Os mitos e as verdades sobre a febre maculosa

Com a ajuda do biólogo Jardel Brasil e do médico José Brites Neto, LIBERAL esclarece dúvidas sobre a doença


Basta uma nova e grave notícia sobre casos confirmados de febre maculosa em Americana e região para surgirem comentários sobre soluções para o problema. É fato que a cidade vive um surto da doença. Somente em 2018 foram registados dez casos positivos para doença, com nove mortes. Entre as sugestões, entretanto, há muito senso comum.

Com a ajuda do biólogo Jardel Brasil e do médico veterinário José Brites Neto, ambos do PVCE (Programa de Vigilância e Controle de Carrapatos e Escorpiões) de Americana, o LIBERAL esclarece hoje alguns dos principais mitos e verdades em relação ao combate à doença. Algumas das “soluções” questionadas aos profissionais são constantemente comentadas na Internet ou até usadas de argumentos por pessoas que insistem em frequentar as 15 áreas de risco identificadas na cidade.

De acordo com os profissionais, a principal arma contra a febre maculosa passa longe de matar capivaras ou pulverização contra carrapatos: é a responsabilidade de não ir até esses locais onde há infestação de carrapatos que transmitem a doença.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Médico veterinário José Brites Neto e biólogo Jardel Brasil esclarecem dúvidas

Exterminar as capivaras ou removê-las para algum outro local é solução

Mito: A capivara participa do ciclo de transmissão da febre maculosa somente durante um período da vida dela, até ter imunidade. Se forem mortas ou remanejadas, haverá mais recursos disponíveis no ambiente, e isso fará com que elas se reproduzam em maior número. As novas não estarão imunes e estarão suscetíveis a participar do ciclo de transmissão da doença. Além disso, é possível que se manipule capivaras que já estão imunes à febre maculosa.

Pulverização com inseticidas nas matas ciliares pode acabar com carrapatos

Mito: Isso é considerado crime ambiental, porque os produtos não são seletivos. Se aplicado, vai eliminar toda a fauna do local, como abelhas, besouros e borboletas, que têm papel importando porque são polinizadores. Além disso, os produtos são tóxicos para peixes, e há risco dos inseticidas irem parar na água. Com orientação técnica, os inseticidas podem ser usados de forma esporádica em gramados roçados de chácaras particulares.

Passar gasolina na pele para ir pescar

Mito: Não é indicado, além de muito perigoso. O indicado, caso a pessoa precise ir às áreas de risco, é o uso de repelentes apropriados para pele.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Carrapato estrela é o único que transmite a doença na região de Americana, que soma 9 mortes

Existe contaminação por mordida de capivara

Mito: A bactéria não está presente em quantidade suficiente na saliva da capivara, mas somente na saliva do carrapato.

Somente o carrapato estrela, das capivaras e cavalos, transmite a doença

Verdade: Na nossa região, somente esse carrapato transmite a doença. Em outras partes do País, há outros carrapatos, como os de cachorros, que também transmitem. Na região, não.

A febre maculosa é muito letal

Verdade: Em Americana, a febre maculosa tem taxa de letalidade na casa dos 75% na série histórica de 11 anos. Só em 2018, dos 10 casos confirmados, nove resultaram em óbitos. No Estado de São Paulo, a taxa de letalidade é de 55%.

O carrapato precisa ficar cerca de 4 horas no corpo para transmitir a doença

Verdade: Se sabe, cientificamente, que transmissão da bactéria se dá em até seis horas. Por isso, a recomenda-se que, caso a pessoa vá a uma das áreas de risco, que faça a verificação no próprio corpo até duas horas depois.

Mato alto ajuda na proliferação do carrapato

Verdade: O carrapato tem preferência por vegetação arbustiva. Quando se faz a roçagem do gramado, a própria incidência de luz solar elimina as larvas e ninfas.

O carrapato pode ser levado pelo vento

Mito: Diferente de sementes de árvores, o carrapato tem em suas pernas uma substância que o faz se grudar nas plantas e hospedeiros. Por isso, quando ele está numa folhagem, mesmo com vento forte, ele não se solta. Os pássaros, entretanto, podem levar os carrapatos em gravetos usados para formar os ninhos.

O diagnóstico rápido pode impedir a morte

Verdade: Se encontrar o carrapato, é preciso removê-lo com uma leve torção, para evitar lesão na pele. Depois, é preciso ficar atento aos sintomas, que aparecem entre cinco e 15 dias depois. Se sentir febre, dor corporal, mal-estar, dores de cabeça, a pessoa deve procurar o médico. Não é necessário que apareçam marcas na pele. Isso é sinal de estágio já avançado da doença. No médico, o paciente deve informar que foi a uma área de risco e que encontrou carrapatos na pele.

A única prevenção é não ir às áreas de risco

Verdade: É a mais efetiva, e depende somente do indivíduo. Diferente da dengue, só pega febre maculosa quem vai aos locais de risco. As pessoas devem ter “frequência responsável”. O período de maior incidência da febre maculosa é de março a novembro. Nessa época, não se deve ir aos locais de risco, nem por alguns minutos, muito menos para pescar por longas horas.

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