Recepcionista afirma que fazia classificação de risco no PA do Zanaga

Ministério da Saúde determina que trabalho seja realizado por profissional da área; prefeitura nega a situação


A recepcionista concursada Amanda Martins de Castro, de 28 anos, que trabalhava no PA (Pronto Atendimento) Zanaga, em Americana, afirmou à reportagem do LIBERAL que precisou avaliar em mais de uma ocasião se os pacientes que davam entrada na unidade demandavam atendimento urgente ou emergente (risco de morte). Na Portaria 2048, o Ministério da Saúde regulamenta a classificação de risco e diz que deve ser realizado “por profissional de saúde, de nível superior, mediante treinamento específico e utilização de protocolos pré-estabelecidos”. Essa mesma norma impede a dispensa de pacientes.

De acordo com ela, isso acontecia em plantões em que havia apenas um médico, ao invés dos dois que são necessários, e este se recusava a atender pacientes que não seriam classificados como “vermelho” ou “amarelo” – nesses casos, há risco de vida se o atendimento não for realizado em até uma hora.

A recepcionista disse que recebeu ordens da coordenação da unidade para não abrir a ficha de pacientes que não fossem urgentes. Por conta disso, os pacientes somente passavam com os enfermeiros para a realização da triagem após a recepção avaliar se tratava-se de um caso grave.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Cartaz no PA do Zanaga mostra a forma de atendimento que deve ser seguida

Amanda afirmou que se sentia “despreparada” para realizar a avaliação da gravidade dos pacientes, já que não possui formação na área da saúde e nem contava com equipamentos necessários. “Você trabalha com saúde e acaba tendo um ‘feeling’, mas não tem os recursos e o conhecimento”, disse.

A secretaria de Saúde negou que os recepcionistas realizem classificação de risco. “A avaliação sempre é feita por um enfermeiro. O que a recepcionista faz é orientar os pacientes quanto ao tempo de espera em casos de haver apenas um médico atendendo, ou seja, que em muitos casos, não sendo urgência ou emergência, é preferível ao paciente procurar o Hospital Municipal. Da mesma forma que, em muitos casos, as próprias recepcionistas acabam verificando algum paciente passando mal durante a espera e, imediatamente, solicitam a intervenção médica, o que não caracteriza a recepcionista atuar em desvio de função”, disse a secretaria, que também negou a ordem para não abrir fichas de pacientes quando há apenas um médico atendendo.

Sobre a recusa em atender pacientes que não sejam urgentes ou emergentes, a prefeitura explicou que no caso de haver apenas um médico, ele vai “priorizar” os casos mais graves. “Entretanto, seja o médico ou quaisquer integrantes da equipe, jamais dispensam pacientes que procurem pelo serviço”.

Amanda foi transferida no segundo semestre do ano passado para o Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Adulto e entendeu a mudança como uma represália por se opor à determinação de não abrir fichas e precisar avaliar o risco dos pacientes. “Uma gripe forte não está colocando sua vida em risco, mas você está mal, e se não tem ninguém ali e não custava atender”, disse a recepcionista. “A funcionária foi transferida por uma necessidade de remanejamento para a unidade”, afirmou a prefeitura.

Dispensados

A reportagem conversou com dois pacientes que procuraram o PA (Pronto Atendimento) Zanaga na sexta-feira e que afirmam terem sido dispensados pois a recepção avaliou que não se tratavam de casos urgentes, e naquele momento havia apenas um médico na unidade. Nenhum deles passou por atendimento. A prefeitura disse que a presença de apenas um médico foi um problema pontual.

O ajudante geral Fernando Meira, de 29 anos, levou o pai José Aparecido Meira, 63, até a unidade após ele passar mal. “Estava vazio na recepção e não fomos atendidos.”

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Ajudante Fernando Meira e seu pai reclamam que não foram atendidos

A professora Fernanda Martins de Castro Scapolon Cavalin, de 29 anos, irmã da recepcionista Amanda Martins de Castro, procurou atendimento pois estava com dor de garganta e foi informada que só estavam realizando atendimentos de urgência. “Fui embora mesmo tendo médico”.

Segundo a prefeitura, Fernanda foi informada sobre o tempo de espera e orientada a procurar o Hospital Municipal, mas a professora disse que apenas foi informada de que não seria atendida.

“A senhora Fernanda compreendeu a situação e saiu da unidade sem solicitar outros serviços da equipe”, disse a prefeitura, que reconheceu que as fichas desses pacientes não foram abertas, mas negou que isso tenha ocorrido por orientação da coordenação.

“Ao serem informados de que o médico estaria atendendo apenas urgência e emergência, esclarecendo que, após a classificação de risco não acusar uma situação de emergência os pacientes seriam orientados a procurar o HM, eles deixaram a unidade”.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora

Receba nossa newsletter!