Projetos universitários ajudam em adaptação de haitianos

Alunos e professores do Unisal, em Americana, promovem cursos e atividades de integração para haitianos que vivem em cidades da Região do Polo Têxtil


A chegada de Guerlinx Doriscard ao Brasil não foi das mais tranquilas. Depois de deixar o Haiti, em 2013, passou por República Dominicana e Equador antes de desembarcar em São Paulo. Na capital, viveu na rua enquanto tentava encontrar uma casa e um emprego.

A vinda para Americana se deu por meio de contatos que lhe renderam uma vaga em uma obra em Campinas. Ao chegar aqui, conseguiu, finalmente, encontrar o que o fez sair do país onde nasceu: um lugar para estudar.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Ao LIBERAL, imigrantes contaram sobre saída do país e dificuldades na busca por empregos e estudos

A trajetória do haitiano de 28 anos, aparelho nos dentes e disposição para contar sua história e falar de suas ambições, é semelhante à de muitos compatriotas que desembarcaram no Brasil.

A imigração para a América do Sul se intensificou em 2010, quando um terremoto com epicentro próximo capital Porto Príncipe afetou a vida de mais de 3 milhões de haitianos e matou mais de 300 mil.
No Brasil, buscam trabalho e estudo, mas nem sempre como esperam. O emprego que trouxe Guerlinx de São Paulo para Americana surgiu em 2014. Trabalhando como ajudante geral, não durou um mês. “Tudo o que ele [o patrão] prometia, não cumpria”, disse.

A precariedade das condições de vida e trabalho, além do idioma e do fato de serem imigrantes, são dificuldades para os haitianos, segundo relatos ouvidos pelo LIBERAL (veja as histórias ao lado).
Na região, porém, eles encontram apoio em projetos desenvolvidos pela unidade do Unisal (Centro Salesiano de São Paulo) em Americana.

A iniciativa começou em 2016 sob a responsabilidade do representante da extensão e coordenador de pós-graduação do centro, Flavio Rossi.

“Começamos com cursos de português. Na medida em que foram intensificando os cursos, fomos criando uma afinidade maior com o grupo e passamos a identificar uma série de outras demandas”, explicou. “Para cada necessidade, começamos um projeto”.

Formada em logística no Haiti, Myterline Joseph, de 26 anos, era parte da classe média do país. Hoje, está há 4 anos no Brasil e vive com a mãe e os irmãos em Americana. A saída do Haiti foi motivada, segundo ela, pela tentativa de melhorar as condições de vida.

“Não estava no meu plano vir pra cá”, disse ao LIBERAL. “Tinha na minha cabeça que se eu quisesse uma vida melhor, eu tinha que estudar, me encaixar no lugar”.

As primeiras expressões que Myterline aprendeu em português foi “bom dia” e “obrigado”. No curso de língua portuguesa promovido pelo Unisal, o idioma melhorou. As novelas, brinca ela, também ajudaram.

Em outubro do ano passado, um grupo de 72 alunos haitianos foi a primeira turma a se formar no curso de língua e cultura brasileira.

Outros 20 – dentre eles Guerlinx e Myterline – fizeram um curso técnico de aplicação de pintura e textura também promovido pelo Unisal com a empresa Chromma, numa tentativa de capacitação técnica dos imigrantes.

O centro estuda agora uma maneira de ajudar os haitianos a conseguirem emprego, por meio do projeto de uma empresa de recursos humanos voltada a imigrantes.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Myterline Joseph

Myterline Joseph, 26: Chegou no Brasil em 2014. Hoje, mora com a mãe em Americana. Formada em logística, tenta uma vaga na área por aqui. Ela diz que gostaria de voltar ao Haiti, mas não para ser “mais um”. “Sinto falta dos amigos e do cheiro da terra quando cai a primeira gota de chuva”.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Guerlinx Doriscard

Guerlinx Doriscard, 28: Antes de vir para Americana, morou na rua por 27 dias em São Paulo. Depois de entrar no Unisal, no curso de engenharia civil, desenvolveu um projeto de tijolos ecológicos e quer usá-lo para ajudar na construção de casas para imigrantes e refugiados na região.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Jesufaite Deus

Jesufaite Deus, 30: Veio ao Brasil em 2015 para trabalhar e estudar, mas está há um ano desempregado. Morando com a esposa no bairro São Jerônimo, ele diz querer voltar ao país natal para ajudar outras pessoas, “igual os brasileiros fazem aos haitianos”.

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Jean Richar Jeanty

Jean Richar Jeanty, 33: No Haiti, trabalhava como assistente contábil de um hotel. Morava na capital haitiana quando ocorreu o terremoto e lembra da destruição de casas vizinhas à de sua família.
Em 2017, veio ao Brasil para tentar fazer uma faculdade e uma especialização

Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal
Jean Daniel Michel

Jean Daniel Michel, 36: Saiu do Haiti para a República Dominicana e entrou no Brasil pelo sul, em 2016. Em Balneário Camboriú (SC), trabalhou como barman. Com ajuda de amigos, dez meses depois, veio para Americana em busca de emprego. Aqui, participou dos projetos do Unisal.

LIBERAL VIRTUAL Acesse agora