Teares que teceram a história de Americana

Um século de história contada através de imagens que relatam a era do “ouro branco” em Americana e naquela que seria conhecida como RPT


Da dura semente do algodão plantada em uma fazenda próxima ao Ribeirão Quilombo, nasceu aquela que seria conhecida como RPT (Região do Polo Têxtil). Composta pelas cidades de Americana, Nova Odessa, Hortolândia, Santa Bárbara d´Oeste e Sumaré, a região produz 70 milhões de metros quadrados de tecido por mês, em média. Americana encabeça o grupo e não à toa: a história do município está entrelaçada com a história e desenvolvimento do setor têxtil, tanto daqui, como do País. Por quase 100 anos, a economia da Princesinha Tecelã foi ditada pelos avanços e infortúnios do setor, contatas através de imagens que relatam a chamada era do “ouro branco”.

1866: chegam os americanos

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História têxtil de Americana tem início em 1866, com a chegada do norte-americano, o coronel confederado William Hutchinson Norris

A história têxtil de Americana tem início em 1866, com a chegada do norte-americano, o coronel confederado William Hutchinson Norris em terras ainda denominadas de Santa Bárbara. Norris se instalou próximo ao Ribeirão Quilombo e deu início ao cultivo de algodão. O solo fértil e sua habilidade na lavoura, tornou sua plantação referência na área em pouco tempo, atraindo outros americanos empenhados em cultivar o “ouro branco”.

1875: inauguração da Estação Ferroviária e da Fábrica de Tecidos Carioba

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O segundo marco aconteceu a três quilômetros dali, com a inauguração da primeira Fábrica de Tecidos Carioba

O ano de 1875 foi duplamente importante para a pequena vila que se formava. A inauguração da Estação Ferroviária da Companhia Paulista ajudaria a escoar a produção de algodão e melancia para todo o Estado de São Paulo e reforçaria a autonomia da Villa dos Americanos de Santa Bárbara. O segundo marco aconteceu a três quilômetros dali, com a inauguração da primeira Fábrica de Tecidos Carioba, fundada pelos irmãos Antônio e Augusto Souza Queiroz e o americano William Pultney Ralston. Em 1884, a fábrica foi adquirida pelos ingleses Jorge e Clement Wilmot – também proprietários da fazenda de Salto Grande – e fechada em 1896 devido as dívidas contraídas pelos irmãos, após a abolição da escravatura.

1901: chegada da família do comendador Franz Müller

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Franz Muller, à esquerda e família

A fábrica permaneceu fechada por seis anos até ser adquirida em leilão, no ano de 1901, por comendador Franz Müller. A família Müller se mudou para Villa Americana no ano seguinte, dando um novo começo para a tecelagem e novo rumo econômico para a pequena vila. Novos métodos de trabalho e tecnologia foram implantados, a vila operária expandida para abrigar seus colaboradores, a maioria imigrantes italianos.

1904: Bairro Carioba é o primeiro do País a receber asfalto

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O bairro Carioba foi o primeiro, no Brasil, a receber asfalto e saneamento básico

Em 1904, sob o comando de Rawlison Müller & Cia, a fábrica de tecidos se tornou a segunda mais importante do país. O bairro Carioba foi o primeiro, no Brasil, a receber asfalto e saneamento básico – antes mesmo da Villa Americana. Em 1907, a roda d´água deu lugar a uma usina hidrelétrica que se fez responsável pelo abastecimento de energia tanto da fábrica como de cidades vizinhas. Carioba era composta por quatro grandes empresas de tecido e seguiu próspera nas mãos do filho Hermann Müller até a década de 40, quando a família se viu obrigada a vender as instalações a J.J. Abdalla devido à perseguição aos alemães em solo brasileiro, durante a 2ª Guerra Mundial. Carioba encerrou suas atividades em 1976.

1921: Americana recebe os primeiros teares

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Fábrica de fitas Hans Schweizer, década 30

Em 1921, Cícero Jones e Hans Schweizer trouxeram para Americana os primeiros teares para fabricação da seda. Eram 12 teares importados diretamente da Suíça e instalados em barracão na Rua 30 de Julho. Jones e Schweizer foram os pioneiros do setor têxtil na área central de Villa Americana e os primeiros a investir na seda, contribuindo para diversificação da indústria. Após a morte de Jones, a fábrica ficou dois anos parada até ser adquirida pelos irmãos Giuseppe e Guido Bertoldo.

1930 a 1940: setor têxtil é impulsionado pelas indústrias de fação

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Rua 30 de julho, Centro de Americana durante a década de 30

Em meados da década de 1930, a indústria têxtil começou a se multiplicar. Com a perspectiva de aumentar a renda familiar, muitos trabalhadores têxteis se aventuravam a comprar até dois teares e fabricar em casa (a maioria localizada na região central da Villa Americana). A produção das indústrias de fação – como é conhecida a atividade – era absorvida por Carioba.

