O legado de Tio Gága: espaços públicos ganham vida em Americana

Inspirados e até com “assessoria” daquele que dá nome à famosa praça de Americana, moradores dão vida a áreas públicas


A paisagem de alguns bairros em Americana já não é mais a mesma. Inspirados pela iniciativa do engenheiro Luiz Gonzaga Trevisani, responsável pela implantação da Praça do Tio Gága, no Jardim Glória, moradores incomodados por áreas e praças abandonadas estão transformando o visual e a maneira de ocupar esses espaços.

A transformação vai desde projetos maiores – com brinquedos elaborados e espaços demarcados – até iniciativas pautadas por gestos mais simples e não menos importantes, como o cuidado com a manutenção, criação de pequenas bibliotecas e espaços de contemplação.

O Gága, como é mais conhecido o engenheiro que acabou vendo seu nome atribuído à praça, foi o precursor. Sua iniciativa não apenas mudou o visual da área que ocupa uma quadra inteira no Jardim Glória, como também o transformou em espaço de convivência para os moradores inclusive de outras cidades que frequentam o espaço, já considerado uma área de lazer do município.

Em entrevista ao LIBERAL em setembro, ele contou que a ideia era usar apenas um cantinho do espaço de quase dez mil metros quadrados, onde pudesse construir um banco de madeira e dali contemplar o nascer do sol e a lua ao anoitecer.

Desde então, se passaram três anos. O banco de madeira continua lá – no mesmo lugar – mas não está mais sozinho. Brinquedos de madeira fazem a alegria de crianças e adultos que todas as tardes lotam o espaço, redescobrindo o prazer da vida ao ar livre.

A iniciativa que agora encontra eco em diferentes regiões de Americana não tem apenas seu apoio, mas também sua ajuda. Gága já visitou vários desses locais, deu dicas sobre a construção dos brinquedos e sobre a melhor forma de fazer as coisas darem certo.

O resultado já começa a aparecer. Para Gága, iniciativas desse tipo são gestos de cidadania e dão outro sentido ao conceito de espaço público. Como diz, a Praça do Tio Gága na verdade é de todo mundo. E assim são as novas praças. Embora tenham surgido ou se transformado através das mãos de poucos, é a ocupação por todos que justifica seu sentido.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Praça Vó Palmira

Praça da ‘Vó Palmira’ – Jardim Nossa Senhora do Carmo

Uma quadra vazia, com poucas árvores antigas e muito mato. Assim era o espaço rebatizado como Praça da Vó Palmira, no bairro Jardim Nossa Senhora do Carmo. A área é tão grande como a do Tio Gága e foi dali que veio a inspiração para o publicitário Bruno Valente transformar o local com a ajuda de amigos e moradores do entorno. Foram necessários sete meses para a transformação. O que o grupo conseguiu nesse tempo superou a expectativa de todos. “O Gága nos disse ‘começa pequeno, faz um brinquedo e depois vai crescendo aos poucos’. A gente fez, mas a comunidade foi se envolvendo cada vez mais e hoje o resultado está aí. Para todo mundo desfrutar”, conta.

No dia 5 de maio do ano passado, data marcada para começar a limpeza da área, apesar das 700 cartas distribuídas aos moradores do entorno, apenas quatro pessoas estavam na praça. Mesmo assim foram retirados 27 sacos de 100 litros contendo lixo. Era só o início. Desde então, todos os sábados sempre tem alguém na praça ajudando a manter o local e os brinquedos em ordem.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Bruno Valente (centro) com o voluntário Guilherme e Vó Palmira

A Palmira, uma senhora que mora bem em frente à praça, desde o início estava por perto. Além de café, bolo e água para a turma de voluntários, também cedeu a casa para que pudessem guardar a madeira e os materiais usados na fabricação dos brinquedos e acabou sendo homenageada com o seu nome batizando o espaço. O grupo de três pessoas que deu o pontapé inicial ganhou reforço. Hoje, pelo menos 70 pessoas são ativas e se revezam nos cuidados com a praça.

