Secretária aposta em meio período para amenizar fila de espera por creche

“Sou uma pessoa otimista, mas eu não consigo achar uma solução”, diz secretária de Educação sobre falta de vaga em creches


Secretária de Educação de Americana, Evelene Ponce Medina se define como otimista, mas não vê solução para a falta de vaga em creches, maior problema da rede. Prestes a completar um ano no cargo, nesta terça-feira, Evelene considera que vive entre a cruz e a espada. Para reduzir a fila, propôs uma alternativa que já tem causado polêmica: criar o meio período e limitar o turno integral aos filhos de mães que comprovem trabalhar. “Na maioria das creches, três horas da tarde não tem aluno”, afirma.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal.JPG
Prestes a completar um ano no cargo, nesta terça-feira, Evelene considera que vive entre a cruz e a espada

Dia 16 começa o recadastramento da fila de espera por vaga em creche. A pessoa tem que procurar para vocês terem uma noção do tamanho da fila?
Meus 28 anos de prefeitura sempre foram no ensino fundamental [ela é diretora concursada]. Então, quando assumi como secretária, também assumi um desafio de entender um pouco mais e me aprofundar na educação infantil. O que eu percebi? Que a gente tem uma demanda que a gente fala que chega em quase 1,8 mil crianças, mas não é uma demanda verdadeira. Eu tenho escola que tem uma fila de espera, por exemplo, uma filantrópica [conveniada], de mais de 200 crianças, só que essas 200 estão inscritas só nessa escola. Atravessando a rua tem uma municipal nossa, a demanda de espera nessa outra escola não chega a 30 crianças. Eu chego à conclusão que do bairro mesmo devem ser essas 30. Por que essas outras estão escolhendo escola.

E a filantrópica tem a estrutura bem melhor que a municipal?
Talvez tenha nome, talvez não tenha estrutura, mas deve ter, sei lá, uma fama.

E as pessoas querem estudar lá?
Concorda comigo que isso não é uma demanda? Porque uma mãe que de fato esteja precisando de uma vaga em creche, se você conseguir oferecer uma vaga a menos de 2 quilômetros, ela está feliz porque está precisando. Aí comecei a ver que a única comprovação que se pedia para fazer a matrícula… a gente tem critérios, você vai para mãe trabalhadora. Só que esse leque da mãe trabalhadora é tratado da mesma forma a mãe que tem a carteira assinada, aquela que trabalha na empresa, que tem que passar ponto, cumprir oito horas por dia, ela tem o mesmo tratamento da mãe que se diz trabalhadora e que se declara autônoma. Então, vê, está tudo errado. Meu filho tem direito, o seu filho também, independente se trabalha ou não. Como é que a gente resolve isso? Eu comecei a ver, quando eu consigo visitar as nossas escolas no período da tarde, a maioria das creches, três horas da tarde não tem aluno. Dois terços dos alunos já foram embora. E a professora está lá. Então, juntei tudo isso, comecei a pesquisar outras cidades. A lei fala da vaga em creche, mas ela não fala da vaga em período integral. Então o que eu pensei? Um agrupamento que eu tenha 15 vagas, eu ofereço uma parte dessas vagas no período integral, para mãe que comprovadamente trabalha fora. Então vamos imaginar que de 15 vagas, eu ofereça dez no período integral. Aí me sobraram cinco de manhã, cinco à tarde. Então ao invés de 15, eu vou atender 20.

Neste recadastro agora vocês vão questionar: ‘meio período adianta’?
Não, nós vamos saber se a mãe trabalha ou não. Trabalhar acho que não tem uma mãe que não trabalhe. Se ela não trabalha fora, ela trabalha no lar e a gente respeita isso. Por exemplo, uma mãe que é costureira em casa, eu sei que ela precisa trabalhar, que provavelmente às vezes ela é o arrimo de família. Mas ela está em casa. É diferente, ela pode organizar o tempo dela de acordo com a necessidade da criança. Uma mãe que trabalha numa indústria, por exemplo, ela não tem como fazer isso.

Por enquanto dá para dizer que está em estudo [o meio período]?
Está em estudo, porque a gente vai fazer esse recadastramento. Às vezes, o que a gente imagina nem se concretiza. Vamos imaginar que todo mundo trabalha mesmo, tem carteira assinada, não muda nada, porque todo mundo vai ter direito à vaga em período integral.

Tem classe com menos crianças do que o teto [número máximo de alunos previsto no regimento escolar]?
Esse é um dos maiores dilemas que enfrento em relação à creche. Eu fico entre a cruz e a espada. Eu tenho um regimento que garante ao professor que eu não coloque um mundo de crianças dentro de uma sala. E eu tenho de obedecer mandado judicial. E eu tenho aquela criança que é a primeira da lista de espera. O que que eu faço? O que a gente tem feito é conversar com o professor, com o diretor.

Hoje a maioria das classes está acima do limite?
Não. Eu tenho um caso ou outro na região da Praia, talvez, e no Parque da Liberdade. São as minhas regiões mais difíceis.

Você acredita que tem uma solução [para falta de vaga em creche] ou vai ser sempre essa coisa de ir brigando para encaixar um, outro?
Sou uma pessoa otimista, mas não consigo achar uma solução. A não ser que um dia as vagas em creche fossem todas em meio período, uma coisa assim. Que governo tem hoje condição de ficar construindo escola? Você constrói hoje, daqui a 15 anos essa demanda não está mais ali, ela muda de lugar. É uma coisa de louco.

E já que tem transporte escolar, não dá para levar criança para lá?
Então, a gente até pensou. Mas, a gente pensa: vamos transformar em creche, mas não tem demanda de creche nesse lugar. Para você transportar criança de creche, bebê, é muito complicado. Você não colocaria um filho seu dentro do ônibus. Nem eu.

Essa possível opção do meio período já reduziria bem [a fila]?
A gente acredita que conseguiria atender pelo menos mais 20% da população.

Aumentar o número de filantrópicas [conveniadas] e Creche para Todos [programa por meio do qual a prefeitura compra vagas em escolas particulares] seria uma maneira de reduzir a fila?
Seria uma maneira.

Mas tem oferta de creche suficiente?
Tem, mas não é em região que nos interessa. Se você falar para mim: “estou abrindo uma creche maravilhosa no Jardim Glória”, eu não tenho demanda lá.

No último Ideb que teve, em 2017, das dez escolas avaliadas, só quatro atingiram a meta nos anos iniciais.
Todas as nossas estão acima de seis. Mas elas não avançaram mais.

Vocês têm trabalhado para evoluir nessa meta?
Temos. Tem uma equipe de formação que tem se empenhado bastante, temos feito reunião com os pedagogos semanalmente. Essa formação, para dar resultado no fundamental, ela tem que começar na educação infantil. A gente conseguiu contratar a Andréa Patapoff (especialista em educação infantil e moradora de Americana que trabalhou na elaboração da base curricular nacional), ela está fazendo a formação dos professores na educação infantil. Eu estou tentando muito acertar, mas tem hora que eu falo assim: o dia precisava ter mais horas para gente dar conta. Porque tem hora que meu corpo acho que não vai dar conta.

Nesse um ano, qual foi o maior problema?
É a falta de tempo para poder atender todas as demandas. E as coisas não andam no ritmo que eu queria que andassem.

Deste um ano, o que você achou?
Estou muito grata, de verdade, muito grata à rede, porque acho que fui recebida de braços abertos. As pessoas estão desarmadas comigo.

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