‘Ninguém conseguiu atingir o patamar de economia que atingi’

Após dois anos presidindo a Câmara de Americana, Ondas deixa o cargo destacando o corte de gastos no Legislativo


A partir de 1° de janeiro, o vereador Alfredo Ondas (MDB) passa a ser o mais novo ex-presidente da Câmara de Americana. Orgulhoso de ter conseguido cortar diversos gastos durante sua gestão à frente do Legislativo, ele concedeu entrevista ao LIBERAL para fazer um balanço dos dois anos nos quais administrou a câmara. O parlamentar falou sobre a importância do zelo pelo dinheiro público, e que espera que a nova presidência faça o mesmo.

Ainda na entrevista, Ondas relembrou momentos mais intensos durante as sessões, nos quais ele considera que agiu democraticamente, e arriscou alguns palpites em relação ao quadro de concorrentes à prefeitura em 2020. Além disso, revelou que considera o cargo de presidente da câmara uma posição onerosa por conta da grande responsabilidade.

Foto: Marcelo Rocha/O Liberal
“Pode ser que eu até saia (candidato), mas não é uma obsessão”

Como surgiu seu nome na disputa da presidência em 2016?

Nós tivemos um grupo de vereadores que se reuniu para conversar. Lá atrás, a gente tinha uma certa resistência, porque o grupo dos 15 que não haviam ainda passado pela câmara tinham com eles que o comando da câmara deveria ficar com eles. Mas depois, conversando, viram que a experiência que eu tinha em gestão, minha profissão como delegado, poderia ajudar. Então um grupo de 11 vereadores acabou praticamente encaminhando meu nome para ser presidente. Infelizmente não consegui unanimidade. Tentei, mas não consegui. Foi num bate-papo que surgiu, até com naturalidade.

Ao longo desses dois anos, vimos várias sessões tensas, conturbadas, como as votações de IPTU, mudança do feriado do Dia da Consciência Negra e a alteração na lei para permitir a concessão do DAE. Esses foram, de fato os momentos mais complicados?

Eu não diria. Pra nós, o que assustou foram as duas primeiras sessões do ano. Em que um grupo de pessoas veio até a câmara protestar contra os vereadores. Mas espera um pouco, protestar contra o Legislativo? Era uma forma, creio eu, de intimidação que partiu de um grupo político da cidade para tentar realmente começar um trabalho já de desmotivação para quem estava chegando. E isso passou rápido. Mas essas votações ditas polêmicas foram, até um certo ponto, tranquilas. Houve manifestações de grupos, mas boa parte dos vereadores se manteve firme aos princípios e pensamentos que tinha. Pouca coisa foi mudada na pressão. Tanto que o feriado, quem tinha a ideia de não ter o feriado no dia 20, manteve seu posicionamento. O IPTU, evidente que toda vez que se fala em aumentar o que a pessoa vai pagar, gera revolta. Mas o de 2017 teve majoração em alguns pontos que estavam defasados e diminuição em pontos mais pobres que estavam pagando alíquota mais elevada. Houve uma adequação de maneira muito técnica. Esse ano foi conturbado, mas era só reajuste, a recomposição monetária. O IPVA, por exemplo, sofre reajuste sem que a gente sequer se manifeste.

Mesmo assim, não deixaram de ser momentos tensos em que o senhor inclusive teve de pedir silêncio, elevar a voz…

Sim. Mas eu acredito que as coisas funcionam na base do respeito. E ele tem que vir de ambos os lados. Eu acho que fui bastante democrático em saber aceitar e ao saber detectar quando houve certo abuso, alguma ultrapassagem do limite. Então a gente alertava as pessoas. Para sorte nossa, na grande maioria dos casos, com uma advertência, as pessoas souberam melhorar a condição de se manifestar.

Nesses dois anos, o que acha que o senhor vai levar de legado pessoal, para seus planos futuros, próximos passos?