Ao contrário do Gága, que reaproveitou as madeiras das árvores existentes na praça para os brinquedos, na “Vó Palmira” elas precisaram ser compradas. Iniciativas como rifas e venda de pizza angariam os recursos necessários para bancar a madeira tratada usada no local. São vários brinquedos, com direito a ponte, casa na árvore e até tirolesa. O capricho e a boa vontade dos moradores se refletem também em detalhes como os materiais reciclados que dão forma a esculturas de animais e flores e plaquinhas com orientações sobre como deixar o local sempre em ordem. Tudo pelo bem comum.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Praça Alegria

Praça Alegria – Nova Americana

A fotógrafa Carol Gouveia mora no Nova Americana e já frequentou a Praça do Tio Gága. A praça próxima à casa dela não oferecia atrativos. Pelo contrário. Usuários de drogas afastavam os moradores do bairro que acabavam não tendo opção para levar as crianças e se distrair ao ar livre. Através da iniciativa da moradora isso começou a mudar.

O local não só foi revitalizado como também virou palco para pequenos eventos voltados às crianças das redondezas. “O espaço estava abandonado. As pessoas tinham medo de frequentar a praça”, diz Carol. Ela lembra que os brinquedos eram quebrados e os poucos bancos que a prefeitura colou na área ficavam sob o sol. Insatisfeita, partiu para a ação. Com a ajuda do marido começou a transformar o local com a reforma dos brinquedos e novos bancos. Aos poucos, as pessoas que estavam afastadas do espaço começaram a voltar.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Carol com Alan e Olivia no Nova Americana

Hoje, ele está sempre cheio de crianças e moradores, que finalmente encontraram na área um espaço de convivência e lazer. “A gente encontrou dificuldades para conseguir as doações e tudo o que a gente precisava para a reforma, mas não desistimos e aos poucos fomos conseguindo transformar a praça”, diz Carol. Ela frequenta o espaço com a filha e, como ela mesmo diz, está “sempre por ali, fazendo uma coisa ou outra”. Além dos cuidados para deixar a praça sempre em ordem, ela agora também começou a fazer festa para as crianças. A primeira aconteceu no Dia das Crianças.

No último dia 22, foi a vez da festa de Natal, com distribuição de cachorro-quente e doces, fazendo a alegria das crianças e justificando o nome da praça.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Praça Novo Mundo

Praça Regina Célia Urban Tasinafo – Parque Novo Mundo

Há um ano e meio, quem passa pela Rua Marília, no Parque Novo Mundo, nota que a pequena praça existente ali não é mais a mesma. Brinquedos feitos de pneus, floreiras, plaquinhas com frases motivacionais e até uma biblioteca compõem o novo visual do espaço. Adriana Ferreira Pires e o marido Eduardo, residentes bem em frente ao local, são os responsáveis pela mudança. A iniciativa partiu deles e com a ajuda de outros moradores do bairro ganhou força e conseguiu mudar a realidade de todos que vivem ao redor. Adriana conta que desde que se mudou para a casa atual tinha por hábito varrer a praça.

Na época, o local se resumia a algumas árvores e poucos bancos. Há cerca de dois anos, durante um passeio na Praça do Tio Gága, veio a ideia de fazer algo além da limpeza. “Quando vi o espaço dele foi como uma lâmpada acendendo. Pensei na hora que dava para fazer algo parecido aqui e começar a atrair crianças e gente do bem também para cá”.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Adriana com os filhos Eduarda e Fernando no Parque Novo Mundo

A conscientização sobre a importância do meio ambiente já fazia parte da família. “A gente pratica capoeira e dentro da capoeira a preservação e integração com o meio ambiente é algo muito forte. Então, unimos o conceito que já tínhamos com a vontade de transformar a praça e fazer dela um espaço melhor para as crianças e famílias do bairro”, detalha Adriana. Antes da revitalização, ela conta que a praça era usada por usuários de drogas e ladrões. Os assaltos a casas próximas eram frequentes.

Com a revitalização , ela informa que nunca mais soube de crimes na vizinhança, e as crianças passaram a ser as principais frequentadoras do espaço. “É um prazer ver as crianças brincando ao invés de estar com o celular na mão ou dentro de casa no computador”. Na opinião de Adriana, para dar o primeiro passo e transformar espaços de convivência é preciso atitude. “Não adianta só ficar reclamando. Devemos cobrar do poder público, mas eu acho que a gente deve se mexer também. Além de fazer um bem enorme para quem faz, muda para melhor a nossa realidade e a de quem está ao nosso lado”.

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