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Em meados da década de 1930, a indústria têxtil começou a se multiplicar

A atividade deu um salto quantitativo a partir da década de 1940 motivada pelo baixo custo da produção do tecido, com a inserção, em larga escala, dos fios artificiais (viscose e nailon) produzidos pela Fibra S.A., principal produtora e exportadora desses fios na América Latina. Villa Americana ficou conhecida como maior centro produtor de tecidos da Americana Latina nesse período.

1941: inauguração da primeira cooperativa, a Citra e da Distral

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Citra, a primeira cooperativa de Americana

Em 1941 foi criada a Citra (Cooperativa Industrial de Tecidos de Rayon de Americana), a primeira experiência cooperativista do setor. Para facilitar o escoamento da produção, um grupo de empresários fundou a Distral (Distribuidora de Tecidos de Rayon de Americana Ltda.), três anos depois.

1972: Polyenka S.A. inicia produção de poliéster

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Polyenka inovou o parque industrial com a introdução dos fios sintéticos (poliéster)

A prosperidade do setor têxtil em Americana atraiu outras grandes empresas para seu território, tal como a Polyenka S.A. Indústrias Química e Têxtil, em 1972. A empresa inovou o parque industrial com a introdução dos fios sintéticos (poliéster). Anos depois, chegaria a Fábrica de Tecidos Tatuapé, do Grupo Santista, outra grande do setor que ainda se mantém nos dias de hoje. Americana concentrava toda a cadeia têxtil em seu território, dispensando a compra de insumos fora do município.

1961: acontece a primeira Fidam

Foto: Arquivo - O Liberal.JPG
Em 1961 aconteceu a 1ª Fidam (Feira Industrial de Americana), a primeira feira do gênero realizada no interior do Estado de São Paulo

Americana era, sem dúvida, a cidade de maior importância no setor têxtil, mas era preciso divulgar. A ideia foi criar um evento capaz de prospectar o parque industrial do município a nível nacional. Em 1961 aconteceu a 1ª Fidam (Feira Industrial de Americana), a primeira feira do gênero realizada no interior do Estado de São Paulo.

O sucesso foi tanto que o evento se tornou uma entidade de promoção da indústria e produtos locais. O espaço foi berço de outros grandes eventos sociais como a Festa do Peão e o Kartódromo, além de ser a sede da Expodeps, em parceria com a Acia (Associação Comercial e Industrial de Americana) e abrigar as edições da Exposição Nacional de Orquídeas. Em 2012 foi inaugurada a Incubadora de Empresas de Americana, entidade administrada pela Fidam e voltada à gestão de pequenas empresas e startups de tecnologia e inovação de Americana.

Em 2017 foi criado o Centro Cultural e Científico da Moda, um local voltado à pesquisa de novas tendências do setor têxtil e eventos específicos para empresários, em parceria com o Grupo Arena Boureaux. “O Centro de Moda é um ponto de informações para a indústria têxtil que busca inovação, diversidade e agregar valor ao produto têxtil. Para o empresário, a incubadora dá suporte, estrutura e consultoria em gestão. Para a cidade, traz diversificação para a economia, é uma facilitadora de negócios e tecnologia”, diz o atual presidente da Fidam, Edson Botasso.

1989: surge a entidade representativa do setor, o Sinditec

Foto: Aqruivo Sinditec
1ª Sede do Sinditec

A falta dos fios de viscose no mercado somada a comunicação ineficaz junto às entidades patronais da Capital Paulista, motivaram a criação do Sinditec (Sindicato das Indústrias de Tecelagem de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara D’Oeste e Sumaré), em 1989. “Havia a necessidade de tratarmos assuntos mais locais e resolvê-los de maneira mais rápida para não prejudicar as atividades da cidade”, explicou o atual presidente do Sinditec, Dilézio Ciamarro. E foi entre as reuniões da entidade que surgiu o desejo de fazer uma manifestação para chamar a atenção dos governos para a crise que se abateu sobre o setor têxtil na década de 1990.

Consultoria: Livros “As Nossas Riquezas”, Vol. VII; “Descobrindo Americana – Um grande Salto”; “Preservando a Nossa História”; “Americana – Edição Histórica”

Agradecimentos: Edson Botasso_Fidam

Fotos: João Carlos Nascimento e Marcelo Rocha_O LIBERAL; “As Nossas Riquezas”, Vol. VII; “Descobrindo Americana – Um grande Salto”; “Preservando a Nossa História”; “Americana – Edição Histórica”

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