Não tenho a política como necessidade de fazer carreira. Não tenho isso. Não é aspiração minha ser amanhã prefeito, deputado. Não tenho. O que eu queria é que houvesse um reconhecimento das pessoas de que qualquer um que se aventure na política tem que ter em mente essa necessidade de, primeiro, cuidar bem do emprego do dinheiro público. Eu queria que ficasse esse legado para quem vier. Principal ponto é esse. De que quem chegar, seja sério, e não permita que ninguém desvie nada.

Seria esse o legado que fica para a câmara, o da economia?

Com certeza. Com todo respeito, mas em todas as gestões passadas, ninguém conseguiu atingir o patamar de economia que eu atingi. Economizar perto de 20% do orçamento, com o principal objetivo de não perder a capacidade operacional da câmara. Porque uma coisa é economizar mantendo a condição de atuação de todos os vereadores, e outra é fazer uma economia radical, mandar embora todos os comissionados. Isso trava o Poder Legislativo municipal. E aí volto a bater nessa tecla, de que a gente defenda um Legislativo forte e atuante, mas também ético. Porque a partir do momento que as pessoas repudiam o Legislativo por conta de erros de corrupção, praticados fora daqui, a gente fica descrente do Legislativo, e isso é ruim. Porque temos que ter em mente que o Legislativo é um dos componentes da democracia. É do equilíbrio de forças dos três poderes que se tem a estabilidade democrática. Por isso temos que ter um Legislativo forte e atuante, como é em todos os países civilizados.

Essa câmara, logo que eleita, foi chamada de “renovada”, afinal só quatro haviam passado pelo Legislativo antes. Na sua opinião, isso ficou demonstrado ou algumas práticas antigas foram repetidas?

É difícil dizer. Evidente que alguns comportamentos passam a ser seguidos, mas eu acho que essa oxigenação na política é interessante, e acho que deva acontecer também mais à frente. Que aqueles que mostraram bastante qualidade possam ser mantidos e usar a experiência que carregam, mas ter a oportunidade de botar mais gente com ideias e propostas novas. Acho que é esse o caminho. Faz parte do jogo democrático ter essa alternância.

Como presidente, o senhor acha que essa cadeira serve de vitrine para 2020, ou é mais ônus do que bônus?

Acho que é mais ônus do que bônus. A história da Câmara Municipal de Americana remete a uma situação assim. Todos aqueles que foram presidentes no segundo biênio, coincidentemente não conseguiram sucesso nas urnas no final. Porque vai existir uma disputa muito ferrenha principalmente em 2020 por conta da campanha. Vai haver desgaste muito grande, muitas situações vão ser criadas, vão ser suscitadas. É muito mais risco para quem assumir. E outra, não tem nada de glamouroso nisso aqui. É uma responsabilidade muito grande. Porque o TCE passa a ser mais rigoroso na apreciação das contas, e não é só aqui.

Que nomes o senhor vê na disputa da prefeitura em 2020?

Nossa. Hoje a gente escuta muita gente se posicionando com interesse em ser candidato a prefeito. A gente tem alguns nomes em mente. Existe a naturalidade do Chico Sardelli, que não conseguiu espaço de vir, e é bem provável que venha. Já se manifestou também o Odair Dias, que também é do PV. Com certeza o PSDB lança candidato. O nosso partido, MDB, vai discutir esse assunto, ainda não existe consenso. Mas com certeza vai ter muito mais gente disputando esse espaço político. Vai ter mais que a última. Estou falando esses que são os que vêm à cabeça.

Deve ter algum nome da câmara?

Entre os vereadores, com certeza. Porque vários tentaram a disputa a deputado. Também é um risco que se corre, porque se não conseguir, ficam de fora. Temos exemplos de políticos bons de voto que arriscaram e acabaram ficando na geladeira.

O senhor já disse algumas vezes que não sabe se será candidato outra vez. Tem essa definição?

Eu não tenho intenção de carreira. Pode ser que eu até saia, mas não é uma obsessão. Eu quero fazer um bom trabalho, que as pessoas se lembrem da minha passagem pela política de uma maneira positiva. Tenho família, filhos, e uma vida passada bastante limpa. Eu vim para a política não para mudar minha forma de ser. Não almejo muito assim, só fazer meu trabalho bem-feito.

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