a forma de ver o espaço público e começam a descobrir que ter iniciativa é muito bacana. Isso está acontecendo no presente, mas minha vontade na verdade é que aconteça também no futuro. Que essas crianças com dois, três anos que brincam por aqui passem essa ideia para as futuras gerações. Contem que brincavam num lugar assim…

Foi surpresa essa dimensão que a iniciativa alcançou?
Foi. Para mim é algo totalmente surpreendente. Eu só queria um cantinho onde eu pudesse ver a lua nascer todas as noites. Só isso. Um banco embaixo de uma árvore para ver a lua nascer.

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