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VCA 141, DEZ ANOS

‘Não há um dia que eu não me lembre’, diz motorista do VCA 141

Em entrevista ao LIBERAL, ex-motorista Alonso de Carvalho, que causou o acidente com o trem, comenta como lida com o episódio

Por Marina Zanaki

08 set 2020 às 08:01 • Última atualização 08 set 2020 às 09:46

O ex-motorista Alonso de Carvalho, que causou o acidente entre o ônibus da VCA e o trem no cruzamento da linha-férrea, na Rua Carioba, diz se lembrar todos os dias do episódio, mas que com a ajuda da fé e de quatro anos de terapia conseguiu “aceitar” o que aconteceu naquela noite de 8 de setembro e nos anos que se seguiram.

 O motorista Alonso de Carvalho, em audiência sobre o caso em 2011 – Foto: João Carlos Nascimento / O Liberal

“Lá no meu íntimo, no coração mesmo, eu aceitei o que aconteceu. Porque a gente pensa: Jesus Cristo é perfeito, fizeram o que fizeram com ele. Eu que sou um simples mortal passei por tudo aquilo”, disse ao LIBERAL.

Alonso foi condenado a uma pena de quatro anos e meio de serviços comunitários em 2014 por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Sua defesa trabalhou em dois argumentos para pedir a absolvição: a falta de sinalização no local do acidente e o perdão judicial. Esse último é concedido quando as consequências de um crime culposo são tão graves para o autor que uma pena se torna desnecessária.

“Com 51 anos [na época do acidente] eu nunca tinha precisado da justiça dos homens, e de repente se envolve em um acidente daqueles enquanto está trabalhando e é condenado como se fosse bandido. Aí que a gente vê que a justiça dos homens é totalmente diferente do que a gente pensava”, disse.

Alonso cumpriu a pena e não deve mais nada à Justiça. Contudo, ele relata ter dificuldades para dormir até hoje.

O ônibus VCA 141 após o acidente na linha férrea em Americana, em 8 de setembro de 2010 – Foto: Marcelo Rocha / O Liberal

O motivo não é nenhum sentimento de culpa, pois afirma ter a consciência tranquila por sua inocência, mas em função de dores decorrentes das sequelas físicas do acidente, ocorridas nas pernas, pés e bacia.

“Eu paguei sem dever, mas eu paguei. Mas quem sou eu, Jesus Cristo não devia nada e pagou tudo por nós”, desabafou.

Alonso contou que nunca sentiu nenhum dedo apontado para si nos anos posteriores ao acidente. Porém, lembra de “mentiras” que teve que ouvir.

Uma vez, andando como passageiro em um ônibus, ouviu uma conversa nos bancos traseiros quando o coletivo passava pelos trilhos, bem no local onde ocorreu o acidente. Ele então escutou uma conversa entre passageiros que recordavam a tragédia.

“Teve um que perguntou: ‘e o motorista, o que aconteceu?’. E outro disse: ‘mataram ele’. Eu fiquei quieto”, recorda. “Fazer o quê, tem que conviver com isso. Eu sou cabeça e tenho muita fé em Deus”.

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